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Últimos dias em Middelburg

Estamos no final da nossa saga em Middelburg. Hoje é o último dia em que o Martin vai trabalhar aqui. O último dia em que estamos aqui por dever.

Foram dias intensos nesta cidade. Dias de choque cultural, dias de apreensão, dias de boas surpresas, dias de sustos, dias de risadas, dias de cansaço, dias de paciência.

Martin sobreviveu bravamente aos desastres e aos inúmeros outros horrores nas mãos desse cliente. Trabalhou mais do que em qualquer outro momento da carreira dele, se dedicou por inteiro e por completo em tudo. Dos oitenta dias de trabalho, ele teve apenas três dias de folga. Acordou de madrugada por dias a fio sem reclamar, sem fazer corpo mole. Resolveu problemas, encontrou soluções que ninguém estava enxergando e hoje é um dos que olham para o equipamento funcionando como deve com a satisfação do trabalho bem feito. Well done, Martin. I’m really proud of you, my love.

Para mim, os dias em Middelburg foram agridoces, a bittersweet symphony. Quando me lembro do dia em que cheguei aqui na pousada, mal reconheço quem era. Vivemos tantas coisas aqui, fomos tão testados, tanta coisa foi mexida dentro de nós.

Dos doces momentos posso listar facilmente sem hesitar:

· a amizade com a Delia
· a companhia infinita do Bruno, da Phoebe e do Sylvester
· os safaris e trekkings em Botshabelo
· o encontro com o meu primeiro Big Five, rinoceronte, e também com as girafas, em Loskop
· as manhãs tomando cappuccinos nos cafés privados e reservados
· o céu azul intenso e o sol brilhando todos os dias
· as tempestades cheias de trovões e raios magníficos
· a convivência, as risadas, as brincadeiras e palhaçadas com o Chris
· os almoços com o Martin quando ele deveria estar trabalhando
· os jantares com todos os outros colegas dele, que me faziam todas as gentilezas por ser a única mulher entre um bando de engenheiros
· o vinho sul-africano a preço de banana


E dos momentos azedos, que logo serão esquecidos, os principais foram:

· Racismo exacerbado e explícito em todos os cantos
· Assaltos acontecendo a cada instante nas pousadas
· Não poder sair sozinha nem para ir até o final da rua
· Cliente-jumento fazendo a vida de toda equipe britânica um pesadelo sem fim
· Comida extremamente mal-preparada e o mesmo menu em todos os restaurantes
· Falta de linha telefônica, internet e comunicação em geral


Antes de partir, Chris havia me perguntado se eu faria tudo de novo, caso tivesse uma chance de escolher. E eu respondi que sim, faria sim tudo de novo, viria sim para Middelburg. Porque sempre no final a gente aprende. Queira ou não, a gente aprende. A experiência aqui foi muito importante, muito enriquecedora, algo que vou guardar pela minha vida. Se eu tivesse ficado na Inglaterra teria perdido tudo isso.

Agora estamos de passagem marcada para voltar pra casa e há em mim um misto de saudades da minha vida aqui e um estranhamento da minha vida lá. Porque não dá para simplesmente continuar a vida de onde havíamos parado. Não é uma continuação, não é uma ‘volta ao normal’. Porque não somos mais os mesmos de quando saímos. Martin, que já viveu isso várias vezes na carreira dele, me disse que é mesmo bem difícil tentar “retomar” a vida de volta à Inglaterra. Tudo é estranho, tudo está fora do lugar, as coisas que já davamos como certas aqui na África do Sul não existirão mais lá na Inglaterra. A vida correu adiante por lá também enquanto estávamos aqui. É estranho, muito estranho.

Mas não preciso nem dizer o quanto também estamos loucos para voltar para casa. Só de imaginar o avião pousando em Heathrow me enche os olhos d’água. Estamos ambos muito esgotados, por diferentes razões, mas ambos bem cansados depois desses três meses vivendo aqui.

Antes de embarcar, porém, nós vamos aproveitar nossas tão merecidas férias!! Vamos passar cinco dias hospedados em um dos bungalôs dentro do Kruger National Park. O quarto tem vista para o Sabie River, onde várias espécies de animais vão tomar sua água fresca. Acho que vamos ter dias bem especiais por lá. Quero poder relaxar com o Martin, fazer nossos passeios, caminhar de mãos dadas, respirar no meio da natureza selvagem. Depois a gente volta para esta pousada da Delia, passa uma noite aqui e no dia seguinte seguimos para o Aeroporto de Johannesburg em direção à Heathrow!

