janeiro 5, 2009

Freezing Start

Ano novo, nova era glacial. Começamos o ano com 48 horas de temperaturas negativas na média de -4.5ºC.
Frio dolorido, intermitente e ameaçador. Nos outros dias tivemos temperaturas mais amenas, entre -2ºC e 0ºC, praticamente uma sauna.

Como o de costume, caminhamos bastante durante o feriado de Natal e Ano Novo. Nos encantamos com as paisagens e trilhas que descobrimos, bem ali na soleira de nossa porta.











Num dos dias mais frios, um fortíssimo fog pairou sobre nós. Caminhamos mais do que devíamos e voltei com meus cabelos congelados. Sem dúvida um dos dias mais frios que jamais vivi aqui na Inglaterra.



Hoje nevou bastante e, apesar do sol, a temperatura vem decaindo. Nesta manhã fria faz -2.8ºC e a previsão é chegar a -6ºC ao anoitecer. Muita comida e água à disposição dos passarinhos, que estão numa corrida absurda para encher as mini-barrigas de muitas calorias e sobreviver a mais uma noite.

Escrito a mão pela Marcia às 9:06 AM | Capítulo That British Kingdom | Comente este fragmento (6)

dezembro 23, 2008

The Near and the Dear Ones





E, finalmente, o último post deste ano.

O Natal vai ser aqui em nossa casa, então temos gastado todos os minutos dos nossos dias tentando finalizar a reforma da cozinha e organizando o resto da pequena casa para acomodar seis pessoas. Nossa primeira árvore natural já está decorada, a lareira está enfeitada, o presunto assado, as tulipas no vaso. Os pais do Martin chegam hoje trazendo o peru que estava reservado desde Novembro. E a irmã do Martin e o marido dela chegam na quarta-feira trazendo caixas de etílicos. Na quarta também chega nossa cesta de legumes especial de Natal.

Não teremos presentes mas teremos muita comida deliciosa, muita bebida de boa qualidade, sobremesas quentinhas, muito custard, crackers feitos por nós mesmo e, hopefully, bastante risadas, conversas e diversão.

Nossos vizinhos todos nos trouxeram cartões de Natal, entregamos os nossos também, o que foi ótimo porque agora sei o nome certinho de cada membro de cada família. E nesta semana muitas crianças e adolescentes vieram cantar christmas carols na porta de casa. Depois de quase entrarmos em falência, percebemos que nem todo mundo abre a porta pra eles. Porque, ao contrário do Halloween quando docinhos satisfaziam, agora só money é que é good, então eles podem piss right off. Yeah, christmas joy pra você também.

Mas enfim, não há como esconder que estamos bastante animados em comemorar o final deste ano. Não só porque a bagunça vai ser aqui em casa, mas porque tanta coisa boa nos aconteceu este ano. Deixamos Bournemouth, encontramos esta casinha minúscula neste vilarejo pitoresco, visitamos e abraçamos minha família querida, revi meus amigos queridos, fui no casamento do meu melhor amigo, vi e cantei com Morrissey, conhecemos e fomos adotados por Pepe & Family. E agora estamos aqui, nós dois, prestes a celebrar tudo o que este ano significou.

E pra vocês, desejo que suas celebrações sejam também especiais do seu jeito, da sua maneira, com tudo o que é importante pra você.

Feliz Natal!

M&M

Escrito a mão pela Marcia às 8:19 AM | Comente este fragmento (23)

dezembro 19, 2008

The Way it Crumbles

Uma das coisas, entre muitas, que aprendi a gostar morando nesta terra congelada foi o prazer de saborear uma sobremesa quentinha. Sobremesas quentes têm um inexplicável efeito reconfortante que me acolhe nas noites frias, nos dias de chuvas e nas tardes nubladas. E não me refiro ao tempo.

E ingleses são naturalmente grandes experts em fazer excelentes sobremesas quentes: bread and butter pudding, custard pie, sticky toffee pudding, rhubarb pie, tudo regado com o melhor custard, também aquecido, que puder cair em suas mãos.

Nos dias de inverno, adoro assar os crumbles, que são sobremesas ultra-simples, feitas com qualquer fruta que estiver pela sua cozinha pulando com o bracinho estendido e gritando "eu, escolhe eu, eu aqui, eu eu!".

Crumbles foram criados na Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial, quando o racionamento de alimentos não permitia ninguém a sequer sonhar com sobremesas sofisticadas, quanto mais uma torta de frutas. A solução era então usar uma pequena quantidade de manteiga, farinha e açúcar e fazer uma farofa para cobrir uma porção de frutas (geralmente maçãs, que são abundantes aqui) e levar ao forno. O resultado é uma sobremesa facílima de fazer, cheia de sabor e textura.

