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Tiro ao Alvo

Martin estava me contando que uma vez ele visitou um museu em Cape Town e havia lá uma área sobre os primórdios do Apartheid e seus horrores. Disse ele que por volta de 1800 havia uma lei que permitia a todos os homens brancos da África do Sul o direito de atirar em qualquer bushmen (negros nativos, como os índios no Brasil), livres de qualquer pena. E então atirar em bushmen passou a ser um “esporte” como qualquer outra caça. Homens brancos saíam para caçar os negros por simples prazer da caça, nem era para escravizar nem nada, só pra matar mesmo. Era possível agendar roteiros turísticos com “exciting bushmen hunt”. Não é nem um passado tão remoto assim, tendo em vista que em 1880 o Brasil estava abolindo a escravidão.

Por mais que o Brasil tenha vivido atrocidades durante o período de colonização e escravidão, os níveis de racismo na história deste país com as leis do Apartheid estrapolam todos os limites, não dá para comparar com nenhum lugar do mundo. Assim como o holocausto também não se compara com nenhum outro massacre na história da humanidade.

Todos os dias a gente se depara com algo que nos dá a sensação de que voltamos séculos atrás. Simples comentários, que para os sul-africanos é comum e corriqueiro, nos faz arregalar os olhos.

Outro dia estávamos num churrasco promovido na pousada, com vários hóspedes sul-africanos. Lá pelas tantas comentamos sobre a boa comida do restaurante português que fomos e um dos hóspedes perguntou onde ficava o restaurante. E logo outra hóspede emendou na pergunta: “é um restaurante misto?” Mixed place é como eles chamam lugares onde brancos e negros freqüentam. Há restaurantes e lojas aqui que são obvios, não há negros, como se fosse um acordo silencioso. Outros são “mistos”.

Quando no Brasil você ouviria algo assim? Quando no Brasil alguém iria deixar de ir a algum lugar só porque negros também freqüentam? Ou vice-versa? Aliás, para a grande maioria dos brasileiros isso nem sequer passa na cabeça. Você vai e se diverte e pronto, nem liga para quem está lá ou deixa de estar. Pode até ser que existam certas criaturas iguais no Brasil, mas não o suficiente para ser uma pergunta ou uma menção (“ah, tal supermercado é bom, mas é misto!”) tão freqüente e comum como ouvimos aqui tantas e tantas vezes.

Palavras nos faltaram na hora, não respondemos nem sim nem não, que diabos, o que isso importava? Falávamos da comida...

(“Não entendo de terrorismo, falávamos de amizade...” – Legião Urbana)

Mas enfim... essa é a realidade deles. E Martin me alerta várias e várias vezes que Middelburg não deve ser usada como o reflexo ou exemplo da África do Sul. Como eu disse antes, esta é uma das cidades mais atrasadas quanto ao fim da segregação e a maioria dos brancos parece se orgulhar disso. Martin está sempre me explicando que na região de Cape (Cidade do Cabo) existem pessoas fantásticas, parece um outro país, uma outra sociedade.

Então talvez haja mesmo salvação.

Talvez o tiroteio um dia tenha fim. Não por causa da lei, mas por consciência.


6 Comentários

definitivamente, a evolução da humanidade não é uniforme, mesmo. que coisa.

acho o racismo no brasil mais velado, "discreto", mas tb latente. por exemplo, quem nunca disse aqui em sampa "ah, é um bom lugar, mas tem mto BAIANO"? e baianos são o q? mulatos, negros, pardos... se vc vê uma pessoa branca, vc não pensa que é "nordestina". mas é claro q nem se compara à Africa. foi só uma ressalva ao seu comentário. bjos

Puxa...

Marcinha, que legal Mr.M fazer essa ressalva. Ainda bem que o resto da South Africa é melhorzinha que Middlesbourg...

pois é, tereza, é mto triste isso... mas acontece mesmo e mto por aqui. chamam as pessoas, coisas, atitudes de "baiano", como se fosse um adjetivo pejorativo. uma roupa feia, é "baiana". e tb já virou estereótipo. é pobre, é negro, é ladrão, é bandido, é pedinte, é mendigo, é "baiano". mas baiano não significa q veio necessariamente da bahia, já virou algo geral. as pessoas dizem q não são preconceituosas por aqui, e acho isso mta hipocrisia! é um preconceito "velado" e cínico. mas lógico q não tão forte como o q sabemos q existe na áfrica do sul e q a márcia tem nos descrito tão bem.

Marcinha, voce vai ter que me desculpar, mas folheando qualquer livro de historia acham-se zilhoes de outros massacres facilmente comparaveis, se nao piores, ao holocausto...