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Brasil no Sunday Times da África do Sul

O Sunday Times é o único jornal sul-africano que eu consigo ler porque é em inglês. E no jornal do domingo passado havia uma matéria de página inteira, escrita por Fernando de Freitas, sobre o rascismo no Brasil.

Há muitos elogios sobre o fato do Brasil estar cada vez mais incluindo modelos e artistas negros e pardos em produtos, propagandas, filmes, novelas, como parte de sua sociedade, ao invés de apenas loiros europeus, que não condizia com a realidade do país.

A matéria foi muito bem escrita, envolvendo os três séculos de escravidão, a novela Da Cor do Pecado, o racismo codial, mas principalmente focalizando a grande polêmica da quota de vagas nas universidades para estudantes negros, que aliás eu nem sabia que estava acontecendo.

E muitos especialistas (sociólogos, antropólogos e historiólogos) comentam na matéria o caminho errado e perigoso que o Brasil está tomando com decisões como essa. Dizem eles que é nítido que o Brasil está copiando o mesmo sistema usado na África do Sul na época do fim do Apartheid, numa tentativa sem jeito de combater o problema do rascismo, mas há uma diferença muito grande que os governistas e ativistas não estão enxergando: o Brasil não é a África do Sul.

Na África do Sul sempre houve e ainda há essa grande e gritante diferença: brancos e negros. No Brasil não. No Brasil há brancos, há negros, há pardos, há vermelhos, há amarelos, há tudo isso misturado, filhos, netos e bisnetos de negros com brancos, negros com amarelos, vermelho com bancos, numa mistura sem fim, muitos mestiços de gerações diferentes, sem sequer ser possível de classificar. Na África do Sul há sul-africanos negros e brancos holandeses. No Brasil há grupos vindos da África, da Ásia e da Europa, numa missigenação única, como em nenhum lugar do mundo.

O inglês antropologista Peter Fry, que mora no Brasil, diz que os brasileiros têm mais de 300 diferentes categorias para se identificar. “E mesmo assim o governo agora está dizendo a todos os brasileiros que existe uma uma divisão entre a sociedade: brancos e negros. E isto é a base para atritos raciais. Eu não acho que este modelo é viável ao Brasil de forma nenhuma e me preocupo quando o governo tenta forçar as pessoas a se identificar nas bases dessa rígida categoria de raças”, diz ele.

E o jornalista Ali Kamel ainda complementa: “o maior problema do Brasil é a miséria, não o rascismo. E a resposta não está em culpar os brancos ou outros grupos, mas atacar o real problema da miséria. O que o governo está tentando fazer é tornar um fenomenal país multi-colorido e uma fantástica sociedade que sabe viver pacificamente junta, em um país bicolor cheio de mútuo ressentimento”, explica Kamel.

Fernando de Freitas também não deixa de fora os brasileiros de bom-senso: “Kamel expressa o ponto de vista de muitos brasileiros, que as autoridades deveriam focalizar na melhoria do ensino público e no sistema educacional, para dar condições a todos os brasileiros de entrar na universidade, sejam eles brancos, negros, pardos, amarelos, vermelhos, ricos, pobres, deficientes físicos ou o que for. Fazer estudantes se sujeitarem a exames extremamente difíceis só favorece candidatos que tiveram ensino de elite em escolas particulares”. E finaliza dizendo que é louvável que o Brasil esteja ciente e preocupado com o problema que os negros enfrentam na sociedade e no mercado de trabalho. Mas que nesta estrada tentando encontrar seu próprio caminho, o país se perde ao querer se reinventar.



12 Comentários

Show de artigo, Marcinha. E adendo mais complicações: essa tentativa "ingênua", talvez burra e provavelmente eleitoreira de querer garantir ao negro uma "vaga" na universidade deverá trazer uma problemática de curto/médio e longo prazo. Curto/médio dentro da própria sala de aula. Já há ruídos dos "brancos" discordando desse privilégio (outros tentando buscar um parentesco com negros para aproveitar o "previlégio") e a longo prazo a absorção desses profissionais pelo mercado de trabalho. Como o próprio artigo diz, não está faltando "canudos" no mercado mas sim, equiparação social = competitividade justa.
bjs

Muito bom e verdadeiro esse artigo. Nosso problema é mesmo a pobreza e não a raça. Somos um povo miscigenado. Faz bem a USP aqui em São Paulo que teve uma idéia mais inteligente: implementar um cursinho para os alunos pobres que estudaram em escola pública. Aí sim eles entrarão por mérito, que é como deveria ser.
Não quero dizer com isso que não há problemas raciais aqui, claro que há, mas simplemente dar de graça vagas na universidade pública para quem não tem capacidade só vai criar ressentimento e não vai resolver nada.