Para mim, crumble tem que ter a maçã como fruta principal. Se outras frutas quiserem se juntar à festa podem ficar à vontade, se não, só a maçã já faz o espetáculo sozinha.

A receita que eu sempre faço é adaptada da revista delicious (o link tem a receita original).

Classic Apple Crumble

Crumble:
80g de manteiga gelada
80g de açúcar demerara (ou use o que você tiver)
125g de farinha com fermento (se não tiver, use a normal, não é pra crescer mesmo)

Misture tudo num processador, modo pulsar, até virar uma farofa.
Adicione:
3 colheres de sopa de aveias em flocos
Especiarias do seu gosto: canela, cravo, gengibre em pó, noz moscada. (eu uso só canela e uma pitada de cravo em pó)
Misture, reserve.

Recheio:
500g de maçãs descascadas e cortadas em cubinhos
Canela em pó
3 colheres de sopa de açúcar

Misture tudo, coloque o recheiro num refratário, cubra-o com o crumble e asse por 40 minutos, em 200ºC ou até ficar douradinho. Sirva com custard ou sorvete de baunilha.

Variações: infinitas. No crumble você pode acrescentar coco, nozes, sementes, granola, chocolate. E o recheio pode ser com peras, rhubarb, banana, nectarinas, ameixas, pêssegos. Mas o gostinho tradicional é mesmo com as maçãs. E quando combinadas com berries, framboesas, blueberries, blackberries, morangos, a receita dá um salto de elegância porque as frutinhas explodem e borbulham na superfície e dão um colorido irresistível.

Este da foto eu fiz com maçãs e abóboras porque tinha que usar abóboras da cesta orgânica. Tive que cozinhar os cubinhos de abóbora numa panela com manteiga e açúcar, antes de juntar às maçãs, ao crumble e levar ao forno. Servida com uma generosa porção de custard do Waitrose, cheio de pedacinhos das sementes da baunilha.


Escrito a mão pela Marcia às 5:00 PM | Capítulo Food Talk | Comente este fragmento (4)

dezembro 17, 2008

Meet Stumpy and the Mean Sparrowhawk



Stumpy com seu pézinho direito defeituoso


Stumpy beating the odds

Temível caçador Sparrowhawk
que de vez em quando pousa por aqui

Escrito a mão pela Marcia às 3:47 PM | Capítulo The Wild Garden | Comente este fragmento (2)

dezembro 4, 2008

All is White

Em volume, esta é a primeira vez que vejo TANTA neve aqui na Inglaterra. Tivemos quatro blizzards durante a noite aqui em Yorkshire e amanhecemos com um manto branco cobrindo o chão.

Obviamente que a neve precisou ser removida antes de servir o breakfast de Mr. Pepe. E pelas pegadas dele na neve, dá pra ver que ele já foi e voltou pra comer muitas vezes.

Mesa posta para Mr.Pepe,
pela segunda vez nesta manhã

Aqui já havia tirado boa parte do gelo
que recobria as laterais do comedouro

Pés gelados

Aqui também

Boa hora para receber pelo correio meus jim-jams listrados e minhas luvas-sem-dedos-mas-com-gorrinho novas. Mr.M chama minhas luvas de Nerdy's Gloves porque foram escolhidas especialmente para poder usar o touchpad do laptop. Antes eu furava o dedo indicador da luva velha, o que era ainda mais nerdy, mas criei um pouco de dignidade.

Flanela & Lã = Love

Escrito a mão pela Marcia às 11:23 AM | Comente este fragmento (12)

dezembro 2, 2008

Icy Cold


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Os dias mais frios da Inglaterra nem sempre são aqueles em que nevam. Os dias mais frios são aqueles que combinam frio vindo do Ártico e umidade. São aqueles dias que amanhecem e anoitecem cheios de gelo, camadas grossas de gelo por todos os lados, que nunca derretem.

Esta semana tem sido assim aqui no Norte. Temperatura negativa, chove, esfria, congela, neva. No dia seguinte a mesma coisa. E no outro e no outro também. O gelo não descongela, o frio fica cada vez mais intenso, principalmente quando o vento chega para se juntar à festa.

Os pássaros silvestres do jardim estão numa luta incessante pela sobrevivência. A maior parte da energia eles gastam no frio da noite, tentando manter a temperatura do corpo. Pela manhã eles estão famintos e enfraquecidos. Outro problema é a desidratação. Quase todas as fontes de água estão congeladas e muitas espécies que se alimentam só de sementes sofrem para conseguir algumas míseras gotas de água.

