agosto 19, 2008
Nihao the Antelope
Muito antes dos Jogos Olímpicos começarem, os clientes chineses de Mr.M nos presentearam com um dos Fuwa, os mascotes oficiais. O nosso é o YingYing, que representa o antílope ágil e rápido das montanhas, um dos primeiros animais a serem protegidos por lei na China, refletindo a preocupação ao meio-ambiente do país que é atualmente o maior poluidor e exterminador de espécies do mundo. Os ornamentos da cabeça do antílope captura a essência da cultura tibetana, que aliás tem sido pisoteada, perseguida e arrasada à força.
Nós apelidamos o antílope de Nihao porque essa é a única palavra que a gente ainda sabe falar em chinês. Nihao é meio chato e torce pra China e dá gritinhos quando seu país de origem ganha medalha de ouro. A gente manda ele shut the hell up e ameaça colocá-lo de volta ao armário onde ele vivia até o dia 08/08/08.
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Eu pensei em colocá-lo na janela, mas como aqui no vilarejo todo mundo já suspeita que eu sou chinesa, se eu o exibisse a suspeita se tornaria uma certeza absoluta e eu não quero aumentar a confusão. Vou esperar os Jogos Olímpicos no Brasil daí eu coloco Zé Carioca, Hello Kitty e Wallace & Gromit na janela.
Tenho me divertido assistindo às competições. Nos Jogos Olímpicos de Atenas nós não acompanhamos à nada porque estávamos distraídos na África do Sul.
É bom poder torcer para dois países, apesar de ser raro ter transmições do time brasileiro por aqui. Mas assisti pela primeira vez à Daiane e torci pelos nadadores que nunca tinha visto antes. A Grã-Bretanha tem se saído bem no remo, ciclismo e natação feminina. Gosto do logotipo da equipe britânica, com o leão feito das listras da Union Jack Flag.
Adoro a ginástica artística e para mim essa competição é o grande ícone das Olimpíadas. Este ano aprendi a gostar também dos mergulhos sincronizados, graças à cobertura intensa da mídia sobre mergulhador inglês Tom Daley, de quatorze anos. Mr.M adora ciclismo e tem vibrado com Chris Roy, nosso Michael Phelps em duas rodas, com três medalhas de ouro. E nós dois adoramos as provas de atletismo também, porque países ricos e pobres competem igualmente e, apesar dos pesares de cada país, vence o mais rápido, mais forte, mais determinado. Ao contrário da elitista prova Equestrian Dressage, que podia muito bem ser retirada dos Jogos Olímpicos e transferida diretamente pro Crufts.
Eu já sinto pena da abertura dos Jogos Olímpicos em Londres, em 2012, depois do espetáculo em Beijing. Aqui não vai ter esse povo todo em coreografia sincronizada, não. No máximo umas Spice Girls rebolando, uma bandinha de fanfarra emprestada da Rainha, David Beckham acendendo a tocha com um isqueiro, depois todo mundo vai pro pub e fica tudo certo. E o mascote não deve ser nada que se assemelhe aos Fuwa chineses, da qual nosso antílope Nihao faz parte. Não. Trafalgar o Pombo, talvez.
agosto 7, 2008
Evade
O interior da casa está no pior estado possível nesta fase do meio da reforma. Para terminar os encanamentos do banheiro precisamos primeiro trocar o boiler, que fica na cozinha. E para trocar o boiler precisamos demolir uma das paredes da cozinha, onde ficam a geladeira, a máquina de lavar roupa e os armários. Parede esta que também é parede da sala. As caixas da mudança continuam por todo lado porque não temos onde colocar absolutamente nada. Os materiais de construção se empilham em imensas montanhas cujo topo tem ar rarefeito.
Então eu passo mais tempo no jardim e no conservatory do que em qualquer outro lugar. Escapo da desordem insana e finjo que não é nada comigo.
