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BBC e Dr. David Kelly

Foi um almoço informal.

Dr. David Kelly era um cientista renomado, consultor do Ministério da Defesa Britânico. Passou várias semanas no Iraque na época em que o dossiê sobre as armas de destruição em massa foi elaborado.

Um jornalista da BBC, Andrew Gilligan, o procurou e pediu a Kelly que o encontrasse para um almoço informal porque precisava da ajuda dele para se preparar antes de partir para uma reportagem em Bagdá.

Dr. Kelly já conhecia Gilligan e concordou em recebê-lo e dar instruções sobre o Iraque. No almoço, conversa vai, conversa vem, Gilligan tocou no assunto do dossiê. E Dr. Kelly acabou vazando a informação que o dossiê foi "transformado" de maneira exagerada, tornando possível levar a invasão ao Iraque a diante.

Com esse dossiê "transformado", Tony Blair fez seu discurso inflamado no Parlamento, onde explicou que Saddam Hussein poderia mobilizar armas de extermínio em massa 'em apenas 45 minutos'.

De volta à BBC, Gilligan detona a bomba. No dia seguinte, a manchete nos telejornais explode: "Funcionário de alto escalão da inteligência britânica reconhece que dossiê das armas de destruição em massa foi manipulado".

Começa então a investigação no Parlamento para saber quem é o tal funcionário. Jornalistas se transformam em detetives. Toda a mídia investiga todos os passos dos principais membros da defesa.

Gilligan informa o dia, o horário e o local do encontro com o "funcionário da inteligência britânica", mas não o nome. Não muito tarde, cruzando os dados com as agendas dos membros da defesa, o provável nome do Dr. Kelly está em todos os jornais.

O parlamento interroga Dr. Kelly duramente, exigindo explicações pela entrevista não-autorizada, colocando-o como alvo de todas as acusações. Dr. Kelly entrou em choque quando os parlamentares o colocaram à frente de oficiais de alto escalão para eximi-los de culpa. Dr. Kelly era um cientista, afinal. Não era o Primeiro Ministro (Blair), nem chefe de comunicações (Campbell), nem o responsável por escrever o dossiê. Mas a implacável mídia britânica acendeu seus holofotes intensamente no cientista, a polícia lacrou sua casa, o Parlamento o escolheu como Cristo.

Dois dias depois de seu depoimento no inquérito do Parlamento, Dr. Kelly foi encontrado morto, em um bosque perto de sua casa em Oxfordshire, com o pulso cortado e pílulas analgésicas no bolso.

A investigação sobre o dossiê continua, assim como o da morte do cientista. Mas a repercussão agora está na ética da mídia britânica e o seu preço. O que mais se ouve aqui é que jornalismo precisa ser revisto. Porque uma coisa é investigação jornalística, a outra é exterminar uma vida. O público tem direito a informação, mas quem em sua sã consciente ainda achava que o Iraque tinha mesmo armas de destruição em massa, quando nada foi provado? A declaração de Dr. Kelly não trouxe nenhuma surpresa.

Um chefe de estado e um Primeiro Ministro continuaram suas rotinas livres, leves e soltos. Enquanto isso, um cientista foi acusado. Forçado a lembrar das mortes, dos ataques, das famílias destruídas, das criancinhas retalhadas.

E outra vida se foi. Era um almoço informal, a princípio. Uma declaração, um 'furo de reportagem', um suicídio, talvez um homicídio.

No final de seu depoimento, os parlamentares perguntaram a Dr. David Kelly o que ele havia aprendido como lição neste caso. E Dr. Kelly respondeu: "nunca confie num jornalista". Mais uma mancha para marcar as páginas não tão limpas da mídia britância.


4 Comentários

Márcia, você escreve muito bem!! no entanto, talvez por estar fora do Brasil há tempos, parece que trocou um adjetivo: 'implacável' ficaria melhor do que 'imperdoável', para a mídia inglesa, acho.
se bem que o que a imprensa fez foi imperdoável, mesmo!!!!
e o sigilo, protetor das fontes?? quando ele deu o local e a hora da conversa, ficou fácil, né.
outra coisa: precisa ver se foi suicídio, mesmo... isso de se matar cortando pulso já se sabe que só serve pra lesionar os tendões da mão. a não ser que os tais soníferos o tenham feito dormir dias, até seu sangue todo se esvair gota a gota pelo corte...
fico pensando aqui no Brasil: os caras acusados por desvio de verba pública riem, na cadeia. 'magina, se pensariam em se matar. tsc.

Bia Badaud, obrigada pela correção! Realmente o que a BBC e os jornais todos fizeram foi nojento. A própria família do cientista acredita na hipótese de suicídio, mas investigações ainda estão sendo feitas. O corpo dele foi encontrado dois dias depois do seu desaparecimento, ainda não foi divulgada a "causa mortis" oficial. Um horror, um fim trágico que a BBC não esperava, agora segura as críticas. Acho que logo o chairman da rede de TV vai renunciar.

Triste mesmo esta história....parece coisa plantada para dar fim ao suposto traidor.
Aqui anunciaram que foi encontrado um tipo de remédio muito comum aos suicidas ao seu lado....obvio demais para não parecer ordens de um poder maior. Pena!!!

Agora, que é estranho a forma como tudo aconteceu, isso é. Não estou muito por dentro das investigações, mas pelo que sei ele parece que saiu para correr. O cara sai para correr com o pensamento de se matar no meio do caminho?!?! E ainda leva as pílulas no bolso?? Não sei, não... Podem me chamar de paranóico, mas isso está me cheirando à armação. Muito conveniente para o meu gosto.