Neste cenário pouco ensolarado, eis que agora me encontro todas as manhãs, na escuridão das sete e meia da madrugada, de bota e uma montanha de roupas, carregando comida e água fervendo para descongelar a banheira e o bebedouro dos pássaros. Uma missão arriscada já que o piso está congelado e escorregadio e eu estou sempre semi-adormecida. A comida dos penosos inclui sementes variadas, invertebrados secos (que ficaram de molho durante a noite), uvas passas (também previamente rehidratadas), maçãs em cubinho e pedaços de fat cake, que são bolinhos especiais para alimentar os pássaros no inverno, feitos de gordura, frutas e sementes.

Os pássaros têm ingerido tudo o que é servido aqui no Chez M&M. Pepe e Pepelete estão bem, acho que são os mais gordos de todos os blackbirds que voam por aqui.

Outro dia vimos um outro blackbird comendo no pratinho secreto de Pepe. Ele nos viu mas nem tentou voar e continuou comendo como se não houvesse amanhã. Olhando mais cuidadosamente, percebi que ele tinha um dos pézinhos quebrado. Ele voa bem, mas pula num pézinho só e arrasta o outro. Chamamos o pobrezinho de Stumpy e ele já tem vindo com mais freqüencia no jardim. Pepe no começo não dava bola, mas agora que ele sabe que Stumpy come do pratinho dele, ele não está muito feliz e começou a espantar o intruso. O que me obriga a colocar um outro pratinho extra num outro lugar quase secreto e esperar que Stumpy consiga se alimentar ao menos quando Pepe não estiver por ali.


Escrito a mão pela Marcia às 10:03 AM | Capítulo The Wild Garden | Comente este fragmento (11)

novembro 22, 2008

The Reason Why Birds Are Not Decorators

Eu tinha umas fotos lindas pra mostrar aqui. Tinha. Não tenho mais porque deletei por engano do memory card e não havia feito cópia para nenhum computador. Uma pena. Eram fotos de um girassol bastante especial que nasceu no jardim. Especial porque não fui eu, não foi Mr.M, nem foi a antiga dona desta casa quem o plantou. Quem acidentalmente semeou a bela flor foi algum passarinho que derrubou uma semente de girassol inteira no solo enquanto se esbaldava na comedouro cheio de sementes variadas. A semente em questão germinou e dela se desenvolveu um girassol lindo, no finalzinho do verão.

Fiquei encantada, levei a câmera e o tripé lá pra fora, tirei as fotos e tal. O tal passarinho que plantou o girassol deve então ter ficado empolgadíssimo e estufadíssimo de orgulho. O digno ser alado resolveu então que sua arte não deveria mais ficar confinada em um tedioso jardinzinho qualquer. That's sooooo last season... E abriu suas asas para alçar vôos mais ousados.

E da sua ousadia e infinita visão expressionista, o tal penoso -- vamos chamá-lo de Vincent -- plantou uma semente de girassol na calha mais alta de nossa singela moradia. Calha esta que sem dúvida deve estar entupida de folhas e outros materiais orgânicos esbanjando fertilidade. Porque desde então, temos no topo de nosso telhado, um girassol gigante, amarelão, extravagante, descabelado, a expressão mais alta da breguice anos 70. E nem os ventos de 80km/h que tivemos na semana passada, que arrancaram todas as plantas trepadeiras da minha parede, abalaram a imponência do pavoroso girassol. O amarelão flower-power continua lá firme e forte e forever.

A gente percebe pela janela da cozinha, que os vizinhos passam e viram o pescoço pra cima e depois continuam a caminhada com a expressão no rosto que diz claramente "What the frigging hell?!". E eu só balanço a cabeça concordando. I know, I know...

Temo a imaginar, porém, que a obra de Vincent não pára por aí. Assim que o girassol secar, suas muitas sementes vão cair calha adentro e logo uns doze ou quinze girassóis estarão dando o ar de sua graça carnavalesca. Oh dear, oh dear, oh dear...

Então, como se já não tivéssemos obras o suficiente acontecendo por aqui, agora também precisamos contratar alguém para vir com andaimes e apetrechos para limpar a calha. Ou então deixamos tudo como está e ganharemos o título The Tackiest House of The Year e teremos paredes cheias de infiltração. Thanks a lot, Vincent orelhudo.