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julho 29, 2008
Groseilles Rouges
A única vez que havia provado as redcurrants foi um cacho congelado que veio no pacote de frutas de verão. Achei extremamente azedas e fiquei com a idéia na cabeça de que não havia gostado. Porém, no canteiro de berries, os pés de groselhas estavam carregadíssimos e apesar das minhas tentativas de ignorá-las enquanto estavam verdes, fiquei tentada a prová-las assim que começaram a ficar vermelhíssimas e brilhantes. Comi algumas do pé e fiquei impressionada. Sabor totalmente diferente das congeladas, um gosto fresco ultra-agradável, muito suco explodindo das pequenas pérolas, ainda um tanto azedinha mas totalmente tolerável, como a pitanga.
Passamos a devorá-as todos os dias. Os pássaros não dão a mínima pra elas, uma vez coloquei um cacho madurinho na bandeja dos pássaros e Pepe pegou o cacho pelo cabo e jogou no chão, como quem diz "quer fazer o favor de não colocar essa porcaria no meu prato, francamente!". Mas os pés de groselhas estavam em produção máxima e mesmo consumindo-as todos os dias e mesmo depois de presentear (leia-se, empurrar) vizinhos com uma caixa de cachos colhidos na hora, não estávamos dando conta. Então para panelas elas foram e hoje elas são a atração do café da manhã.
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Redcurrant Jelly
500g de groselhas vermelhas
500g de açúcar
Leve as frutas em fogo baixo com um pouco de água, até borbulhar. Cozinhe por 10 minutos, até as frutas derreterem. Adicione o açúcar, aumente um pouco o fogo e cozinhe por 8 a 10 minutos, mexendo sempre. Retire do fogo, deixe esfriar. Peneire a geléia. Esterilize potes e tampas (via lava-louças ou colocando-os no forno 60ºC por 5 minutos, bocas para baixo). Despeje a geléia nos potes, cubra com um círculo de papel-manteiga, tampe e conserve-a na geladeira.
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Não, não tem gosto de groselha-vitaminada-millani-iarrú, não.
julho 24, 2008
CSI Yorkshire - Aye!
Paciência é a virtude imposta aos jardineiros. Não há como apressar a natureza. E com paciência cuidei dos morangos, desde às flores.
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Água, afofamento da terra, mais água e paciência. Os morangos foram crescendo em passo lentos mas constantes.
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Um pouco de sol e logo os morangos começaram a ficar vermelhos. Senti que a colheita estava próxima.
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No entanto, os morangos, que estavam destinados a ter lugar de honra dentro da salada de frutas, encontraram seu cruel final estraçalhados na terra . Um assassino em série começou a atacar os morangos um a um, nem mesmos esperou o total amadurecimento dos indefesos frutos. Sem misericórdia ou escrúpulos, devorou as vítimas impiedosamente.
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Tive algumas pistas: as mordidas eram pequenas e afiadas, atingindo uma vítima de cada vez, em vários golpes. Seja lá o tamanho do criminoso, a barriga do mesmo deveria estar protuberante com a quantidade de vítimas ingeridas.
Com tais evidências, só nos restou um suspeito: o mais arredondado, insaciável e glutão das espécies do jardim. O terrível famigerado Pepelete, que posteriormente fora flagrado em ação!
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Caso encerrado.
Aye, we're cleverer than Miami and NY together.
julho 22, 2008
Pepe the Blackbird
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Por muitas semanas os dois trabalharam sem descanso colhendo minhocas e insetos pra alimentar o ninho. Foram vários dias de intensa dedicação. Numa semana, porém, Pepina foi embora. É comum entre blackbirds a fêmea deixar o ninho e os filhotes aos cuidados do macho e ir embora para fazer outro ninho num outro lugar. Então Pepina se foi e deixou Pepe com seu coração partido para criar os Pepeletes.
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Houve até dias em que eu saí pro jardim com capa de chuva e bota, no meio do temporal, com minha pázinha para procurar minhocas frescas nos canteiros. Tudo pela sobrevivência dos Pepeletes.
Os dias passaram e nos perguntávamos se veríamos os Pepeletes algum dia ou se eles simplesmente deixariam o ninho sem ao menos nos dar a chance de conhecê-los.
Mas Pepe não é mal-agradecido e aos pouquinhos, em brevíssimas e raras oportunidades, ele trouxe um Pepelete para nos apresentar.
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Gradativamente Pepelete começou a sair mais do ninho e explorar o mundo que o cerca. Às vezes eu achava que Pepelete estava se movendo rápido demais pros meus olhos; num instante estava na cerca, no outro segundo estava no canteiro.
