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Tapa de amor não dói desde que não seja na sua bunda

Eu estava respondendo nos comentários, mas começou a ficar tão grande que resolvi fazer um post.

Por muito tempo eu também pensava assim, que um tapinha às vezes é bem corretivo. Que criança precisa. Eu também, como vocês, levava em conta a minha própria educação pessoal como algo comum e aceitável ("não é porque apanhei que sou psicopata", "não é um tapa que torna alguém agressivo" etc). Mas mudei de idéia depois de muito ler (e believe me, não foram poucos os livros que li), participar de forums e assistir a muitos programas desse tipo.

Eu gostaria que vocês pudessem ver o Little Angels pelo menos e mantivessem a mente aberta sobre esse assunto, percebendo ao longo dos programas como os tapas não fazem bem e como na verdade são desnecessários. Lá eles mostram cerca de 8 famílias por série e estão na terceira temporada. E porque essas crianças estão no extremo do mau comportamento é muito comum vê-las levando esses "tapas corretivos" e sim, muitos pais explicam antes de bater, na hora que batem e depois que batem. A criança chora, se cala e pára de fazer o que estava fazendo antes. Efetivo? Pode até ser. Ideal? Eu acho que não.

O programa mostrou mais de 20 famílias até agora, a grande maioria defensora de dar tapas na bunda, na mão, na perna. Com essa disciplina nenhuma dessas famílias conseguem ter o controle de suas crianças. A criança continua mau-comportada, os pais estressadíssimos e a casa cheia de tensão.

Quando os terapeutas entram em cena, eles não vão apontando o dedo acusando os pais. Não é assim, nenhum terapeuta é assim. Se vocês nunca tiveram a chance de fazer terapia, nunca vão saber o quanto esses profissionais podem ajudar. Enfim, eles entram na casa dessas famílias com o objetivo de ajudar, restaurar a harmonia, trazer de volta a alegria de viver em família.

Eles dão as diretrizes de como cada família pode lidar com específicos problemas que causa conflito entre a criança e os pais. São atitudes simples que muitos pais jamais pensaram em fazer e que realmente funcionam.

Por exemplo: um escândalo comum é quando uma criança está brincando num playground e não quer ir embora. Na disciplina de tapas, os pais chamam uma vez, duas, três. A criança ignora. Os pais tentam carrega-la. Ela esperneia, chora e solta dos braços deles. E corre. Os pais correm atrás, já putos da vida. Alcançam a criança e dão bronca. A criança se esgoela e chuta a perna do pai/mãe. O pai/mãe então dá-lhe um tapa na bunda, fim da estória. É sempre mais fácil bater. Plaft. Você fez isso, isso e isso e agora você vai ver. Plaft. Criança chorando, pais emputecidos.

Na disciplina sem violência, antes de sair de casa a criança recebe informações de quanto tempo vai ficar no playground e o que vai fazer quando sair de lá (um lanche, alimentar os patos, apostar corrida com o pai, etc.). Já quase na hora de ir embora, um dos pais avisa a criança: "daqui dez minutos a gente vai embora, o que você vai fazer nos seus dez minutos?". Passados os dez minutos um dos pais sugere: "vamos ver se você consegue sair do playground e tocar na minha mão em 20 segundos? Eu aposto que você não consegue ser tão rápido! 20, 19, 18, 17..." Eu achava que nenhuma criança ia cair nesse truque. E em cinco famílias que eu assisti que fizeram o mesmo com crianças de até 4 anos, todas as crianças saiam correndo com o desafio. Assim que elas tocavam a mão do pai/mãe, esses abraçavam e diziam o quanto ela era uma boa garota ou bom garoto, davam um abraço e um beijo e iam fazer o que haviam combinado a seguir. Criança satisfeita, pais menos estressados. Mais trabalhoso? Sem dúvida. Mas quem disse que ia ser fácil?

Isso é só um exemplo de uma situação banal. Há obviamente muitos outros problemas além de deixar um playground. E para cada caso, para cada criança, há opções de disciplina que são efetivas e controladoras. Basta pesquisar, basta ler, basta manter a cabeça um pouco mais além dos nossos próprios conceitos arraigados.

O mundo deu muitas voltas desde a nossa geração e muito mais voltas desde a geração anterior. Antes era comum ajoelhar no milho. Antes era comum sentar na frente da classe com um chapéu em formato de cone escrito "burro". Antes era comum levar reguada da professora. Antes era normal o marido bater na mulher para mantê-la nos eixos. "Ah, mas é diferente". Diferente como? Desde a criança que vai parar no pronto socorro com o nariz quebrado até a criança que ficou com a bunda rosada por causa de um tapinha, todas elas têm o mesmo em comum: o medo. Medo da dor, medo de apanhar de novo, medo dos pais não a amarem mais, medo.

