« May Day, May Day | Main | Tapa de amor não dói desde que não seja na sua bunda »

The Tiny Tearways

De uma hora para outra a TV britânica se inundou de programas sobre disciplina infantil. Existe o Little Angels da BBC, que trata de crianças entre dois ("the terrible two") a cinco anos, que têm problemas graves de birras, violência e desobediência. Existe também o Supernanny do Channel 4, que é uma "babá", na verdade uma terapeuta infantil, que fica na casa da família, aprende a dinâmica e faz as mudanças necessárias para corrigir o mau comportamento das crianças. E mais recentemente a BBC3 lançou o Teens Angels, que também trata de controlar terríveis teenagers indisciplinados.

Agora, a BBC se empolgou e resolveu produzir The House of Tiny Tearways num formato de Big Brother, com famílias que têm crianças difíceis de serem controladas. Num casarão enorme, todo childfriendly (protegido para a criança não se machucar), estão morando três famílias com suas respectivas crias de dois a cinco anos. A psicóloga infantil Tanya Byron (do Little Angels e Teens Angels) é quem ajuda e explica aos pais como ter de volta o controle sobre as crianças que estão firmes e fortes no objetivo de perfurar os tímpanos dos mesmos.

E todos os programas, sem excessão, são muito interessantes. As crianças geralmente apresentam os mesmos problemas: escândalos em supermercados, recusa ao fazer suas refeições, dramas na hora de ir dormir, brigas na hora de trocar de roupa, violência, gritos, mordidas, tapas, cuspes, chutes e palavrões. E o mais impressionante, ao meu ver, é que em todos os programas, absolutamente todos, quem precisa mudar de comportamento são os pais, não os pequenos. E em todos os casos, quando os pais mudam a atitude, os filhos mudam de forma espantosa. Sim, exatamente, a culpa é dos pais, sinto muito. Para os psicólogos, não existe essa coisa de "ah, minha filha é geniosa mesmo, não posso fazer nada". Pode sim. Pode fazer muito.

Uma das primeiras regras que todos os psicólogos que produzem as séries impõem é de nunca, jamais bater em sua criança. A não ser que você queira ter um mini pitbull em casa que vai aprender a bater nos irmãos, nos colegas, na professora e em tudo mais que estiver pela frente. Geralmente os pais que batem (com um tapa na bunda ou espancam até sangrar), querem simplesmente "mostrar quem manda" ou então "mostrar que a criança merece ser punida". Mas no fundo, a grande verdade é que em cada tapa os pais estão dizendo "eu não sei mais o que fazer e estou frustrada e com raiva, então eu bato em você porque você provocou esse sentimento de impotência em mim que eu não suporto admitir". E para a criança agredida, a mensagem é "se tudo mais falhar, parta para a violência física".

A partir dessa primeira regra, o resto é disciplina em si. Quase todas as crianças problemáticas estão gritando a todo pulmão o mesmo: me dê limites, me dê atenção, me dê seu amor. Elas precisam desses três aspectos, em doses iguais. Dê muito limite e pouco amor e elas se revoltam. Dê muita atenção e nenhum limite ("ai filhinho, não fura o olhinho da mamãe não, tá bom..?") e elas se revoltam. Dê limite, dê amor, mas nunca tenha tempo pra brincar e elas se revoltam.

E para dar conta desse delicado equilíbrio, os pais precisam ser determinados em manter suas atitudes sempre coerentes: punir sem violência física ou voz alterada quando o comportamento for inaceitável, elogiar efusivamente quando o comportamento for bom e verbalizar "eu amo você" sempre que seu coração disser.

Para punir sem violência existem um bilhão de recursos em milhares de livros de disciplina, cada família tem que escolher o que melhor funciona para si. Mas e quanto aos outros dois aspectos? Muitos pais dizem "ah ele sabe que eu o amo, não preciso dizer" e não conseguem pôr esse sentimento em palavras. Surprise, surprise mas a criança não, não sabia que os pais a amava e por isso se mostrava tão violenta. Ou então, frente ao bom comportamento, muitos não se dão ao trabalho de elogiar, como se fosse a obrigação mesmo da criança se comportar. "Olha, olha, comi essa cenoura", dizia a menina, cheia de orgulho. "Mmf, termina o resto, anda", foi a resposta que recebeu. Por que diabos eu iria comer outra cenoura??