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Hoje ambos estão saudáveis, grandões, gulosos, voadores. Continuam dependentes do Father of The Year Pepe, mas também já andam procurando as suas próprias minhocas, comendo meus morangos e experimentando sementes caídas. Ainda é cedo para saber se são machos ou fêmeas ou um de cada. Tenho uma certa parte na nutrição dos três, mas nada tira o mérito de Pepe de ter se dedicado com tanta determinação na alimentação e proteção contra predadores. E tenho certeza, a satisfação de Pepe deve ser dez vezes maior que a minha de vê-los assim, em boa saúde, sobrevivendo por mais uma geração.
Well done, Pepe!
Note from the author: As fotos estão péssimas, a maioria foi tirada por trás da janela, com o vidro fazendo terríveis reflexos. A lente também não é longa o suficiente para fotografar pássaros, uma telephoto seria um presente de muito bom grado *hint hint*
julho 14, 2008
At Last, Home
Estamos finalmente, definitivamente instalados em nossa casa. Depois de dois anos e meio vivendo sem endereço fixo, agora temos todos nossos pertences num só lugar.
Nossa mudança do apartamento foi um tanto estressante, carregamos muito peso, fizemos duas viagens para trazer tudo pra cá, corremos para limpar tudo e entregar as chaves. Por outro lado, nossa mudança do deposito chegou tranquila e de prejuízo só a lateral da geladeira que sofreu um arranhão. De resto tudo chegou em ordem.
Abrir as caixas está sendo uma experiência similar à manhã de Natal. Já havia esquecido o conteúdo de cada uma delas e sempre me surpreendo ao encontrar algo que nem sequer sabia que possuía.
No meio de todo o tumulto e caixas de papelão, reservamos alguns momentos para brindar e celebrar o novo lar e também comemorar meu aniversário.
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A reforma está parada no momento porque Mr.M, meu único construtor-pedreiro-encanador-eletricista, está viajando de novo. Mas ao menos ele terminou todo o encanamento em cobre que ficou uma obra de arte, instalou o chuveiro, a banheira e também o novo vaso sanitário. É tudo o que precisávamos.
Ainda estamos sem t’Internets, graças à incompetência da BT. Uso o computador da biblioteca do vilarejo umas poucas vezes, mas eu quero minha própria broadband. Like, now.
Estamos aos poucos nos adaptando ao novo ritmo de vida vivendo no meio do mato. Por enquanto a infra-estrutura do vilarejo tem sido mais que suficiente para nossas necessidades. E o trem me leva pra Sheffield em meia hora, caso eu precise urgentemente de uma terapia no John Lewis ou no Meadowhall.
A casa está irreconhecível com a pilha de caixas e materiais de construção e decoração por todo lado. Então é difícil dizer se já me sinto “em casa”. Me sinto num depósito por enquanto. Mas posso dizer que é um grande prazer quando chego perto da nossa rua, procuro a chave na bolsa e percebo que é aqui sim onde moro. Sinto um sorriso se formar toda vez que atravesso o jardim da frente e abro a porta. Mesmo com toda a bagunça do lado de dentro, mesmo com todo trabalho pela frente, é aqui onde moro. Finalmente.
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junho 24, 2008
Moving Home
Ultimo dia em Sheffield. Hoje a noite nos mudamos definitivamente pra nossa casa e amanha nossa mudanca chega do deposito. Yay!
Amanha tambem e' o dia mundialmente conhecido como meu aniversario de 35 anos. Ja tenho bolo de chocolate e champagne esperando na geladeira. Yay!
Grandes progressos na reforma da casa. Temos um vaso sanitario funcionando (yay!), uma bomba de pressao instalada e valvulas do chuveiro no lugar. Ainda e' preciso conectar os tubos de agua nas valvulas, montar o chuveiro e instalar a banheira. E colocar o azulejo e o piso.
O jardim da frente esta com uma aparencia bem melhor. Com a ajuda da mae de Mr.M, limpamos os canteiros, podamos o ivy e a roseira, cortamos a grama. No dia seguinte choveu sem parar e as plantas ficaram todas alegrinhas.
