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E os Dias Passam


Já estamos em Julho, o clima aqui está mais imprevisível que antes. Às vezes faz sol e muito calor, às vezes fica tudo nublado e venta bastante. Tivemos chuvas nesses últimos dias, o que foi um alívio porque o ar estava muito seco e cheirando à fumaça das queimadas.

A família da Delia voltou das férias em Moçambique. Pelo que eles nos contaram, não foi lá uma boa experiência. É a terceira vez que eles vão para lá, mas foi a primeira vez depois da guerra civil que durou 20 anos. Eles disseram que o nível de miséria lá está um absurdo, muita gente esmolando nas ruas, falta de saneamento básico, violência, aquilo tudo qua a gente conhece. Então eles aproveitaram muito pouco, fizeram alguns passeios, viram vários animais bem bacanas, mas estavam loucos para voltar para casa. Nós ficamos felizes com a volta deles, a landlady que estava aqui era super boazinha, levou até bolo de chocolate no nosso quarto, uma beleza! Mas nada como ter os próprios donos da casa aqui, tudo funciona melhor e a gente se sente mais segura.

Na sexta-feira passada tivemos uma boa tempestade com raios e trovões, com queda de energia e muita água. Estávamos todos os hóspedes juntos na pousada, jantando um informal espaguete a bolognesa que a Delia havia preparado para nós como pura cortesia. E tivemos uma noite ótima ao redor da mesa da cozinha, conversando sobre um monte de coisas, nós, a família da pousada, Gehard, um alemão bem simpático que está aqui há dois anos, dando aulas de computação para negros que vão entrar nas indústrias. E também um outro hóspede que veio de Cape Town. Depois do jantar nos divertimos mostrando as nossas fotos para a Delia e o Ian, marido dela. Eles morreram de rir com as fotos dos cães e do Sylvester.

Eu tenho saído muito pouco da pousada. Quando muito vou até o supermercado e volto. Estou almoçando aqui, mas meu cardápio não é mais miojo. Comprei presunto, queijo, salame e pão, e a cada dia faço um sanduíche diferente. A noite jantamos juntos e aí sim consigo me alimentar melhor, principalmente quando a gente janta na pousada, que sempre serve carne, saladas, legumes e arrozinho, apesar da montanha de molho que vem acompanhando tudo. E eu continuo tomando um comprimido de multi-vitaminas todos os dias, então acho que sobrevivo.

Ando sentindo muitas saudades da nossa casinha, das nossas coisinhas, da nossa cidade, do mundo pós-idade-média, aiai... Tem muita coisa legal para se ver por aqui, mas eu não passeio todos os dias, não tenho sequer para onde ir durante a semana. Por mais que muita gente pense que estou vivendo um sonho de turismo, isto aqui está longe de ser um mar de rosas. Muito longe. Não vejo a hora que o Martin finalmente termine o projeto e a gente possa sair de férias e conhecer realmente o que há de melhor nesta região. Enquanto essa hora não chega eu fico pacientemente enchendo meus dias de coisas que me fazem bem, mas não posso negar que há dias em que eu preferia estar na nossa casa.

Quando voltarmos, certamente eu vou sentir saudades de muita coisa daqui, como o solão e céu azul quase diário, os animais, a família da Delia, as empregadas fazendo tudo pra nós, os passeios magníficos. Mas de Middelburg em si, da cidade propriamente dita, eu vou ter pouquíssima coisa a sentir falta.

Ao contrário de qualquer outra cidade um pouco mais civilizada, em Middelburg não existe transporte público. Brancos sem excessão andam de carro, negros se viram, a maioria caminha ou andam de lotação. Não posso dar um pulinho na cidade vizinha, não posso nem sequer andar mais que um quarteirão por aqui, por segurança. Sem contar essa discórdia racial, a arrogância extrema de alguns brancos e a antipatia tenebrosa de alguns negros, nesta minúscula cidade parada no tempo. E tenho muita sorte que a pousada seja tão aconchegante e simpática, senão já estaria nadando pelo Oceano Índico a caminho da Inglaterra, ou fazendo uma curva no sul e nadando no Atlântico para visitar o Brasil.

Obviamente que valorizo muito a chance de ver o que vejo aqui, viver o que vivo aqui, passar os dias com o Martin como passo aqui, conhecer boas pessoas como conheci aqui. Mas isso não me impede também de ficar de saco cheio de vez em quando. A indignação e o desconforto faz a gente questionar e aprender muito também. Mais do que ser Polyanna, mais do que fingir que tudo é lindo e maravilhoso o tempo todo. Porque não é, nunca é. A maioria dos colegas do Martin, além do próprio, sabe do que eu estou falando. Tem horas que dá vontade de viver na Àfrica do Sul pra sempre. Tem horas que dá vontade de sair correndo.

Hoje eu me permito reclamar. Quem for da opinião contrária, está convidadíssimo a passar seus dias em Middelburg. Não de passagem em férias, veja bem, mas umas boas seis semanas consecutivas. Give me a break today


8 Comentários

puxa, fiquei muitíssimo triste com as notícias de Moçambique. convivi por tres meses com um médico de lá, que estava fazendo estágio no meu hospital. cara educado, simpático, interessado. a julgar por ele, imagino quantas pessoas legais estão sofrendo, lá. tsc.

Outro dia lembrei que deveria te perguntar, se vcs. nao tinham onibus que vc. poderia pedar e ir ate as cidades proximas, mas pelo jeito e inviavel(seguranca), acho que vc. tem todo o direito de reclamar pois nao e facil, dias e dias numa mesma cidade e sem muita coida pra fazer.

boa sorte.

Marcinha, até quando cê tá de saco cheio cê é educada. :c))) Beijocas procê. Faz muito bem em desabafar.

Marcinha, e isso ai, todo mundo tem seu dia 'da pa virada'. Beijoca e que voce se sinta melhor logo. :o)

Oi Márcia.
Imagino que realmente não deva ser um mar de rosas... até porque acho que em qualquer lugar, sempre sentimos falta da nossa casa, das nossas coisinhas e etc.
Mas, enquanto o dia de voltar pra casa não vem, aproveite o máximo por aí : )
um beijinho, Isa

Eu sei como é porque passei um ano em Brazzaville (Congo), que não era lá essas coisas, mas deposi fiquei com saudade e imaginando um monte de coisa que poderia ter feito e não fiz. Por exemplo, certas fotos (na época o regime comusnista proibia fotografar a cidade e eu obedeci).

Oi amiga...viver em qualquer cidade pequena depois de ter se acostumado com o conforto da civilização é esquisito.....ainda mais uma mudança da Inglaterra para a Africa, fica confuso. Mas a experiência que vc está tendo, ao longo desta sua grande aventura de vida, mostra que de verdade viver é preciso. E navegar, mais ainda. Quem sabe vc não escreve um livro?
Beijos com saudades.

oi, márcia
com certeza vc tem todo o direito de ficar de saco cheio, aliás, todo nós temos. que graça teria se não fosse assim, né?