Sinto muito, mas não concordo com esse discurso de que a criança que apanha e recebe explicações de porquê está apanhando vai entender e aprender. Se ela tem capacidade de entender e aprender, então por que não explicar, com voz firme, com bronca, com castigos (sentar sozinha, confiscar brinquedo, tirar privilégios), ao invés de bater? Aonde foi que eu perdi a explicação que prega que sentir dor diz mais do que palavras e atitudes?

Quanto ao que as crianças se tornam depois que crescem é uma outra história. Crescemos e nos tornamos adultos com diferentes atitudes, diferentes traumas e diferentes formas de pensar levando em conta um mundo de diferentes aspectos do nosso ambiente e acontecimentos da nossa vida. Mas pensar que a criança que apanha não vai carregar nenhum trauma por causa disso -- porque afinal é tão normal! -- na sua vida adulta é muito errado. Há traumas em menores escalas, mais brandas, mais escondidas, mais enterradas lá no fundo do seu subconsciente. Medo, dor, estarrecimento e humilhação são grandes ferramentas para desequlibrar qualquer auto-estima. Não é porque isso não aconteceu com você que apanhou e é supernormal e confiante em si que não vai acontecer com quem você bate. Porque você não é a outra pessoa e não sabe nem nunca vai saber como a mente do agredido funciona ou vai funcionar.

Anyway, tudo isso que eu escrevi aqui não é para agredir ninguém e nem fazer ninguém se sentir culpado por ter eventualmente usado a disciplina da chinelada. Cada um faz o que é o melhor para a sua família, levando em conta a informação que tem ou teve em seu tempo. Cada um escolhe como educar e disciplinar seus filhos, netos, sobrinhos, afilhados e eu não tenho absolutamente nada com isso. Como você foi educado ou como educou seus filhos já é passado, ninguém pode mudar. Mas há muitas famílias que podem se beneficiar com essas novas formas disciplinares. Há muitas famílias que precisam desesperadamente de ajuda de terapeutas. Há muitas famílias que simplesmente não querem dar tapa, mas querem crianças disciplinadas. E por que não darmos algum apoio? Por que não aceitar o novo? Por que não incentivar essas famílias a ao menos tentarem? Por que em tudo temos que ser "contra ou a favor"? Por que não podemos simplesmente entender que há outros meios atualmente?

A minha intenção aqui, é chamar a atenção para algo que está mudando. Ao invés de rebater tudo o que escrevi aqui diarréicamente, tentem ao menos refletir sobre o assunto, tentem ao menos ler os links do post anterior, ler os conselhos dos especialistas, os casos de cada familia. Antes de abrir a janela de comentários, pare e pense se realmente você já estudou os dois lados para defender suas idéias ou se sua opinião é apenas baseada na sua experiência, que sinto dizer, mas pode estar um pouco defasada.

Conhecimento nunca é em vão. Converse nos fórums, fale com especialistas, conheça as famílias, assista aos programas. Deixe de lado a idéia de que terapeutas são idiotas que só querem ganhar dinheiro. Deixe de lado a idéia de que o que você acredita é sempre o certo. Deixe de lado a rigidez da opinião popular. Porque o mundo muda, as idéias surgem, o ser humano evolui.

Eu talvez não sobreviva para ver isso, mas quero um mundo mais consciente de suas atitudes e conseqüências, um mundo que respeite os limites e direitos de cada ser vivo, um mundo onde levantar a mão para bater seja só para fazer pão. Eu devo mesmo estar atirando uma só estrela-do-mar de volta no oceano. Mas mesmo assim. Ainda assim.


14 Comentários

Oi Márcia,

já tem um tempo que leio seu blog todos os dias. Eu me identifiquei muito porque tb moro no exterior (Alemanha) com meu namorado alemao e senti muito apoio no seu blog. Eu hoje resolvi escrever pq concordo que a violencia na educacao é a pior das coisas que pode acontecer a um ser humano. Meu pai era (e é ainda, mas simplesmente cortei lacos pq ele nao consegue mudar) muito violento e hoje, mais velha e depois de dois anos de terapia que fiz no Brasil, consigo perceber como isso afetou a minha auto-estima. Para mim é extremamente difícil reagir a situacoes agressivas simplesmente pq era proibida de chorar. Por isso pessoas (chefes) autoritários acabam se deleitando comigo pq simplesmente nao tenho capacidade de me impor. Tenho medo, nao sei de que e fico congelada. Sempre sendo simpática e gentil para ser aceita. Hoje percebo minha incompetencia para me adequar ao mundo e procuro melhorar. Por agora nao consigo realmente fazer nada, mas a consciencia sempre traz poder e espero pouco a pouco mudar. Achei sei post muito importante. Muito obrigada,

Paola.