Conhecemos agora todos os nossos vizinhos imediatos. Tres deles vieram se apresentar e uma das vizinhas nos trouxe um cartao ultra-fofo dando boas vindas `a nova casa. Aww.
Caminhei bastante pelo vilarejo, durante todos os cinco dias em que estivemos la. A rua do mercado chama-se Market Street, a rua da igreja chama-se Church Road, a rua por baixo da ponte chama-se Bridge Road. Assim, tudo facinho pra ninguem se perder.
Pepe e sua patroa estavam numa correria frenetica para alimentar os Pepeletes. O ninho deles fica na cerca viva dos fundos do nosso jardim, nao sei ainda quantos filhotes ha no ninho. Passaros selvagens sao protegidos por lei e e' uma ofensa passivel de multa mexer nos ninhos. Ofereci algumas uvas passas para dar energia e ambos aceitaram com muito gosto. Pepe outro dia encontrou uma lesma suculenta no gramado e ficou cutucando ela ao inves de comer logo. Porque nao sei se voces sabem, mas Pepe e' um tanto intelligence challenged, um tanto que devagar nas funcoes neurais, um tanto que miope tambem. E nesse vacilo todo, um pardal passou-lhe a perna e catou a lesma, voou e foi embora. Pepe ficou visivelmente frustrado, gritou pro pardal, sacudiu as asas, chutou a grama. Mesmo depois de um tempo ele ainda se virava pra onde a lesma estava e abria o bico indignadissimo, batendo as asas, nervosinho mesmo. Eu hein?
Os outros passarinhos tambem andam comendo tudo o que veem no jardim, ja renovei o estoque de comidas umas tres vezes em uma semana. O RSPB e' o orgao que controla o bem-estar dos passaros selvagens no Reino Unido e e' no website deles que eu encontro qual a melhor forma de alimentar cada especie. Estou tao encantada com o assunto que ontem fiquei entusiasmadissima quando encontrei na petshop aqui perto um pote de minhocas, taturanas e outros insetos desidratados! Ja comprei um pro banquete de celebracao.
Outro dia tambem assistimos a doce cena de dois filhotinhos de goldfinches esperando no topo do comedouro enquanto a mae deles se alimentava com as sementes. Em seguida ela voava no meio dos dois e alimentava um e depois o outro. Os filhotinhos ficavam com a bocona aberta batendo as asinhas.
E no anoitecer, quando comecou a escurecer vimos um par de pequenos morcegos voando sobre o jardim.
Enfim, TV nao tem feito falta por la, com tantos dramas acontecendo do lado de fora. Sentamos de frente por jardim ate a hora de irmos dormir. O jardim nunca e' o mesmo no dia seguinte. Tem sempre uma flor nova abrindo, uma fruta mudando de cor, um inseto diferente visitando.
Assim que nos mudarmos ficaremos sem telefone e Internet por 10 dias, ate o servico ser conectado. Um longo tempo, mas assim como tudo no vilarejo e' preciso ter paciencia e ver o tempo passar aos poucos, mudando tudo ao nosso redor. Quando tudo estiver funcionando, espero ter mais cenas pitorescas pra contar.
junho 18, 2008
Not Here, Not There
De volta a Sheffield, sem fotos e sem acentos.
A casa agora parece uma ruina. Estamos naquela fase da reforma em que nos perguntamos por que diabos comecamos. Chao sem piso, paredes esburacadas, muito entulho, poeira e material de construcao por todo lado. Mas aos pouquinhos comecamos a ver pequenas, minusculas melhorias. Mr.M terminou de colocar o piso de madeira em um dos quartos e e' uma imensa satisfacao ver o chao arrumadinho, novinho no lugar do carpete velho e cansado. Ainda ha o resto da casa para colocar o piso novo e o banheiro ainda nao esta funcional. Neste final de semana o pai de Mr.M vem nos dar uma maozona na reforma.
No jardim, tudo continua vivo. Alias por enquanto esta e' minha meta: manter tudo vivo, antes de comecar a me aventurar. Passei dias tirando varias especies diferentes de ervas daninhas, weeds, dos canteiros, arrancando-as pela raiz, na mao mesmo. Stinging Nettles be damned, all of them. Eram tantas, mas tantas que encheram nosso cesto de lixo de jardim de 240 litros. E ainda nem mexi no jardim da frente, onde o samba continua, nem em outros cantos. Nao quero ter um jardim excessivamente arrumado e cheio de manicures porque nao e' muito amigavel para os bichinhos que vivem em lugares escondidos. E sem bichinhos nao ha passarinhos ou mamiferos fofos para come-los.
