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Filosofia Wagamama

Enquanto meu chá de camomila tá em infusão vou tentar escrever aqui o que estou tentando há algum tempo.

Já falei algumas vezes durante nossas excursões à Londres sobre o restaurante japonês chamado Wagamama, né? Cêis lembram? Num lembram? Tudo bem.

Na primeira vez que fomos eu havia gostado da comida mas não tinha gostado daquelas mesas comunitárias, todo mundo na mesma mesa, sentados no mesmo banco, sem muita privacidade. Mas a comida era boa.

Apesar de ser um restaurante japonês, não tem sushi nem sashimi. E não é lá amigo das rígidas regras culinárias japonesas. E também não se interessa a ser um restaurante 'típico' japonês, muito pelo contrário. Wagamama é atípico.

Voltamos numa outra vez e, como eu já conhecia o esquema, me senti melhor entre todo mundo. Na terceira e quarta vez comecei a amar o ambiente, a entender a proposta do lugar e relaxar com meu fartos pratos deliciosos.

(Com licença que preciso tirar o saquinho de chá da xícara. Pronto.)

O restaurante funciona mais ou menos assim: você entra, senta em uma das mesas comunitárias disponíveis, faz seu pedido para os atendentes (geralmente estudantes universitários fazendo bico) que carregam pequenos palmtops e em poucos minutos seu prato está na sua frente, fresco e quente. Há hashi e garfos disponíveis, pequenas conchas de bamboo para tomar o caldo dos noddles e todas as tigelas são laqueadas, de forma que a mesma não conduz calor mesmo com o caldo quente dentro. Então você tem a liberdade de segurar com as duas mão e levar a tigela até a sua boca para tomar o caldo, se quiser.

(Fuuu. fuuuuuuu. Quase esqueço de tomar o chá)

Nessa descontração encontra-se a filosofia do Wagamama. Positive thinking + positive eating. Mais ou menos como pensar positivamente e comer positivamente.

Fiquei tão encantada com essa idéia que acabei comprando o livro recém-lançado por eles.

Li com muito gosto (hihi) e passei a entender melhor o que eles propõem. Eles encorajam o que há algum tempo estamos perdendo, como a celebração, a união, em volta da mesa. Estamos cada vez mais individualistas, mais reservados, mais fechados. No wagamama não há reservas, não há ordem de entrada, prato principal e sobremesa. Não há regras e quase não há etiqueta. Tudo isso fica pra fora da porta. No interior da casa, há uma profusão de pessoas comendo juntas, conversas que se misturam, olhares que desviam, que se cruzam, que cumprimentam. Todo mundo vê e respira a comida que todo mundo pediu, os aromas se misturam, o paladar fica mais instigado. Pelo menos pelo curto espaço de tempo que dura a sua refeição, é possível ao menos ter uma idéia de como é bom estar em um ambiente onde a maioria quer mesmo isso para a vida: idéias positivas, pensamentos positivos e uma alimentação igualmente positiva em todos os sentidos.

(Ihh, o chá ficou frio)

Comecei a adotar a mesma filosofia aqui em casa. Ando meio cansada de ver a todo instante notícias e artigos desfilando listas de calorias, de dietas, de perigosos carboidratos, de açucares vilões, de artérias entupidas, de obesidade, de vigilantes, de vigiados, de Atkins, de aaaaargh! É um terrorismo tão grande, tudo faz mal, engorda ou mata. Mesmo quem segue uma dieta de bom senso fica apavorado. Não quero ter medo de comida, não quero ter culpa por aquilo que como e nem quero proibir nenhum alimento.

Eu quero sinceramente, para nós aqui em casa, é comer bem, saudavelmente e sentir prazer em comer bem. Comer suspirando e dizendo "hummmm, tá gostoso isso aqui". Terminar a refeição e pensar, "ahhh, tô tão feliz depois dessa refeição!"

E para isso, como aprendi no livro, é preciso preparar tudo com a mente positiva muito antes de ligar o fogão. Comprar poucos e bons alimentos, bem frescos, ao invés de estocar para durar o mês todo. Ter a cozinha limpa e arrumada antes mesmo de começar a cozinhar. Lavar bem as mãos, sentir-se bem de preparar o alimento pro corpo. Aí sim cortar e picar tudo com antecedência e usar o fogão o mínimo de tempo possível.

