« I Can Hear You | Main | Diet Posts »

Food Phobia

Para aqueles que pediram para saber o que aconteceu com o menininho da The House of Tiny Tearways, que morria de medo de qualquer comida, vou contar aqui como foi a participação da família dele no programa.

O menino se chama Lewis e tinha dois anos e meio na época da produção do programa. Os pais dele são adoráveis, pessoas comuns, simples, casal apaixonado e extremamente amáveis com o garoto. E Lewis é um doce de menino, muito inteligente, bem articulado e simpático.

Porém seus pais se sentiam completamente arrasados com seu problema alimentar. A pobre criança não podia nem ver pedacinhos de comida que não fosse mousse de chocolate ou batata frita de pacotinho, que chorava em desespero, tremia e colocava as mãos nos olhos como se estivesse escondendo de um monstro. E também não suportava a idéia de ter nada que grudasse ou molhasse seus dedos, causando pânico e mais lágrimas.

A psicóloga observou o comportamento da família na casa deles por uma semana antes do programa começar e já teve as primeiras pistas do que estava acontecendo para que Lewis agisse daquela forma. No casarão do programa, a família se comportava da mesma forma e a terapeuta pôde gravar e mostrar aos pais aonde estavam os principais problemas:

Limpeza excessiva
Para onde Lewis ia, a mãe dele ia atrás carregando um pote de lenços umedecidos. Ao menor sinal de sujeira, ela logo limpava a mão dele com o lenço. Se ele chorava, mais lenços. Se comia, mais lenços. Se brincava de pintar, muitos mais lenços. Logo Lewis começou a associar que qualquer coisa que grudasse em suas mãos era sujo e errado. Não foi difícil para ele estender essa idéia em suas refeições, recusando a tocar alimentos úmidos.

Como se fosse um bebê
Porém, como a psicóloga já havia previsto, o problema da limpeza era apenas a ponta do iceberg. Havia uma razão muito mais importante e relevante no caso de Lewis que era o principal causador de todos os distúrbios que ele vinha tendo. Os pais deles simplesmente não aceitavam ver que o bebê deles tinha crescido e agora era um menino grande, com necessidades de menino grande. Lewis ainda tomava mamadeira, sentava no cadeirão, era alimentado por colheradas pelos pais. Quando os pais tentavam alimentá-lo com outro tipo de comida, faziam algum purê bem batido no liquidificador. Ou ofereciam potinhos de comida pra bebê. Tudo fervorosamente recusado por Lewis. Os pais também usavam linguagem de bebê para falar com ele. E nunca soltavam da mão dele quando iam ao playground, fazendo com que Lewis pouco interagisse com outras crianças e também morresse de medo de ficar sozinho em qualquer ambiente.

Mas inevitavelmente Lewis percebeu que havia crescido e que não era mais parte dos pais e sim um ser humano independente. Isso o assultava e causava uma insegurança monumental. E para completar, ele captava de seus pais os medos que eles tinham de perder o bebê que Lewis fora. Cada vez que os pais tentavam empurrar alguma comida sólida com uma certa tensão, ele sentia que havia algo muito errado e que certamente era aquele pedaço de comida. Ele não era mais um bebê, mas se os pais dele o amavam como bebê apenas, ele tinha medo de crescer, de comer como um menino grande e perder o amor dos pais.

A Solução
Reconhecido o problema, a psicóloga explicou aos pais tudo o que ela havia observado, mostrando como a atidude deles contribuía para o comportamento do filho e fazendo-os assistir às imagens deles interagindo com Lewis. Os pais ficaram abismados, perderam a fala e perceberam o quanto as palavras da psicóloga fazia completo e total sentido para tudo o que estava acontecendo. Ambos choraram cachoeiras e foram bastante consolados pela terapeuta, que reforçava que o bebê havia apenas crescido, mas Lewis sempre seria o menino adorável que sempre foi.

A partir daí o trabalho da psicóloga foi direcionado aos pais, com atividades para dizer adeus ao bebê e bem-vindo ao menino Lewis.

Ela ensinou a eles a deixar Lewis brincando sozinho, sem a presença deles. No começou Lewis chorou bastante e não conseguia dar um passo para brincar. Mas os pais foram mais fortes e disseram que iam ficar ali perto tomando chá e que Lewis podia brincar. E foram. Mas Lewis chorou. E berrou e se esgoelou. A mãe dele mais uma vez falou que eles estavam ali tomando chá e que ele podia ir brincar. Ele continuou berrando, mas os pais sentaram numa mesinha, tomaram seu chá e fingiram conversar sem olhar para Lewis. Aos poucos Lewis se acalmou e chegou perto do escorregador. O pai dele, lá da mesa onde estava, incentivou dizendo "Vamos ver se você consegue escorregar! Vai Lewis!" E Lewis foi e escorregou sozinho. Os pais bateram palmas e deram vivas e disseram que ele era um bom garoto. E Lewis sorriu e foi pro outro brinquedo. Sucesso!