Descobri que temos um solo cheio de minhocas, o que e' muito bom porque e' sinal de solo fertil e bem aerado. Descobri nao apenas durante a minha sessao de exterminio, mas principalmente porque tem um passaro muito simpatico, um Blackbird, que passa horas e horas bicando o gramado e puxando as minhocas do solo. Ele e' um tanto possessivo e nao deixa nenhum outro blackbird pisar no nosso gramado. Outros passarinhos podem, mas blackbirds nao, so' ele. Chamamos ele de Pepe. Ele tem uma patroa, chamada Pepina. Pepe de vez em quando cata uma minhoca bem gorda e comprida e deixa no chao pra Pepina comer. Ta certissimo.
Colocamos um outro comedouro para os penosos, agora especifico para atrair goldfinches, com sementes chamadas nyger seeds. E dois casais de goldfinches agora nos visitam o tempo todo.
Outro dia estavamos tomando cafe da manha olhando o jardim quando para nosso total espanto um esquilo apareceu! O esperto foi direto pro comedouro dos passarinhos, fez uma bagunca e virou algumas sementes na bandeja. Comeu sementes de girassol e foi embora. Agora estou animadissima para fazer um comedouro pro esquilo, espero que ele volte.
Conhecemos tambem os nossos vizinhos mais proximos. Ja haviamos percebidos uma certa curiosidade deles de saber quem e' que mudou na pacata vizinhanca. Nos apresentamos, conversamos um pouquinho. A idade media da vizinhanca e' de 105, hoho. Varios aposentados que jantam antes da cinco e nao fazem barunho em horarios nao-civis. Mais ou menos como nos. Toda vez que eles nos vem, cumprimentam e perguntam se ja nos mudados definitivamente. E e' com uma certa angustia que respondemos "No, not yet..."
Mas agora faltam poucos dias. A semana que vem e' a ultima semana do contrato deste apartamento, ate la precisamos nos mudar, com ou sem banheiro funcionando. Com ou sem internet ou telefone. Com ou sem a mudanca que ainda esta no deposito. Mas com nos dois, os ursos, o porquinho rosa-cinza e o burro de braco (ainda) enfaixado. Todos a nos juntar com Pepe e Pepina. Em casa.
junho 12, 2008
Inheritance
Ainda não nos mudamos. Algumas reformas para fazer antes de trazer todas nossas tralhas casa adentro. E muita coisa para empacotar no apartamento alugado. Mas estivemos na pequena casa várias vezes, dormimos lá no final de semana passado, no colchão inflável, no chão do que um dia será nosso quarto.
No primeiro dia da nossa chegada entramos na casa cheios de curiosidade, já havíamos esquecidos de muitos detalhes desde a compra. Encontramos uma casa limpíssima, até a lixeira cheirava a jasmim, prestenção. E na cozinha, encontramos uma cartinha, escrita a mão, da ex-dona da casa. A carta nos dava boas-vindas e nos desejava muita felicidade, além de nos fornecer várias instruções sobre o jardim e seus visitantes. Enviei à ex-dona um cartão e uma cartinha, também escrita a mão, agradecendo e contando da nossa chegada ao que foi a casa dela por dez anos.
Gosto de pensar que "herdamos" muitas coisas nesta casa. E entre essas muitas coisas, herdamos um jardim pequeno, cuidado anteriormente com muita dedicação, mas que já me tira o sono só de pensar no monte de plantas, flores, frutas, árvores, gramados e arbustos que agora dependem de mim. E como se não bastassem os verdes, há também uma série de visitantes penosos, gulosos e incrivelmente apaixonantes que visitam nosso jardim regularmente. Goldfinches, greenfinches, blue tits, coal tits, black birds, sparrows e outros que eu não sei o nome (o que dirá o nome em português!)