(O chá acabou e Mr.M comeu o resto do meu bolo)

No final de semana fomos à lojinha sul-coreana aqui perto de casa e compramos muitas muitas coisinhas japonesas. Ontem fizemos um jantar excelente, Martin me ajudou a picar uma porção de legumes bem fininhos que foram juntados às tirinhas de frango com molho teriyaki que estavam sendo cozidas em uma frigideira bem quente, por não mais que 10 minutos. Arroz japonês macio e grudadinho para acompanhar. Não deu nem tempo de perceber, já estávamos bem servidos de toda positividade possível.

(Hora de ir preparar o jantar, nhaaam!)


13 Comentários

Marcinha, isso tudo é muito lindo, muito legal, muito alto-astral, mas o problema, na maioria dos casos, é simplesmente a falta de tempo. Quem, hoje, consegue trabalhar E sair de casa todo dia pra comprar ingredientes frescos? Nao acredito que quem coma mal o faz porque quer. Ninguém, em sã consciência, prefere uma bandejinha de comida pronta que vai ao microondas e não tem gosto de nada em vez de um bom prato de alguma coisa feita "from scratch" e com muita boa vontade. O problema é achar tempo pra cozinhar from scratch, pra fazer compras com calma, pra programar cardápios... Quando você trabalha o dia inteiro, se estressa no trânsito, chega tarde em casa com a cabeça quente e o corpo canSado, a última coisa que você quer é encarar o fogão! A verdade é que a qualidade de vida anda cada vez pior, em tudo que é lugar, viu?

ontem fiz abóbora com camarões, uma delícia :
seu texto já está no site.
o endereço é
http://www.sosgatinhos.tk
está no link "Já pra dentro!"
obrigada :)

Ah... pois eu vou falar: compra todo dia não dá tempo, mas uma vez por semana, tá de bom tamanho. A-go-ra, chegar em casa com a cabeça cansada e o corpo estressado, não tem nada mais gostoso que ir para o fogão fazer o "ritual" da comidinha fresquinha gostosinha, hmmm... :)

Leticia, Tudo bem, concordo... ate certo ponto, pois, existem muitas pessoas que,"em sã consciencia", não preferem e nem deixam de preferir. Simplesmente, nao sabem a diferença entre um prato de isopor e uma fatia de bolo e cha de camomila, quanto mais o espirito que envolve as pessoas em uma refeição entre amigos. Acho que o post da Marcia é para esses.

Letícia, é verdade que a falta de tempo vai contra qualquer princípio de viver bem. E também não faço apologias para que todo mundo passe horas na cozinha, exaustos e sem paciência. O que quis pontuar no post é que comer bem é ir além de encher a barriga. É usar os sentidos, é sentir prazer, é se cuidar. Mais do que ser legal, lindo e alto-astral, para nós é diversão e carinho. Procuro sempre manter um tempo para fazer isso, nem que seja em um sanduíche. ;-)

Leila, oh god camarão com abóbora?? Mmmmmmmm, que delícia! E parabéns pelo site do sos gatinhos. Boa sorte!

Grace, a gente geralmente faz compras uma vez por semana para frutas, verduras e alguns legumes e a cada mês para o resto não perecível. Comer bem é sempre relaxante. :o)

Eliana, acredito que tem muita gente que não liga mesmo para o que come, desde que sacie a fome. Não há nada de errado, apenas não é essa a nossa 'filosofia' de se alimentar aqui em casa. :o)

maravilhoso.
adorei!