Há casos mais específicos e crônicos, que levam muito tempo e dedicação dos pais para a criança mudar. Na House of Tiny Tearways existe um menininho de uns dois anos e meio, lindinho, bem comportado mas que morre de medo de comida. Tem pavor, tadinho. Tudo o que ele engole é uma papa de batata batido no liquidificador. Todo tipo de comida que de certa forma molhe seus dedinhos faz ele chorar e balançar os braços apavorado. Nenhum chocolate, iogurte, fruta, verdura, nada. Tudo causa tremores nele. A psicóloga tentou fazer um pic-nic só pra brincar com as comidas, não para comer. Ela enfiava o dedo até o fundo do mousse de chocolate, pintava o rosto com iogurte, amassava banana com os dedos, tudo brincando e rindo. O menino até tentou, deu umas risadinhas, mas bastou um pedacinho grudar no dedo dele e começou a chorar e não ver graça mais em nada. Estou bem curiosa para saber como a história dele vai se desenrolar. Parece que desde pequenininho os pais sempre corriam para limpar a mãozinha dele toda vez que ele se sujava de comida. De certa forma parece que ele agora acha que sujar a mão com comida é algo pavoroso, sujo e errado. Mas a psicóloga acha que há mais por tras disso. Veremos.

Enfim, adoro assistir a esses programas. E acho excelente que o grande público tenha acesso a esse tipo de apoio pedagógico, assistindo a outras famílias que passam pelo mesmo e recebendo conselhos e regras de especialistas. E aprendo bastante também, hohoho. Agora ao invés de oferecer opções de sim ou não como por exemplo "você quer alguma verdura?", eu agora pergunto pro Martin "você quer salada ou verdura com o jantar?" Daí ele pensa e responde: "salada". E eu saio rindo escondida. Depois ele vem atrás dizendo "cê me enganou, eu não queria nenhum dos dois". Hohoho. Útil, muito útil. Daqui a pouco vou instalar o "naughty corner" pra ele sentar e refletir no que fez de errado, me aguardem.

:o)


17 Comentários

oi marcia!!

por acaso vc teria alguma receita de eclair

Querida Marcia,
Estava me distraindo e passeando pelos bloggs da vida qd dei de cara com o titulo do seu e me interessei pelo nome: A vida escrita a mão.Parabéns pelo nome.
Já sou uma senhora de 57 anos, viúva e com 3 filhos adultos e muita experiência na vida. Afinal passar 33 anos de sua vida casada e educar 3 filhos o minimo que você consegue é muita experiência.
O único conselho que posso lhe dar sobre educação de filhos é que os psicólogos também erram muito. Demais até. Que está historia de que se você bater no seu filho uma palmada ele vai se tornar um troglodita é balela.
O principal da educação é o amor, e isso é muito dificil, pq envolve tempo, disposição e conversas.
Muitas conversas.
Nunca dei um tapa num filho meu sem explicar muito bem pq ele estava apanhando, que não tivesse avisado antes que se ele fizesse aquilo ele iria apanhar, ou que se porventura tivesse batido errado (apenas pq estivesse nervosa) eu não me desculpasse.
O pior de uma criação é vc estabelecer regras e não cumpri-las. Se vc disser: filho se vc fizer isso é ruim por causa disso, e se vc insistir em fazer mamãe vai dar uma palmada em vc, e na hora que ele fizer o errado vc apenas dizer: mamãe tá zangada... e não tomar a atitude que prometeu, nunca mais vc vai ter dominio sobre aquela criaturinha.
meus filhos se criaram dentro dos padrões da normalidade. Mas o que me fez orgulhar de ter sido mãe foi que qd eles atingiram a adolescencia, o meu filho mais novo por exemplo veio me "informar" que qd ele tivesse filho só eu cuidaria da criança. Ou como eles se desesperavam qd viam uma criança ou um adolescente se descabelando por nada. Ou de como vi eles crescerem maduros e centrados apesar de todos as palmadas que levaram.
Tudo é muito bonito na teoria, mas eu quero que vc me mostre o filho de um psicólogo ou psiquiatra que não seja mais cheio de traumas do que qq outra criança no mundo.
Seu filho vai ser criado para o mundo, e o mundo não é bonzinho e simpatico como vc. Ele vai encontrar todo segundo alguém que vai lhe dar um chega prá lá ou que vai cobrar seriamente por atitudes erradas. Ele tanto vai ter que se defender como vai ter que aprender a respeitar o limite dos outros.
Explique ao seu filho tudo o que está acontecendo, inclusive os seus defeitos e seus stress e converse com ele de igual para igual, e o ame.
Mãe tb tem o direito de errar e de estar stressada.
E tenha acerteza que no final vc, como mãe, vai ser culpada de tudo, dos erros e dos acertos, pq eles vão lhe cobrar cada atitude durante toda a sua vida. E que os filhos tb tem defeitos. Todos tem: pais , filhos, avós, psicólogos ...e mães.
O que eu sempre disse muito para meus filhos: se não gostam dos meus defeitos arranjem outros para vcs. E a frase que ficou gravada na memoria dos meus filhos foi: filhinho, estude bastante pq vc vai ficar muito rico para poder contratar uma psicóloga para tratar de todos os seus traumas que vc esta reclamando agora....
Desculpe estas palavras que jogam um pouco de água fria no que vc disse ai em cima e este comentario ENORME, mas adorei lhe conhecer.