Mas o maior desafio seria vencer a fobia de comida que Lewis tinha. A psicóloga havia instituído a abolição do cadeirão. Lewis já estava grande o suficiente para se juntar ao casal na mesa de jantar. E para que essa transação fosse calma, ela presenteou Lewis com um presente bem embrulhado com papel festivo e laços e disse que ele mereceu aquele presente porque ele é agora um menino grande tão bonzinho. Lewis ganhou o que aqui chamamos de "booster seat", que é um assento de plástico para colocar sobre a cadeira de jantar e a criança fica na altura apropriada para usar a mesa. Ele ficou entusiasmado para usar.

Na hora do jantar, a psicóloga se juntou a eles e enquanto os pais jantavam, ela propôs uma negociação com Lewis, que já estava chorando ao ver um pote com purê de batatas na frente dele. A negociação era: se ele colocasse o dedo indicador no purê, ganhava uma batata frita do pacote. Ele enfiou e todo mundo fez "êêêê!!", bateram palmas e ele ganhou uma batatinha. Ele olhou pros pais com uma expressão de "uau, sou bom mesmo". Daí a psicóloga foi avançando, agora ele precisava enfiar o dedo no purê e lamber o dedo. Ele fez e todo mundo "êêêê!!", mais salvas de palmas e mais uma batatinha. E finalmente a psicóloga pediu que ele fizesse um gancho com o dedo pra trazer mais purê e colocasse na boca. E ele fez. E fez de novo e de novo. E os pais choraram. A psicóloga pediu aos pais para não usarem mais nenhuma colher para alimentá-lo e deixar que Lewis usasse suas mãos para comer, sem se preocupar com a bagunça e que mantivessem as refeições mais relaxadas possíveis.

Nas refeições seguintes, os pais ficaram sozinhos com Lewis e usaram a mesma técnica das batatinhas. Porém, desta vez no prato dele havia: frango, batata cozida, o mais temido couve-flor, ervilhas e yorkshire pudding, ou o que chamamos de roast dinner, que Lewis não podia nem ver pela frente porque contém muitos pedações. Primeiro ele começou a chorar e empurrar o prato pra longe. Os pais foram instruídos a ignorar as manhas e continuar conversando como se ele não estivesse ali. Lewis percebeu que sendo mal comportado não estava tendo nenhuma atenção. Então ele pegou um pedacinho de frango, comeu e depois bateu palmas para ele mesmo dizendo "good boy, good boy". Os pais bateram palmas para ele também e disseram que ele era muito bom mesmo. E Lewis ganhou uma batatinha porque consistência é tudo. A partir daí ele começou a comer mais e mais e muito mais. Até a temida couve-flor foi devidamente engolida com muito gosto. Seu medo havia se dissipado porque os pais batiam palmas e elogiavam toda vez que ele comia como um menino grande e também sua mãe estava mais relaxada e não ligava mais se ele se melava com a comida.

Até mesmo a psicóloga não esperava esse progresso tão rápido no caso de Lewis. Ela havia comentado que geralmente essas fobias demoram até meses para serem devidamente tratadas e que o público provavelmente não veria nenhuma mudança durante o programa. Ao final ela não pôde deixar de parabenizar os pais e dizer o quanto o pequeno Lewis foi espetacularmente fenomenal aprendendo e testando novas comidas em tão curto espaço de tempo.

O último passo foi dizer adeus à mamadeira. Para isso a produção trouxe uma dúzia de balões de hélio bem coloridos, feitos um buquê com um balde de plástico amarrado na ponta. O pai de Lewis colocou a mamadeira dentro do balde e soltou os balões que subiram pro céu. Lewis mal olhou pra cima, só falou um distante "bye bye bottle". Mas seu pai caiu de joelhos em soluços e lágrimas, cheio de tristeza de dizer adeus ao bebê que Lewis fora.

Logo em seguida fizeram uma caça ao tesouro e Lewis corria para todos os lados para procurar seu "tesouro". Quando finalmente encontrou a arca, abriu e nela havia pratinhos coloridos, garfos e facas com seu personagem favorito e um copo infantil bem bacana. Não sei se no Brasil também tem, mas aqui existem centenas de copos específicos para essa idade (2-3 anos), todos com anti-vazamento, anti-abertura, anti-choque, anti-pinga-pinga. Têm um bico de borracha firme, que a criança tem que morder para beber. Com isso, a língua não precisa mais trabalhar para apertar o bico e fazer o líquido fluir e a criança aprende a beber em copos mais facilmente. Foi esse copo que Lewis ganhou e ficou todo feliz, ergendo em cima de sua cabeça como se fosse um troféu.

Essa série terminou de ser exibida na sexta-feira passada. Duas semanas depois do experimento, a produção foi visitar as famílias que participaram e ver se realmente havia dado resultado. Todas as famílias continuam muito bem. E Lewis, em particular, está mais ativo, mais sociável e comendo tudo o que os pais servem. Adora usar seu próprio garfo e seu copão. E quando alguém pergunta qual o seu prato favorito, ele responde: "roast dinner!!"