Desde então tenho me dedicado totalmente a aprender sobre jardinagem e ornitologia britânica. Ao mesmo tempo em que é fascinante é também desesperador. Tanto a fazer! Principalmente porque quero que o jardim seja orgânico, sem uso de pesticida ou veneno. E quero também que seja um ponto de atração para todo tipo de wildlife (excluindo sapos, eca). Por enquanto tenho falhado miseravelmente porque as ervas daninhas estão em pleno carnaval, as roseiras estão com blackspot, já não coloco comida pros passarinhos há quatro dias, nem troquei a água da banheira deles, não reguei as plantas, nem cortei a grama.
Finalmente hoje voltaremos à pequena casa e ficaremos por lá por uns cinco dias, fazendo mais reformas e dando atenção aos exigentes seres do jardim, se der tempo. Na semana passada eu tirei os azulejos de quase todo o banheiro sozinha, com uma marreta e um chisel. Trabalho escravo, falta só uma parede para terminar. Enquanto isso, Mr.M arrancava o carpete e o assoalho de madeira para reconstituir o chão antes de instalar o piso novo. Então o que antes estava perfeitamente habitável hoje é canteiro de obras. A prioridade é tornar o banheiro funcionável antes da grande mudança. Só temos um banheiro, contei que a casa é pequena? Então.
Mas mesmo que a gente tenha que instalar um Porta-Loo na garagem e tomar banho de caneca, eu quero me mudar o quanto antes. Já não agüento mais morar neste apartamento, no meio do centro da cidade. Penso o tempo todo na casa, no que preciso fazer, nas obras que precisam ser concluídas, nos passarinhos coloridos, nas abelhas e no silêncio imperativo da vizinhança. Herdamos uma quietude que há muitos anos procurávamos, almejávamos, sonhávamos até. Sinais do tempo, pode ser. Mas imensuravelmente valiosa para nós.
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redcurrants (groselha?) na frente
e strawberries (morangos) no chão.
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PS: obrigada a todos pelos recadinhos e congratulações no post anterior. Very kind, thanks a lot.
junho 3, 2008
The Little House Around the Corner
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Em Março encontramos uma pequena casa naquele vilarejo que gostamos, há meia hora de Sheffield. A primeira impressão foi de descaso, haviam outras casas maiores em que estávamos interessados. Muitos tropeços, frustrações e decepções depois, eis que o folheto da pequena casa voltou às nossas mãos. Marcamos uma visita e fomos recebidos pela dona da casa e seu cão. E a pequena casa enfim nos escolheu, nos mostrou que apesar de ser petite, tem tudo o que precisamos e um pouco mais.
Desde Março até agora estivemos mergulhados no processo da acquisição. A pequena casa passou por meses de rigorosas investigações. Não só da estrutura da casa em si e da legalização do imóvel, mas também foram investigados os riscos de enchente, de contaminação do solo, água e ar; risco de ter antigos túneis de minas de carvão no subsolo, risco da Igreja ainda ter posse do terreno (resquícios da Era Medieval). Além de um levantamento de todas as obras a serem feitas na vizinhança, autorizadas pelo Council, para não correr o risco de sermos repentinamente vizinhos do Tesco, godforbid.
Obviamente, é possível comprar uma casa sem nenhuma dessas investigações, mas decidimos por fazer todas elas. Foram muitas semanas de intenso contato com advogados de ambas as partes, além de muita papelada entre formulários gigantescos, resultado das investigações, financiamento, seguro da casa, seguro de vida, testamento, contratos e tudo mais.
Finalmente o processo chegou ao fim. Assinamos muitos papéis, entregamos um cheque com muitos números e recebemos as chaves. Somos então orgulhosos proprietários de uma pequena casa velha, num pequeno vilarejo.
Depois de consecutivos um ano e meio em Taiwan, dois meses em hotel em Sheffield, nove meses em apartamento alugado também em Sheffield, além de quatro meses com nossa mudança trancada num depósito, ninguém neste mundo tem a mais fraca idéia do quanto nós sonhamos pelo dia em que dormiremos em nossa própria cama outra vez, cercados de nossas coisinhas adoradas, sem ter planos de mudar pra nenhum outro lugar do planeta.









































