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Ray Mears - Bushcraft and Beyond

Eu sei que eu já falei dele aqui muitas vezes e sei que algumas pessoas já estão cansadas de ler a mesma coisa que eu conto aqui. Mas, hohoho, ser tirana do próprio blog que dizer que eu posso repetir quinhentas vezes o mesmo assunto e ninguém me pára, hohohoho.

Enfim, eis que a BBC passou durante o mês passado a novíssima série de Ray Mears' Bushcraft. E não tem, minha gente, não tem como não se maravilhar e não assistir a tudo com os olhos arregalados, a boca aberta e a mente escancarada.

Ray Mears é especializado em ensinar Wilderness Bushcraft, que a grosso modo quer dizer "técnicas da selva" ou como ele mesmo chama, "a arte do possível". E seus conhecimentos vão além de básicos conceitos de sobrevivência. Ray Mears nos envolve no estudo sobre a natureza e a cultura indígena que nos cerca de forma simpática, rica e extremamente impressionante.

Há muitos tempo a gente sabe que esfregando dois gravetos é possível fazer fogo. Mas será que sabemos mesmo como fazer isso na prática? E de forma humilde, simples e direta Ray Mears explica e mostra como efetivamente fazer fogo. E a forma que ele nos ensina parece que está dentro da nossa sala de estar, conversando e fazendo uma receita fácil e deliciosa. Em quase todos os programas que apresenta ele aparece fazendo uma fogueira esfregando gravetos. É simplesmente hipnotizante.

Ele ensina, enfim, tudo aquilo que esquecemos. Como ler nas árvores em que direção da bússula estamos, como fazer abrigos com folhas e troncos de árvores, como encontrar o que comer, como "fazer" água para beber. E sei que muitos devem estar pensando "mas pra que diabos eu preciso saber disso?". Precisar não precisa, até o dia que você precisar. No ano passado a BBC passou a série Ray Mears Extreme Survival, que mostrava justamente isso, como nós, seres do mundo moderno, somos vulneráveis e ignorantes quando estamos perdidos. Foram vários programas dedicados à mostrar como pessoas comuns são vítimas de sua própria falta desses conhecimentos básicos. Um carro que quebra no deserto, uma tempestade de neve inesperada, a queda de um aeroplano no meio da floresta, um naufrágio perto da praia, ou até mesmo coisas mais simples como se perder numa trilha na mata ou na montanha. A frase que Ray Mears sempre repete é: ter os conhecimentos da vida selvagem é ser livre.

Para mim, conhecimento nunca é em vão, mesmo que a gente nunca use, mesmo que hoje a gente tenha um mundo de tecnologia para nos ajudar, saber e entender como a natureza funciona ao nosso redor é simplesmente encantador, um privilégio sem preço e uma diversão garantida.

Mas o melhor dos programas dele, para mim, é quando ele se encontra com tribos indígenas das mais diversas e remotas partes do mundo. Ele é extremamente carismático, mesmo entre índios completamente hostis ao mundo civilizado. Geralmente no começo ele fica só observando os indígenas, sem se intrometer, respeitando o cotidiano deles. Logo ele começa a arregaçar as mangas e a ajudar nas tarefas da tribo cortando árvores, caçando, pescando. E então simplesmente algo acontece e os índios passam a gostar dele como membro da tribo. No final estã todos se despedindo com lágrimas e abraços honestos e Ray acaba sempre ganhando algum presente feito com muita dedicação pela tribo. É comovente.

Nesta nova série em particular, Ray Mears' Bushcraft visitou a Amazônia, mas ficou na borda venezuelana, não no Brasil. Lá ele se encontrou com a tribo local e conviveu com eles por várias semanas aprendendo as técnicas bem diferentes, como a pesca por anestesia natural, onde os índios usam a seiva de raízes para jogar no rio e fazerem os peixes ficarem anestesiados e subirem para a superfície. O programa foi todo produzido dentro da floresta, em acampamentos feitos entre as árvores e refeições colhidas na natureza.