Eu também sou contra violências na educaçao dos filhos. Sofri muito com meu pai que nem era violento fisicamente mas era extremamente violento verbalmente e sei como isso afeta a auto-
estima da gente. Eu tenho muita dificuldade em aceitar a hierarquia no trabalho por causa disso. Tenho que me sentir ao mesmo nivel que as outras pessoas ou, pelo menos, sentir que elas nao se acham "superiores" na posiçao que ocupam. Nunca poderei ser chefe mas também nao gosto de estar sob as ordens de ninguém. E quer seja no trabalho quer seja na vida de todos os dias, pessoas autoritàrias ou que querem decidir sem levar em conta o que eu acho, nao têm nenhuma chance de fazer amizade comigo.

Ah, sim, esqueci de falar que era minha mae quem nos dava umas palmadas de vez em quando, jà que meu pai gritava demais mas quase nunca nos batia. Na minha opiniao as palmadas ajudaram minha mae a nos educar corretamente. Com a evoluçao das relaçoes entre pais e filhos, meus filhos sao educados com muita conversa e quase nenhuma palmada. As vezes a gente os manda pra o quarto por algum tempo. Mas quando eles nao querem escutar conversa de jeito nenhum, uma palmada ou até mesmo a ameaça de uma, é um "basta" que os ajuda a parar pra refletir. Nao digo que essa é a melhor maneira de educar mas, até agora o resultado têm sido bon.

Oi, MArcinha;

Cheguei a essa praia inglesa pelos ventos que sopram da Suécia :o) Sou mãe de duas meninas, de seis e quatro anos, incompletos. Concordo com você. Palmada não adianta. Até porque a criança, quando castigada assim, pensa na dor e não no castigo; o pai ou a mãe desconta a impotência brutalizando o filho. Uma frase sempre ficou na minha cabeça: "A palmada humilha a criança". É verdade, porque a defesa dela é ou sair correndo ou se encolher para receber a dor onde ela vier. Protege-se com as mãos inutilmente.
Esse é o lado da criança. O lado da mãe é que ela é humana. Eu já passei quase 40 horas sem dormir. Trabalho 14 horas por dia para sustentar as duas (sou separada). Estudava à noite. Levo trabalho para fazer em casa. E muitas vezes, depois do terceiro aviso (anunciado) a palmada canta. E eu me arrependo na hora. E choro com minha filha. E peço desculpas. E digo que sou humana, que estou cansada, que preciso da ajuda dela e da irmã porque não há mais ninguém em casa para me ajudar.
E é assim, numa mistura de palmada e conversa, truques e precipitações, que vou levando. E hoje, na festa da escolinha das duas pelo Dia das Mães, vi o orgulho por mim pingar dos olhos das duas. E me senti amada e orgulhosa das minhas meninas.
É difícil, é complicado. É uma estrada totalmente desconhecida. Mas a educação de um filho não depende somente dos pais; depende também dos filhos. Eles não são ignorantes, não são aéreos, não são inocentes de todo: eles sentem o cansaço, a preocupação, a energia ou a falta dela, o orgulho ou a indiferença dos pais, quando estes permitem que as crianças sintam isso. Eles são humanos como nós. E nos educam todos os dias.
Bjs
Julia

Querida Marcinha, penso exatamente como você e como a Julia, minha querida amiga e ex-companheira de estágio: bater não adianta, só brutaliza e humilha a crianca, mostra o desequilíbrio da relacão de poder entre pais e filhos e é uma amostra da impotência que muitos pais sentem com relacão aos filhos. Deve ser MUITO difícil educar depois de trabalhar 500 horas e ainda ter que tomar conta de tudo sozinha. Admiro as mulheres que conseguem - da forma mais civilizada possível. Beijoca procê.

Concordo com tudo que disse, apesar de não ter estudado tanto quanto vc. Vejo minha irmã sopapando meus sobrinhos, e eu conseguindo resolver as coisas numa boa. Me dói muito vê-los apanhando. Eu sei que surra não resolve, eu mesma sou um ser extremamente revoltado com isso... Vamos levantar essa bandeira! Quer criar uma camiseta ou algo assim? Tipo: "em criança não se bate!?

beijos

Opa, já que tem meu nome no post eu tenho que comentar, né? ;-)

Meu comentário vai ficar longo demais se eu for descrever o que faço, então vou ter que resumir mesmo.

Marcinha, eu não sou defensor da palmada. Só quis dizer que não acho que uma palmada ou outra bem aplicada seja o fim do mundo e que vai traumatizar a criança.