Escrito a mão pela Marcia às 5:19 PM | Capítulo Little House Around the Corner | Comente este fragmento (12)

novembro 14, 2008

Pepe is Back

Desde que voltamos do Brasil não recebíamos mais a distinta visita de Pepe e seus Pepeletes. Depois de três semanas sem comida grátis era de se esperar que a família se mudasse para campos mais férteis e com refeições mais regulares.

Todos os dias, desde nossa chegada, eu continuava a colocar o pratinho com as comidinhas preferidas de Pepe no mesmo lugarzinho secreto que só nós sabemos onde fica (para evitar que os Starlings, Pombos e Pardais comam toda a comida dele). Mas a comida ficava lá por dias e dias, sem ninguém comer nenhum grãozinho, nenhuma frutinha. Achei que não mais nos encontraríamos e parei de desperdiçar comida no pratinho dele.

Os dias passaram e percebi alguns blackbirds no jardim. Não havia como saber se era Pepe ou não porque eram uns quatro ou cinco visitando o jardim. Mas fiquei observando, na esperança de revê-lo. Percebi que um dos blackbirds começou a defender o território (aka meu jardim) mais fervorosamente, espantando os outros blackbirds. Fiquei de olho nele. Parecia muito com Pepe, mas de penas trocadas (eles trocam em Outubro/Novembro), agora bem pretinho, bem bonitão. Finalmente, numa manhã chuvosa e fria, eu vi esse blackbird sentadinho na cerca viva, vigiando o front. Depois de uns minutos ele desceu da cerca e ficou piando no chão, ainda olhando pra cerca. E eis que das folhagens da cerca, sai uma fêmea blackbird, muito parecida com um dos Pepeletes, com as pintinhas mais claras no peito tão características dela. O Pepelete macho, porém, não estava entre eles; é normal irmãos se separarem em territórios bem distantes um do outro para evitar cross-breeding.

Começamos a observar Pepe e Pepelete todos os dias e poucas dúvidas restaram. Como Mr.M bem apontou, Pepe tem um ar "denso" no olhar e na forma de andar, inconfundível. Mas a maior prova de todas foi quando um dia eu estava preparando meu café da manhã no conservatory, onde tudo da cozinha se encontra empilhada lá, e o blackbird estava de novo sentadinho na cerca viva. Ele me olhava, olhava, a cabecinha acompanhando meus movimentos indo e voltando da geladeira. E então, finalmente, para minha surpresa e total alegria, Pepe voou até o nosso velho, conhecido e secreto cantinho onde eu colocava a comidinha dele e esperou do lado do pratinho dele. Eu abri a porta, ele se afastou, coloquei as uvas passas mais suculentas do mundo e ele voltou para comê-las. E assim tem sido todas as manhãs. Como antes. Como sempre. I missed you, Pepe.







Escrito a mão pela Marcia às 11:17 AM | Capítulo The Wild Garden | Comente este fragmento (9)

novembro 5, 2008

Between Heaven and Hell

Desde a segunda-feira, não tenho mais cozinha. No lugar há uma ruína. E poeira, muita poeira. Até tentei cozinhar usando o microondas e equilibrando uma tábua na pilha de azulejos. Desisti. Sod it. Sem pia, sem fogão, sem bancada não é dignamente possível. Sod the hell of it. Estamos engolindo caixas de comida pronta todos os dias, o que é decididamente o caminho mais curto para a prisão de ventre. Vou bater de casa em casa pedindo minhas uvas passas de volta. No dia mais frio em 11 anos, trocamos o boiler. Tivemos pedreiros, eletricistas e encanadores das 8:30h às 18:30h. E não funcionou. E nevou, nevou e nevou em pleno Outubro. Depois Mr.M consertou o que os eletricistas não conseguiram. E voltamos a sentir as pernas novamente.


General Hell

Sem uma Velha Parede

Com uma Nova Parede

Central Heating:
We Haz It!

Pierce. Heat. Eat.

Mas como nem tudo nesta vida é só desgraça, houve também o dia mais esperado de muitos anos: a entrega do nosso novo fogãozinho tão amado (e do exaustor e splashback também). Mr.M enfatizou que era a primeira, a única e a última vez que eu viria um caminhão da Britannia na frente de nossa casa, descarregando eletrodomésticos para este lar. Então corri lá pra fora e tirei uma foto para registrar a ocasião única de uma existência ordinária.

"Come on baby, light my fire..."