Foi bem bacana, mas o que mais me emocionou foi quando Ray Mears perguntou delicadamente aos índios que o acompanhavam se eles sabiam como fazer fogo com gravetos. Meio constrangidos, os dois tentaram mas não conseguiram e por fim confessaram que os antepassados deles sabiam mas hoje eles não sabem mais. E então Ray Mears com todo cuidado do mundo disse que o trabalho dele é de ensinar as pessoas essas técnicas esquecidas e que seria uma honra imensa mostrar para eles como se faz um fogo. Eles olharam meio desconfiados e descrentes que aquele branquelo poderia ensinar alguma coisa a eles. E Ray Mears estava todo cheio de dedos porque segundo ele, sul-americanos têm algo no sangue que os torna apaixonados pela sua própria masculinidade e é preciso muito tato para mostrar a eles que não saber alguma técnica não é nenhuma fraqueza e sim um conhecimento a ser adquirido. Eles aceitam e logo Ray Mears está a frente mostrando como cortar, como esfregar, como colher a brasa e como finalmente fazer a fogueira. O primeiro deles se dedicou bastante, seguiu todas as instruções e conseguiu colher bastante brasa. Ray colocou-as num montinho de serragem de madeira e pediu para eles assoprarem sem parar. E no meio da fumaceira, tcharam, o fogo se fez! Os dois arregalaram os olhos sem acreditar que haviam feito tudo com as próprias mãos! Sorriram, riram e pularam. No dia seguinte, os dois índios estavam ensinando a todas as crianças da tribo. Satisfeito, Ray Mears teve a certeza de que pelo menos por mais uma geração aquela tribo seria capaz de produzir seu próprio fogo.

Na semana passada, o programa foi na Tanzânia, continente africano. Ele já havia feito um programa lá, em 1994. E quando eles estavam filmando no acampamento, um velho índio da tribo Hadza se aproximou timidamente. Era um dos amigos que Ray Mears havia feito dez anos atrás e que tinha andado até lá para reencontrá-lo, quando soube que a equipe estava de volta. A partir daí eles passaram toda a produção juntos, fazendo as trilhas e caças conforme os costumes da tribo. O velho índio ensinou como fazer um arco e flecha, como encontrar água no seco solo africano. As mulheres da tribo ensinaram como fazer pão, como encontrar frutas na selva. No final, Ray Mears havia uma surpresa para a tribo. A equipe montou um monitor e chamou todos da tribo para assistirem à surpresa. Eles todos senteram no chão, curiosos e sem saber o que veriam na caixa quadrada. E eis que Ray Mears passa o vídeo do programa que eles haviam feito em 1994. Todos eles arregalam os olhos e riem ao verem a si próprio na tela. Na tribo, como em qualquer outra, não há album de fotografia, não há imagens passadas para relembrar. E para eles, verem a si próprios dez anos atrás é impressionante, para se dizer o mínimo. Quando o programa termina, muitos deles estão chorando e todos se despedem de Ray Mears com abraços e apertos de mão que dizem mais do que eles podem nos dizer.

A mistura de um pouco de tudo isso, conhecimento, cultura, lágrimas, carisma, amizade, risos e diversão é que faz desse programa tão especial.

Depois de testemunhar a eficiência de Ray Mears de fazer a sobrevivência possível nas mais difíceis situações, eu não tenho dúvida da minha resposta para quando alguém me perguntar quem eu levaria para uma ilha deserta, hehe. Pelo menos com Ray Mears por perto sei que sobreviveria.