Bem, Marcinha, como você não se cansa de elogiar o Martin e nem de dizer o quanto o ama, acho que o "naughty corner" só virá completar a trilogia amor, disciplina e reforço positivo, necessária para que ele cresça forte e saudável e bom cidadão!

Sobre o programa, uma pena que ainda existirão muitos pais e mães que vão assistir e vão continuar dizendo: ah, mas com meu filho não adianta!
Eu, mãe de menina, passei a infância dela escutando de quem tinha meninos que "menino é assim mesmo, menina é bem mais fácil" como se a educação dela tivesse sido obra da genética pura e simples. Idem para os amiguinhos que xingavam o porteiro, devia vir escrito nos genes masculinos.

Acho que aqui no Brasil o programa não vingaria, porque as menininhas participantes não iriam poder posar pra Playboy.

Que engraçado vc ter escrito isso, pois aqui ja institui o naughty corner desde o primeiro Supernanny que assisti! O Steve morre de rir, mas cada vez que ele nao se comporta como deveria, eu ameaço mandar ele para o naughty corner! Um minuto no naughty corner para cada ano de idade e brinquedos confiscados se continuar naughty e nao me ajudar a lavar a louça!!!! Disciplina total! ehehehe
O problema eh que ele acha que deve ser reciproco, e tb quer que eu tenha um naughty corner....Direitos iguais, eh o que ele diz....

Pra variar, post FANTÁSTICO!
Fica aqui o pedido: pode continuar postando infos da série? Ficarei ainda MAIS assídua ao seu Blog, sua bunitinha!
gde beijo da Lu!
Ah, a Alice cai sempre no truque "isso ou aquilo"!!!! ahahahahah

Queridoca, agora estou CURIOSÍSSIMA pra saber do resto da história do menininho com medo de comida.... ele deve ter sofrido um trauma horrível (claro, a culpa é sim dos pais) e juntou com a comida... Será que a mãe é bulímica? Ou Anorética? Ou modelo? Aqui na Suécia esses programas também viraram febre. Tem uma versão inglesa, outra americana e uma terceira, mais recente, sueca mesmo. Passou hoje. A mulher, com quatro filhos, não deixava as criancas fazerem nada em casa, resultado: quatro diabinhos. E o pior, não dava nada mais do que mingau pras criancas de mais de seis anos de idade... uma coisa! queria manter as criancas pequenininhas, dependentes, uma coisa! E o problema, como vocë bem disse, é dela, não das pobres das criancas-.--- Beijocas.

Marcia, eu assisto little angels aqui no Brasil! Passa no Discovery Home & Health!

E conta, vai, o resto da história do menino que tem medo de comida!

Ah: meu pai também dizia que se eu tirava nota boa na escola eu tava fazendo a minha obrigação... :(

PS: na minha família o "naughty corner" era a "cadeirinha de pensar": "Sente aí na cadeira e pense no que você fez"

Marcia, esse post foi simplismnte maravilhoso, fantastico!!!
Eu tb acompanho esses programas e tb gosto muito, e posso te dizer q eles me ajudam muito com a criacao da minha pequena Hellen.
Nao me canso de dizer, adoro seu jeito de escrever!
Falando nisso, vc é jornalista ne? Vc nunca pensou em trabalhar como jornalista aqui?
Bjos

Márcia obrigado por compartilhar essas informações conosco!