O Ingrediente Secreto de Martha
Ben irritava-se todas as vezes que entrava na cozinha. O motivo era aquela pequena lata na prateleira acima do fogão de Martha. Provavelmente, ele não a teria notado nem se irritaria se Martha não lhe tivesse dito repetidas vezes para não tocar ali. O motivo, ela dizia, era que a lata continha uma "erva-secreta" de sua mãe. Martha preocupava-se, porque Ben ou qualquer outra pessoa poderia pegar a lata para espiar e derrubá-la acidentalmente, espalhando o valioso conteúdo no chão. Ben nunca viu a esposa cozinhar sem tirar a lata da prateleira e salpicar um pouco da "erva secreta" sobre os ingredientes. Todos os que comiam em sua casa, teciam grandes elogios às prendas culinárias de sua esposa. Um dia, Martha adoeceu. Ben levou-a ao hospital, onde ela passou a noite. Quando ele voltou para casa, sentiu uma grande solidão. Na hora do jantar, ele não sabia o que fazer. Ao entrar na cozinha para ver se havia alguma coisa na geladeira, a lata da prateleira chamou-lhe a atenção. Que mal haveria em dar uma espiada? Ele pousou a lata no balcão e tirou a tampa com o máximo cuidado. Estava morrendo de medo! Quando finalmente conseguiu enxergar o interior da lata, Ben arregalou os olhos, surpreso - ela estava vazia... havia apenas uma folha de papel dobrada no fundo. Havia uma anotação rabiscada no papel. A grafia era da mãe de Martha. As palavras eram estas: "Martha, em tudo o que você fizer, adicione uma pitada de amor". Agora Ben entendia porque a "erva-secreta" era tão saborosa. Roy J. Reiman

O alimento feito com amor sacia a alma e melhora a qualidade de vida.

Desculpem-me pelo "big-post"

Beijos,

Márcia,
Estava com saudades dos seus posts "gastrônomicos", que sempre achei maravilhosos. Faz tempo que me prometo comer direito, de um modo decente, no entanto, me fata tempo e eu não gosto de cozinhar só para mim. Queria muito conhecer esse restaurante!
Beijos, beijos

Bom, eu tenho problemas sérios de oscilação de peso. Infelizmente eu não posso comer tudo o que gosto, senão acabo virando uma baleiazinha orca, tão fofa. Mas essa visão sobre a comida é de fato positiva, além de tocante. Meu namorado, ao invés de fazer "compra de mês", passa no mercado quase todos os dias quando sai do trabalho e traz legumes e carnes fresquinhos, em pouca quantidade que era pra não durar, mesmo. De início, eu com meus hábitos brasileiros, fiquei espantada com a atitude, achei que dava mais trabalho. Mas era tão gostoso comer a comida que ele fazia, e com um carinho tão grande, que depressinha entendi o segredo da coisa e hoje apóio totalmente. :o)

Márcia,

Adorei esse post! Qdo morei em Londres, morria de saudade e vontade de devorar uma comidinha japonesa, que continua em alta aqui em Sampa e eu amo! Então descobri o Wagamama...No começo me frustrei pq não tinha sushi e sashimi, mas depois curti o ambiente, a comida e ajudou a matar a minha saudade da culinária (ou o clima) do restaurante japones...Agora que tô aqui, tô morrendo de saudades do Wagamama!
A propósito, concorso muito, muito com tudo que vc escreveu...Tô farta de papo de malhação + caloria + lipo + silicone!!!Argh, vamos relaxar a mente, pensar saúde e ser feliz!
Muitos beijos

Marcia,

que post delicioso! Fiquei com vontade de ir para a cozinha e preparar algo com muito amor para a minha pequena família.
Adoraria ver as carinhas de prazer! Só não sei se obteria sucesso, ando com pouca criatividade e sem treino para a arte culinária.

Vou tentar!

Cris

Esse é um conceito do zen budismo: viver e comer consciente, presente em cada ação.

Eu também entrei na linha da alimentação mais saudável. Institui em casa que as refeições devem ser refeições (e não beliscos, lanchinhos e afins o tempo todo, só de vez enquando). Já somos usuários da cesta orgânica... Eu cortei o leite (pessoas de sange tipo A não podem tomar muito leite entre outras coisas que o leite tem que pra adultos, não é legal) e estou cortando o refri. Mas é uma escolha MINHA. Não "obrigo" ninguém a seguí-la e respeito quem come o que quer. :)
O importante é a gente comer e se sentir bem...
O dr. Mauro disse: "Somos o que comemos", entre outras coisas... Se começarmos pelos alimentos, desde o tipo a forma como preparamos e os recebemos em nós, isso já traz uma mudança grande!!!

Beijos M&M...:)