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Eleições no Império Britânico

Está marcada para 5 de Maio a data para escolher o Primeiro Ministro do Parlamento.

A disputa vai ser, como sempre, entre dois partidos: Conservative (de Michael Howard) e Labour (do qual Tony Blair faz parte). Há outros partidos menores como o Liberal Democrats e o controverso Sinn Féin, partido irlandês que esteve envolvido em violentos ataques para a libertação da Irlanda do Norte durante os anos 80.

Mas a grande corrida mesmo vai ser entre Howard e Blair.

Na minha humilde opinião de quem nem pode votar ainda, eu espero que entre esses dois, Tony Blair vença. Ou que aconteça algum milagre e dêem uma chance aos liberais democratas, mas não aposto meu dinheiro nisso. Apesar da grande besteira que foi se envolver com a invasão do Iraque e arcar com suas conseqüências, o governo de Blair foi uma enorme revolução política e econômica para o Reino Unido, depois do conservadorismo ferrenho de Margareth Tatcher.

Mas o que me faz querer que o Labour vença é que não quero ver o país de volta às rédeas do Convervative, que espera fazer uma "Inglaterra para os ingleses". Só nesse slogan já dá para perceber que a principal meta para os conservadores vai ser atacar a imigração. Segundo as palavras de Howard, seu partido pretende "criar quotas anuais de refugiados que podem entrar no país, controlar os imigrantes que entram e criar um novo work permit". Palavras que fazem tudo parecer organizado e certo, mas que por trás vem carregada de rascismo, discriminação, ignorância e preconceito. Fechar as fronteiras só vai fazer crescer o número de imigrantes ilegais e tornar a população ainda mais xenófoba do que já é.

E ao que refiro imigrantes, não estou falando de brasileiros que se casam com ingleses ou de brasileiros que vêm trabalhar aqui legalmente. Falo de perseguidos políticos, refugiados de guerra, exilados das mais diversas e cruéis razões. Esse tipo de gente que perdeu total confiança de viver em seu próprio país, ameaçados de morte por severas leis religiosas, e que espera receber de um outro país mais rico e mais democrático ajuda para sobreviver. E some-se a isso a real e indiscutível necessidade que o Reino Unido tem de adquirir mais mão-de-obra, especializada ou não, para fazer o país continuar crescendo. Um precisa do outro. Nick Hardwick, atual membro do Refugee Council no governo de Blair, sabe da importância dos imigrantes para o país e tem lutado para regularizar a situação de quem pede asilo aqui.

Agora o que o Conservative quer é aumentar ainda mais o medo do desconhecido que a população tem a respeito da imigração. Há obviamente casos em que os refugiados são largados num canto e como não falam a língua, não podem trabalhar, nem nada, acabam enchendo a cara e entrando pro mundo do crime. É essa a única imagem que vêm a cabeça de quem é pouco informado a respeito e é também a única imagem que os conservadores querem que a população tenha. Imagem extremamente injusta porque nem todo imigrante é problema, nem todo refugiado é criminoso, nem todo exilado é lixo. Muitos dos que imigram pra cá trazem com eles força de trabalho, dedicação, respeito, cultura e divisas.

E por fim, para um partido que séculos atrás invadiu e conquistou territórios na África do Sul, Hong Kong, India, Austrália e Falklands, fazer discurso de que cada um deve ficar em seu lugar é no mínimo hipocrisia. Muitos dos que aqui pedem asilo vêm de países cuja própria política invasiva dos países ricos tornou o lugar insuportável de se viver.

É isso.


10 Comentários

Nossa Marcia, nao podia concordar mais com o que voce escreveu.
Tambem sou brasileira, casada com um ingles e moro em Londres.
Acho os conservadores um atraso, um passo para tras.
Eles apostam na imigracao como lema porque ninguem entende bem o que acontece. Os ingleses nao estao muito informados a esse respeito e tem medo de 'perder seus empregos' para imigrantes.
E triste de ver!
O Blair tem a disvantagem da guerra do Iraque, mas, mesmo assim, torco muito para ele ser, de novo, primeiro ministro.
Vamos torcer ja que eu tambem nao posso votar!