Marcinha, concordo com você que o problema é os pais, estou cansado de ver esse pessoal não colocar limite nenhum para os filhos e as crianças virarem monstros simplesmente por falta de um mínimo de disciplina.

Agora, concordo com a Sandra também. Não é um tapa na bunda que vai transformar a criança num agressor. Contanto que a coisa seja bem explicada, conforme ela falou. Tem que ter regras definidas e ser consistente... se você faz isso, dificilmente precisa dar as palmadas.

Não tenho filhos, como você sabe, mas ajudei a criar algumas crianças (minha irmã caçula e uns sobrinhos), então aprendi um pouquinho também, principalmente que as crianças gostam e respeitam quem sabe definir os limites e trata elas com respeito.

Eu também sou defensora de um bom tapinha na bunda na hora certa. Que fique claro, é BEM diferente do que um espancamento (que é uma atrocidade, devendo ser encarada como crime). Levei vários tapas na infância, e sou a mais pacifista das criaturas. Eu sempre soube por que estava apanhando, e como disse a Sandra, isso é importante. Considero os tapas na bunda que levei como sendo bastante terapêuticos, haha. Agora tem pais que se descontrolam e batem à toa, por qq coisa e a qq momento. Acho isso triste, sinal de descontrole puro. Acho que há crianças mais difíceis que outras, naturalmente. Mas é claro que a forma com que os pais reagem a isso define o tipo de relação que terão.

Ontem eu vi o Bad Behaviour (conhece esse?) e fiquei APAVORADA. Uma criatura de uns 15 anos dando murros na mãe, quebrando portas e janelas, estarreci-me. :( Beijoca,

Sim, olhando os pais ingleses sei bem que a culpa e deles. Toda vez que eu ia a algum supoermercado ou outro lugar publico quase sempre eu via a mae atras berrando e xingando o rebento. Ora, o exemplo vem de cima, se os pais nao tem paciencia, como podem dar disciplina e amor? E ha muitos problemas de comunicacao. Tinha um outro programa no Channel 4 ontem tambem, nao me lembro o nome, este era sobre adolescentes. Falar e facil, quando chegar a minha hora, veremos...bjs

Marcia, ontem passou o Bad Behaviour, mas era diferente. Era sobre um adolescente que sofre de ADHD e OCD e se recusa a tomar os remédios, além de também não receber nenhuma disciplina adequada. Eu não vi, só assisti ao finalzinho. Você assistiu "Brat Camp"? Esse eu não gostava muito mas não conseguia deixar de assistir, hohoho. E o "That Will Teach Them", lembra? Eu morria de rir, adorava!! Beijos.

Oi Marcia, aqui nos EUA tbem passa o programa da Super Nanny, mas sao com nannies britanicas para familias americanas, o que e mais engracado, pois os pais no comeco tem um super preconceito e acham sempre que a nanny britanica e muito fria e tal, mas no fim eles sempre veem o que estao fazendo errado e tentam mudar.

Minha mae veio passar natal comigo e falou que adoraria se esses programas existissem qdo ela estava criando eu e meu irmao, pois tem bastante coisa boa que eles ensinam ne? Ainda mais para pais de primeira viagem.

Uma coisa que me impressionou tbem e que geralmente nessas familias vc nao tem 1 crianca mal criada e outra boazinha, se o mais velho faz isso, os outros aprendem e fazem igual.

Nos deixe informada do final sobre o menininho de 4 anos, estou curiosa :)

Beijos

Olá Marcinha, me impressiona a sua sensibilidade e capacidade de expressão. Ñ sei se possui o mesmo talento verbal. Vc é uma ótima autora, escreve lindamente bem e cativa à todos tenho absoluta certeza. Vc já pensou em escrever sobre algo q gostasse mto: artigos, crônicas, sobre o dia-a-dia, p/ ex. Vc é uma pessoa mto observadora e inteligente... (segue -->)

lindo post, ri com você rindo satisfeita por ter amorosamente 'enganado' Mr. M., adorei a narrativa (como sempre), e também estou curiosa pelo desfecho da história do menininho!

- ah, também achei bacana o comentário da Sandra. sincero e baseado em experiência, que há de ser respeitada. mas também há que se considerar que as crianças de hoje são diferentes, vêem televisão, e têm acesso a outro tipo de informação. cada época pede um ajuste na forma de educar, acho.

grande beijo!