Olá, sou do Brasil e estava passeando por alguns blogs qnd achei o seu, mto interessante!!! Adoirei seu modo de se expressar!!! Se puder, dá uma passadinha no meu blog, e deixa um coment!!! Bjinhos! Llu

A questão é mesmo complicada. É inegável que os negros foram muito prejudicados no Brasil mas hoje é muito difícil dizer quem é negro no nosso país. O que não é difícil é dizer quem mal tem condições de sobreviver. Se for para criar quotas talvez o melhor seja criá-las para aqueles que não têm condições financeiras e não pela cor da pele. Ainda assim resta a questão sobre o nível do ensino superior que pode cair, de modo que justo mesmo é que se tenha uma escola pública de qualidade para o ensino fundamental e médio.

Puxa Marcia, este e o tipo de artigo que infelizmente nao chega no Brasil pra grande maioria ler e repensar sobre as atitudes. O que mais me chateia no Brasil nao e a pobreza que milhoes vivem la e sim a ignorancia e o preconceito que temos de tudo e de todos. No Brasil o preconceito nao e so com o pobre e preto, mas se vc. for pobre e preto ai e ainda pior.

belicisso texto.

mil perdoes pelo belissimo acima, pensei na palavra mas nao saiu na escrita.

QUE MARAVILHA ESSE ARTIGO, Marcinha!!!! Nossa, adorei! Se tem realmente uma coisa que a Africa do Sul tem mais know how do que o Brasil é mesmo a questão racial. Agora, tenho minhas dúvidas sobre o que o Ali Kamel disse sobre "país multicolorido que vive pacificamente junto". Isso é uma utopia. Todo mundo sabe que, apesar da miscigenacão ser real, ainda há SIM muita diferenca entre brancos e negros (nessa categoria desde os negros até mulatos claros etc). Mas o que ele disse sobre a miséria está certíssimo. Adorei o artigo! Aliás, fiquei com uma dúvida: quem é esse Fernando Freitas? É um correspondende do Sunday Times no Brasil?

oi, marcinha
Achei a notícia também muito interessante.
Sou a favor das cotas na universidades, mas não tinha analisado por este ponto de vista. Concordo plenamente que o problema maior no Brasil é a miséria e a falta de oportunidades iguais para todos.
bom, vou correr pois passei uns dias offline e atrasei a leitura dos meus bloguinhos favorito. (ô vício)
Abs
Letícia.
PS: "Colagem" aí vou eu...

Marcinha, se você conseguir dar uma navegada antes de acabarem seus créditos, dá uma passada no meu blog. A minha "sócia" Helena Costa, que também comenta no Mothern, escreveu um texto muito interessante e esclarecedor sobre as cotas:
http://www.duasfridas.blogger.com.br/2004_06_01_archive.html#27864866
Um beijo,
Monix

Marcinha!
Eu, como estudante do 2º ano do colegial aqui no Brasil, tenho sentido isso na pele, talvez mais que os adultos. E concordo plenamente com tudo o que foi falado nesse post. Inclusive, quem, no fim, está perdendo com tudo isso, não são os negros, os pobres, nem os ricos, milionários, mas a classe média, que estuda numa escola particular boa, fazendo com que a única parcela da sociedade que ainda conseguia elevar um pouco o nível das universidades não consiga mais entrar por causa das cotas, abaixando a cada dia mais os níveis absurdamente, simplesmente para fazer com que os mais pobre consigam estudar. Realmente, não é bem aí que está o problema....
Beijos com amor
Louise Emille

Marcia
Eu dou aula em universidade desde 78 (PUC-RJ até 98, UFF de lá para cá). Nesses 26 anos já tive muitos alunos pobres (não estou falando de miserável, estou falando de pobre,de gente cujos pais ganham pelo menos 1 salário mínimo), mas pretos continuo a poder contar nos dedos das mãos.

Curiosidade: você sabia que na definição anglo-saxã de classe média (divida a população por 5 e os 3 quintos do meio são a classe média, o quinto + rico são so ricos, o quinro + pobre são os pobres), a classe média alta começa em menos de R$400= US$120 por cabeça - o salário mínimo acabou de ser aumentado para R$260.

Quanto ao nível dos alunos, tenho certeza que não será muito pior do que os que tem entrado. A UFF é pública (isto quer dizer que o vestibular é mais disputado) e tenho tido alunos no curso de Engenharia que sequer sabem resolver a equação do 2o grau.