Raymears.gif

:o)


10 Comentários

Queridoca, adorei essa dos "sulamericanos terem apaixonados pela própria masculinidade". Dead on. Perfeito. É isso mesmo. É tanta paixão que nego se comporta como estúpido só pra provar que é homem. Ah, que canseira. :c) Ah, perguntinha: acho bom você e Mr.M fazerem um curso rápido Ray Mears de sobrevivência na wilderness da tundra, né? quem sabe o que pode acontecer??? HOHOHOHOH.

u-au!
quero ver, quero ver!

Adoro estes tipos de documentários. Interessantíssimos. Em que canal podemos assistí-los?
Estou sempre de olho no seu blog. Você é uma pessoa muito carismática. Parabéns.

Um forte abraço brasileiro.

Oi Marcinha! Estou em Somerset (pertenho, fala ae?)
Eu tbm adoroooooooooo Bushcraft com o Ray, nao perco 1 ! Ontem foi legal mas gostei muito do anterior na Africa com os Massais (acho q é isso)...
De que lugar em Dorset vc é?
Bjussss
van

Bem que poderiam comprar esse programa e passar aqui no Brasil, mas quando.... Aqui a tv estácada vez pior, nunca ia passar um programa como esse, que eu me refestelaria só de assistir...

Oi querida...esse programa deve ser muito interessante mesmo. Bem que poderia passar aqui também.Eu adoraria aprender a fazer fogo. Quando eu era pequena tinha o manual dos Escoteiros Mirins do Huguinho,Zezinho e Luizinho do Pato Donalds e eu ficava me imaginando fazendo aquilo tudo, me transformando na Níssia Jones!

oi Marcia, passei por aqui e dei uma bisbilhotada...um beijo.

Olá Márcia!
Não te conheço, mas por acaso achei seu blog na internet e achei muito interessante. Bem, não pude ler tudo ainda, mas sinceramente o pouco que li já me "acalmou" um pouquinho. Minha históra é um pouco parecida com a sua. Conheci um inglês pela internet há um ano mais ou menos. Nos apaixonamos, conversamos todos os dias. Ele passou férias no Brasil comigo em setembro, mas eu nunca fui na Inglaterra. Trocamos e-mails, msn, tel etc..quando ele veio decidimos nos casar e vou mandar a documentação para o consulado para ir como noiva dele. Nos amamos de verdade!!!!!! É incrível como as coisas acontecem. Se fosse possível, gostaria que me ajudasse quanto a documentação para o visto. Dá um frio na barriga!!! Pretendia ir para lá até 20 de dezembro. Desculpe, mas precisava da ajuda de alguem que tivesse vivido algo semelhante e encontrei vc!
Abraços

Alessandra
Belo Horizonte - MG

Olá
Meu nome é Márcia, sou do Rio de Janeiro.
Já tem um bom tenho que virei sua leitora.
Acho interessante a vida de pessoas que moram fora do Brasil e que através do blog, nos conta como é a vida a cultura de outros países.

Lamentei muito sobre o bebê...
Meu irmão perdeu um filho com um ano e cinco meses por causa de uma Meningite.
Passados alguns anos, agora ja vai nascer outro filho.
Aquela saudade será eterna em nossos corações mas temos que aceitar que nem sempre entendemos os designios de Deus.
Um grande beijo

Márcia

Ola marcinha.
quero dizer-te que encontrei o teu blog quando procurava artigos do ray mears de quem sou fã pois tambem pratico sobrevivencia.O que escreveste sobre o ray é muito bonito e confesso q a maneira como tu mesma descreveste os episodios q ainda nao tive oportunidade de ver(porque nao passam em portugal),me tocou imenso ao ponto de eu mesmo ter encontrado agua...no canto dos meus olhos.Muito Obrigado e parabens nao so pelo que escreves mas tambem pela forma como o fazes e pela maneira como encaras a vida .Sinto-me ate mais rico por ter passado os olhos pelo teu blog.Nao sei se era esta a tua intençao mas se era...missao cumprida.
PARABENS,UM BEIJO E OBRIGADO !!!!!

RICARDO ,LISBOA ,PORTUGAL