Irônico (e dolorido ao mesmo tempo) é pensar que o Michael Howard faz campanha afetiva - i.e. tenta conquistar a simpatia da população - contando que a família dele é de refugiados (no caso os avós dele, que vieram da Alemanha para a GB por conta da segunda guerra mundial). Bah bloody humbug! >:(

Também torco pelo Tony Blair, queridoca. Dos males o menor, né não? Beijocas. (Adorei o post)

Mas é exatamente esse o ponto-chave, Marcinha, o seu último parágrafo. Mas como é difícil fazer neguinho entender que, sei lá, se o Zaire não tivesse sido explorado e sugado até o miolo e estivesse numa nice, neguinho do Zaire com certeza não viria aqui procurar emprego, arriscando a vida em barquinhos, por exemplo. Honestamente acho que essa é a única tecla na qual vale a pena bater. Entendo perfeitamente quem não gosta de estrangeiros; quem migra desesperado normalmente é pobre, f*dido, pouco acostumado a obedecer regras e, coisa perigosíiiiissima, não tem nada a perder. Dali pra começar a incomodar os outros é um pulo. Então não adianta ficar repetindo que nem todo imigrante é lixo, porque todo mundo vai ter alguma história feia pra contar sobre algum imigrante pobre. O negócio, acho eu, é explicar que neguinho tá na pior por culpa do Velho Mundo, e agora o Velho Mundo tá sofrendo as conseqüências, e mesmo tudo isso não sendo culpa das gerações atuais, se algo não for feito pra melhorar as condições de vida nos países pobres o refugiado na jangada jamais vai deixar de existir. Imigração sempre vai existir e acho ótimo (variedade genética é sempre bom), porque neguinho se muda pelos motivos mais variados, mas não seria muito mais legal se entre esses motivos não existissem coisas como perseguição política ou religiosa, guerras idiotas, miséria total e absoluta?

Achei um ótimo post, e uma ótima caixa de comentários, sobre o assunto xenofobia/imigração, aqui:

http://barnabe.weblog.com.pt/arquivo/087935.html

Essa parece uma tendência em toda a Europa, a da discriminação, contra o estrangeiro, o negro, o diferente. É como vem acontecendo nos estádios de futebol da espanha e da Itália, onde jogadores são chamados de macacos por torcedores rivais e até torcedores da sua própria equipe. A Nike faz uma campanha pra combater o racismo no futebol, mas talvez um pouco de irreverencia dos jogadores tem mais efeito sobre o racismo do que bater em ponta de faca? que tal comer uma banana depois de fazer um gol ou imitar um macaco em direção aos agressores. Quanto a política oficial ser tão dura quanto ao imigrante só aumenta ainda mais essas manifestações infelizes de seres humanos que se acham superiores a outros, uma pena!

Marcia, com certeza, esse seu post esta mais do que certo, moro nos States e o nosso querido Bush esta querendo contratar civis pra tomar conta das fronteiras americanas, pois como todo o exercito dele esta tomando conta do Iraque, nao tem ninguem sobrando aqui. Imagina no que isso vai se tornar qdo uns malucos red necks que nao sabem nem que existe outros paises alem dos 7 mares pegarem numa arma pra "legalmente" defenderem o pais deles contra imigrantes!!! E como na Europa, os EUA maltrataram e ainda mal-tratam os mexicanos, mas se nao fossem por eles, esse pais aqui nao sairia do lugar. A Europa precisa tanto dos Turcos, Africanos, Iuguslavos como os Estados Unidos precisa dos Sul-americanos, entao pra que dificultar tudo? Esse povo parece que bebe so!

Oi Marcinha,
Pena foi o Tony Blair ter se envolvido na invasão do Iraque pois acabou se 'queimando' um pouco mas acho que as pessoas devem ver também todas as coisas boas que ele fez e não se apegarem a um fato.
Tomara que ele ganhe, porque esse discurso sem cabimento de "Inglaterra para os Ingleses" do Labour é a coisa mais retrógada e sem cabimento que existe no mundo atual.
Beijokas, Isabella

Adorei ler esse post. Ainda essa semana estava descutindo com meu marido a respeito das eleicoes, ele eh conservativo, e eu sou contra (tb nao posso votar), mas como em politica estamos sempre desdordando mesmo... fazer o que ... Pelo menos depois de ler esse post tenho mais argumentos. BJ

É, Marcinha, aqui o lance da imigração tem sido o tema principal das eleições e com o partido conservador no poder estamos sentindo os resultados do preconceito (às vezes camuflado, às vezes explícito) da política deles. Triste, muito triste. :-(