Eu mesmo nunca bato em criança. Se dei duas palmadas na minha vida é muito, acho melhor mesmo é usar algum tipo de castigo que a criança possa entender como sendo um preço pago por ela ter feito algo que não devia (e sabia que não devia). Tipo, um exemplo verídico, uma vez fiquei em casa com meu sobrinho enquanto todo mundo foi passear porque ele tinha feito uma malcriação. Ele foi avisado duas ou três vezes que não ia passear se continuasse, não escutou, então eu fiquei em casa com ele enquanto os pais e a irmã iam se divertir. Ele chorou, esperneou, eu deixei ele se cansar e quando ele acalmou, veio conversar comigo. Expliquei tudo direitinho e tudo bem.

E eu também não grito não, só uso um tom de voz mais sério e firme. As crianças me obedecem porque sabem que hora de ser sério é hora de ser sério.

Apanhei quando criança do meu pai, que quase não batia e também não gritava, quando fazia algo muito ruim. Apanhar dele era coisa séria, sinal que eu tinha pisado na bola legal (e eu sabia disso). Hoje, pensando nisso, não acho que ele fez nada de errado em me esquentar a bunda, muito pelo contrário. Era o instrumento que ele tinha para usar na época, e usava com lucidez e da maneira certa.

Já a minha mãe gritava (se esgoelava) e batia na gente por qualquer coisa. Acho que ela liberava as frustrações dela, sei lá. ISSO é errado, e não adiantava nada mesmo, eu desde criança achava ridículo ficar gritando.

Então eu experimentei os dois lados da coisa, o jeito certo de usar as palmadas e o jeito errado. :-)

De novo, não sou pró-palmada mas também não acho que é o fim do mundo. Como qualquer outro tipo de punição, tem que ser usada da maneira correta ou não adianta.

Ah, filhos...devo te-los?
So sei que a Inglaterra e um dos poucos paises europeus em que as palmadas nao sao proibidas. E pelo visto, bater nao funciona mesmo. Concordo com voce Marcinha, botar filhos no mundo e facil, agora educa-los, ai e dificil...e noa, nunca vi o Brat Camp! Bjs,

Marcilda,
eu cuido de duas ferinhas: Um de 3 e uma de 1 ano e meio. ENCAPETADOS. Mas uma coisa eu te digo: NUNCA precisei levantar a mão. Gritei já muito, isso sim, mas agora basta o meu olhar 43 para eles entenderem. Uma maravilha. Não tenho coragem de bater.
E ontem apareceu um caso aqui em Portugal de uma menina que foi espancada pelo pai e pela avó até a morte!

Tento postar há 2 dias sem sucesso, estou com a cabeça borbulhando muito motivada com essa discussão.
Tenho visto coisas de arrepiar até as sobrancelhas, casos de crianças que vão pra psicoterapia (claro que isso por si já é uma amostra quase abençoada do universo). Normalmente, o que se vê nas "palmadas, pancadas e afins" não é educação: é uma descarga emocional do que pode mais contra o que pode menos. A criança SEMPRE pode menos.
É claro, estou com a Julia: os pais são humanos. Têm frio, fome, cansaço, pressa, às vezes estão muito atrasados para o trabalho e a criança NÃO colabora. É humano dar uns gritos nessas horas. O mais importante não é não acontecer nunca, o importante é a REPARAÇÂO. Exatamente o que a Julia faz com as meninas dela, chama pra conversar, pede desculpa, explica que a mamãe tava triste/ muito casada/ com fome. É importante para a acriança saber que os pais têm emoções. Isso dá a ela autorização para expressar as suas próprias. Sou contra a descarga emocional física. Sempre. A violência está sempre à espreita.
Beijo Marcinha!

Esclarecedor, inteligente, imparcial, democrático... essa é a tônica do seu post. Só apelo para que o tema continue em discussão e que vc continue trazendo Little Angels para nós!
Gde beijo, belezoca!

Marcinha,

Pra quem tem TV a Cabo no Brasil, esses programas passam diariamente/semanalmente na Discovery Home & Health.

O da piscicóloga se chama "Anjinhos" e passa todas as sextas-feiras, às 21 horas. O da babá passa diariamente, às 19 horas, e se chama "Pequenos Desafios".

Abraço

oi Márcia, já leio seu blog há um tempinho, resolvi comentar esse post pois concordo com sua opinião. Apesar de ter levado umas palmadas quando criança, acho terrível a idéia de bater, mesmo aquela palmadinha "inofensiva", não tenho filhos e as pessoas que conheço que os tem e batem nos pequenos, dizem que tenho essa opinião por não ter filhos... mas sei que não, muita covardia agredir uma criança, por mais pentelha que seja! Deus queira que eu consiga educar meus filhos livre desta prática!! Beijos

nada como ler blog de baixo pra cima... rs...
comentei lá em baixo, e você já falou aqui.
e falou bem, parabéns, e, como alguém já disse, obrigada por dividir com a gente!
:-)
grande beijo, Marcinha