Lewis.jpg

Well done, Lewis!


:o)


12 Comentários

Esses programas seriam muito bem vindos no Brasil! Legal vc contar isso td pra gente!
Bjs

Ô, mulher, vc me fez chorar, viu? Vá escrever bem assim lá na conchinchina! :*

Fantástico! adorei seu relato :O)

Olha, me desculpa mas sinceramente tem pais por aí que tinham que ser colocados no paredão. Olha que coisa horrorosa eles fizeram com a criança, como deformaram o coitado psicologicamente. :-(

Concordo com o Mauro. Sei nao se esse menino ficou curado mesmo...Deus queira !

Tereza e Mauro, acho que qualquer casal, qualquer familia poderia ter cometido o mesmo "erro" que os pais de Lewis cometeram. Não entendam mal, os pais deles não eram nenhum maníacos doentes. Eles apenas queriam o melhor para o seu filho, queriam que ele estivesse sempre bem, limpo e saudável, alimentado, feliz. Queriam estar sempre perto dele, queriam estar sempre ali para o que ele precisasse. Erraram na medida, claro. Pecaram pelo excesso de zelo. Acho um erro bastante fácil de cometer. Mas procuraram ajuda, reconheceram seus erros e mudaram suas atitudes para o bem do menino. Acho isso bacana.

Tem pais que não ligam. Tem pais que tão pouco se lixando. Tem pais que querem mais é que os filhos se danem e os deixem em paz. Esses sim, ao meu ver, deformam o caráter de qualquer ser humano.

Beijos.

Marcinha, meu sobrinho mais velho não comia nada. Na-da. Nem tranqueira que criança gosta. Sabe lá o que é ir com uma criança em um aniversário e ela não colocar nada na boca? Não querer um único biscoito que pudesse servir de "recompensa" para uma couve-flor ingerida? A única coisa de que ele gostava eram as vitaminas que meu pai (avô dele) fazia. Fora isso ele era capaz de ficar prostradinho no sofá, de fraqueza, e não comer. Isso na idade do Lewis.
Foi com tratamento envolvendo toda a família que ele começou a ter hábitos alimentares melhores. Não foi um psicólogo quem ajudou, mas sim um gastro.
Fácil não foi, aliás, foram anos de tortura. A hora da refeição era um inferno. Ninguém comia sossegado, nas poucas vezes em que participei perdi a fome. Era impossível tentar fazer com que o clima da refeição fosse casual e relaxado todos os dias, meses, anos a fio.
Hoje, com 15 anos, ele come normalmente. Mas tem uma gastrite que volta e meia o faz passar bem mal, provavelmente conseqüência da infância.
Quem tem filhos que sempre comeram bem, que nunca deram trabalho para se alimentar, não imagina o drama que é, e sempre tem uma solução fácil para tudo, a qual muitas vezes esbarra na arrogância. A mais usual é dizer que deixe a criança sem comer nada que criança nenhuma passa fome tendo comida por perto. Mentira! Passa sim, ele passava. Nada é tão simples, se fosse, os pais não sofreriam tanto com o problema.
Não conseguimos nunca saber porque ele não comia. Hoje na verdade nem importa mais, passado o drama.
E por ter visto isso tão de perto, concordo com você: é fácil apontar o dedo acusador para os pais e dizer que a culpa é deles. Na verdade, é bem capaz que seja mesmo. Mas é uma culpa involuntária. São humanos, querem o melhor para seus filhos.
Quem for pai ou mãe perfeitos, que atire a primeira pedra.

O bom é que saber que pessoas têm a oportunidade de errar, de descobrir que errou, admitir o erro e aprender. Palmas para os pais de Lewis, palmas para Lewis e que história como essa no alerte para siladas que todos estamos expostos. Gde beijo, Marcinha. Como sempre um longo, inteligente, informativo e delicioso post!
:o)

Nossa que coisa mais fofa! Pelo menos os pais tiveram uma cabeca aberta para perceber o erro e concertaram. Deve ser super dificil para eles adimitirem pra si mesmos (e em rede de televisao) toda a educacao que tinham dado ao Lewis e os erros que fizeram. Mas eh isso, a vida e feita de erros e acertos e qdo descobrimos algo que fazemos errado temos que tentar mudar e nao so nos lamentar!

Bom, adorei, ainda mais do jeito que vc escreve que faz a leitura ficar bem mais deliciosa...

Beijos, Flavia

Que bom ver que Lewis está bem agora. ;)

Li tudo. Menina, que bacana! E, cada vez mais tenho certeza, esses programas de supernannies na verdade são programas pra fazer os pais entenderem como devem lidar com suas criancas... Beijocas.

Oi, Marcia,
Eu nao te conheco e acessei seu blog por pura curiosidade ... Confesso que nao tive tempo de ler tudo, mas, aos poucos, chego la ... Mas, mesmo assim, amei !!! E percebi que vc nao mora no Brasil e fiquei curiosa: onde vc mora?
Abraco,
Simone