Enfim, no balanço geral, valeu muito a pena conhecer Middelburg sim, apesar de todos os problemas que enfrentamos. Foi uma excelente decisão ter vindo para a África do Sul juntos.

O Chris acredita que assim que a gente passar uma ou duas semanas de volta à Inglaterra a gente vai olhar para trás e pensar, “não foi tão ruim assim”. E acho que ele tem mesmo razão. Tudo o que aconteceu de ruim vai acabar desbotando e as coisas boas vão continuar colorindo nossas memórias daqui. Assim espero. Por hora, a gente quer é dizer byebye, Middelburg!


11 Comentários

Oi Marcia,
Que alívio você estar voltando pro seu lar, né? Acompanhei a sua saga por aqui e é muito bom saber que tudo tenha dado certo no final.
Um beijo

Queridoca, amém, já está acabando. E eu acho sim que deve ser difícil essa mudanca toda, mas acredito que é bom. A gente tem novas experiências. Aproveitem MUITO o Krueger Park, relaxem e voltem correndo pra UK!

Marcita, sempre aprendemos mesmo. Em qualquer situação. A não ser que deixemos de avaliar e de repensar o que nos aconteceu, então coisas importantes passam despercebidas não é? Mas quando olhamos com os olhos da alma percebemos que de alguma maneira todas as situações nos tornaram pessoas diferentes. Sei que foi isso que você percebeu e deve ter sido por isso que foram parar aí. Amadurecimento emocional, profissional e do casamento. Tantas coisas importantes, coisas que não se compram. Desejo a vocês um ótimos descanso e uma agradável viagem de volta.
Beijos

Concordo com suas palavras...tudo vai parecer elhor, mais doce, mais suave com o passar do tempo. Mas o mais importante, as lições aprendidas, a vida vivida e toda a sua intensidade, isso jamais passará. Isso será o complemento, isso será o passo a mais na vida dos dois. Bom retorno à UK e sobretudo Boas Férias. Vcs dois merecem. Um beijo com carinho

Olá Marcinha,
Não sei se vc ainda lembra de mim, faz tanto tempo que nos falamos por email a última vez. Continuo acompanhando seu blog todos os dias, apenas fiquei um pouco mais distante. Tanta coisa aconteceu para mim nestes últimos meses (assim como para vc, né?!).
Escrevi agora pq acho q chegaremos em Heathrow no mesmo dia! Estou chegando lá no dia 22 de agosto, pela manhã (vou com um vôo da Air France). E vc?

Beijos, bons passeios e boa viagem de volta.

Camila

Hum...e eu vou poder começar a copiar novamente todas as maravilhosas receitas que com certeza vc vai fazer lah na sua cozinha...eba!!!

Márcia,

Com certeza tudo isso que você viveu e aprendeu ainda será "digerido" com o passar do tempo...E no final o saldo será positivo. E acredito que ter estado aí junto, apoiando Martin, foi algo que enrriqueceu ainda mais a relaçao de voces...
Boa sorte,
Aline

Realmente a experiência que vocês tiveram aí mexeria com qualquer pessoa. Isso é algo que vocês vão guardar para o resto da vida. Foi ótimo você ter tido a oportunidade de partilhar iso com o Martin. Mas o lar de vocês é o UK, é muito bom voltar para casa. Curtam bastante as suas férias, vocês mereceram, sem dúvida. E que venha o leãozinho no Krueger! Fiquei agora com vontade de conhecer a África do Sul, mas só para férias, nada de trabalho!

Marcinha, aproveitem as férias que vocês merecem. Sei que é papo de doido, mas quero você mais pertinho de mim, na Inglaterra. ;-)
Smacks

Marcinha, querida:

Bom retorno a casa!
Beijos,
Ane

Dear M&M,
Have a nice and deserved rest during these last days!!!!

Marcita, querida. Obrigada por ter nos levado com vc em sua viagem, com seus relatos tão cuidadosos e detalhados. Vamos sentir saudades também. Mas ao mesmo tempo, não vemos a hora de voltar a ler seus posts feitos em solo britânico!