Escrito a mão pela Marcia às 2:29 PM | Capítulo Little House Around the Corner | Comente este fragmento (12)

outubro 31, 2008

Halloween Treat





Primeiro Halloween aqui no vilarejo, ontem. E, ohmygod, que coisa fofa, todas as crianças estavam fantasiadas. Só tem uma escola aqui e todas se conhecem. A tarde (depois das aulas, qua aqui terminam às três da tarde) houve uma festinha pra elas no cinema da cidade -- pois é, menina, tem até cinema aqui, coisa mais linda toda decorada com azulejos, anúncios dos filmes pintados à mão, feito cinema de cidade do interior. E nessa festa, fantasia era obviamente obrigatória.

Então o resto do dia tinha crianças para todos os lados vestidas em fantasias fantasmagóricas, algumas realmente caprichadas. Passei no Co-op mas já não havia mais abóboras para fazer Jack O'Lantern, fica pro ano que vem. Recebemos mais uma abóbora na cesta desta semana, mas de novo não tive coragem de disperdiça-la, já que a outra estava tão gostosa. Mesmo sem carinha, coloquei a abóbora na janela.

Estávamos preparados com muitos mini-chocolates Twix e mini-caixinhas de uvas passas Marks & Spencer. Nada de mini-muffins caseiros recém-assados porque afinal vivemos num mundo de paranóia.





Às seis e meia começaram a chegar os primeiros Trick or Treaters.

Ouvimos risadinhas atrás da nossa porta.

"Hihihi, bate na porta, hihihi."
"Hihihi, eu não, bate você."
"Hihihi, eu não, você."
"Hihihihihihi" Toc, toc, toc.

Atendi.

"Trick or Treat!!!!!!! Hihihihihi..."

Duas bruxas e um Darth Vader. Demos os doces, as crianças agradeceram, o pai deles agradeceu e deu tchauzinho lá da calçada.

Depois vieram duas coisinhas mais pequenininhas e fofas, dois fantasminhas, uma menina e um menino. Bateram na porta bem fraquinho, quase não ouvimos. Abrimos e os dois ticos de gente falaram bem baixinho:

"Tick o teat..."

Morremos de rir com a pronúncia e a fofura, eles ganharam porção dupla de chocolate, já estavam indo embora quando lembraram, voltaram e disseram "Thank you". E a mãe deles também deu um tchauzinho.

As crianças maiores começaram a chegar, agora desacompanhadas de pai e mãe. Um esqueleto e um monstro vieram e Mr.M atendeu. Eu dava as porções exatas pra cada criança, mas Mr.M não tem muito respeito ao meu esquema estruturado ultra-organizado e estendeu a vasilha de doces pros meninos pegarem o que quiserem. E pro meu espanto, um deles falou pro outro: "Pega um só, um só" E os dois pegaram um chocolate cada. Mas Mr.M insistiu, pega mais, olha aqui, leva essa caixinha também. E um deles perguntou o que era.

"Uva passas", respondeu Mr.M.
"Ah, não, não gosto", falou o "monstro".
"Mas faz bem pra você, leva um" insistiu Mr.M
"Não, não, não gosto. Thanks."

Viram, só? Mr.M é um softie. No meu esquema infalível não há opções: as crianças levam o que eu entrego e pronto, não tem negociação. Mr.M, porém, acredita que no dia seguinte nosso jardim da frente vai estar cheio de caixinhas de uva passas jogadas por crianças indignadas e enfurecidas. Oh well, pelo menos não sou tão estraga-festa quanto aqueles que dão pasta de dente. Ou aqueles que deram pedra pro pobre Charlie Brown. Ainda.

Um grupo de garotas apareceu, bem maquiadas de vampiras e bruxas. E ao invés do "trick or treat" elas disseram Happy Halloween em coro, antes de estender suas sacolinhas. Foram bem educadinhas, agradeceram bem animadas.

Nosso estoque quase acabou. O nosso limite era até oito e meia da noite, depois disso apagaríamos as luzes de fora e fecharíamos as cortinas porque ficar atendendo a porta na escuridão das nove da noite não é lá muito seguro. Mas nem foi preciso. O último grupo veio umas oito horas e depois ninguém mais bateu na nossa porta.

Eu adorei. Me diverti de ver como as crianças capricharam nas fantasias e maquiagem, como foram bem educadas e ordeiras, como fizeram dos bons modos algo natural. Adorei dar presentinhos a desconhecidos e receber o sorriso por trás da boca falsamente ensangüentada.

No ano que vem, quem sabe, estaremos mais preparados, de casa decorada, abóbora esculpida, chapéus de Harry Potter, doces mais variados. E até aquecimento central, mas acho que isso já é pedir demais...

Escrito a mão pela Marcia às 7:13 PM | Capítulo That British Kingdom | Comente este fragmento (13)