« Já é quarta?! | Main | Do NOT Trespass »

London United in Grief

Então estivemos em Londres por dois dias para comemorar o aniversário da Mary, como havíamos combinado semanas antes do atentado. Ficamos hospedados justamente em King's Cross, centro de toda confusão e em nenhum momento pensamos em desistir ou cancelar nossos planos.

Visitamos grande parte dos principais pontos turísticos, andamos pelas ruas mais famosas, vimos a maioria dos ícones da cidade, num bom tour que, espero, tenha agradado muito aos dois. Londres dificilmente decepciona. Logo a Mary deve contar por onde andamos e o que fizemos.

Para mim, esta visita à Londres porém, teve um gosto diferente. A cidade continua tão maravilhosa e intensa como sempre foi, mas andando por suas ruas, usando o metrô, olhando para os londrinos, senti um imenso pesar pairando no ar, de uma cicatriz ainda sangrando e derramando lágrimas.

Não senti medo em nenhum momento, não desconfiei de ninguém nos metrôs, não entrei em pânico com nada. Nem mesmo quando ouvimos ao anúncio no metrô: "por medida de segurança, a linha Metropolitan vai ser fechada em ambos sentidos" seguida de "por medida de segurança, a linha Central vai ser fechada". Nem mesmo vendo a rua que ia para a Tavistock Square fechada e evacuada, ainda com velhos respingos de sangue seco nas calçadas.

Senti mesmo só uma grande tristeza pelas vítimas, pelas famílias delas, pelos londrinos que precisam conviver com tudo isso dia após dia e por toda nação.

As inúmeras flores na estação King's Cross fazem tudo parecer muito mais real e dolorido do que acompanhar noticiários. Não foram apenas "52 pessoas mortas", mas foram James, Anne, David, Phil, Adrian, Shahara, Jennifer, Laura, e tantos, tantos outros que eram pais ou mães, que eram filhos e filhas, que eram maridos e esposas, que eram sobretudo, inocentes. Se eu me engasguei vendo as flores, Martin me contou que sentiu o mesmo nó na garganta ao ver os apelos das famílias grudadas nas paredes da estação, desesperadamente à procura dos seus parentes desaparecidos. Pessoas que ainda não foram encontradas e que talvez nunca serão, dependendo de sua proximidade no momento da explosão.

Nos dois minutos de silêncio que foram feitos em todo Reino Unido ao meio-dia da quinta-feira, estávamos na frente do Palácio de Buckinham. E no meio de toda aquela enorme multidão que se aglomera para ver a Troca da Guarda, no meio do tráfego intenso e barulhento com seus taxistas impacientes, no meio disso tudo, o silêncio foi feito. Os policiais tiraram seus chapéus e capacetes, a população baixou a cabeça, os turistas mostraram sua solidariedade, os carros pararam e desligaram os motores. E o silêncio se instalou. Apertei a mão de um inglês que sente muito pelo seu povo, que viu sua terra sofrer similares ataques com o IRA e que agora assiste a mais esta tragédia atingindo aos seus. Durante todo o longo minuto, segurei na mão do Martin e fizemos nosso silêncio.

Estranho mundo, este em que vivemos.


London7-7.jpg



7 Comentários

Oi Marcia!
O teu relato foi lindo. Muitas vezes eu digo: "Morreram só 2 pessoas", mas não lembro que essas duas pessoas tinham família e amigos que se importavam por elas, certo?
Liguei para sua casa e deixei recado. Imaginei que não os encontraria mesmo por aí e desconfiei de uma ida à Londres nos anos da Maria. Vocês ouviram o recado? Imagino que sua secretária seja como da Bridget Jones e acuse quantos recados a aguardam.
Um beijo!

Marcia, já chorei muito no dia do atentado e hoje ao ler teu depoimento novamente as lágrimas voltaram aos meus olhos, muito triste tudo isso, sinto muito pelo povo londrino e pelo resto do mundo também.
Abraços em vocês!

Lindo o teu texto. Me deixou com os olhos cheios de lágrimas. Estive em Londres em Setembro do ano passado e me apaixonei pela cidade e por sua gente. O atentado também doeu muito em mim, moro em Barcelona e quando houve o de Madri o nó na garganta foi inevitável em vários momentos. Um beijo,

Aqui na Irlanda muita gente "esqueceu" de observar os dois minutos de silêncio, inclusive na minha empresa, só se lembraram de fazer isso para segunda-feira. Em alguns lugares, tinha gente até comemorando a tragédia, como no atentado do 9/11 quando mostraram o povo na Palestina comemorando os terroristas. Bando de imbecis ou o quê? Poderia ser um parente deles morto. E sim, Londres não decepciona. Não se deve ter medo. Teno certeza que Mary e Stefan adoraram o passeio.

Emocionante o seu relato. De verdade... :-(

oi marcinha, ha tempos q venho te visitando mas so hoje resolvi deixar um recadinho. Adoro ler os teus posts e vejo q temos muito em comum. Sou do Rio e moro em Londres e tb amo culinaria. Sou casada com um ingles e trabalho na universidade de londres, do ladinho de Russel & Tavistock Sq. por sorte estava pedalando e nao fui afetada. tenho 2 blogs, o aiello.zip.net - em ingles e o ann.zip.net - em portugues. Querida, fique com Deus e tenha uma otima semana. beijocas, Ann

eu de novo... acho q escrevi o e-mmail errado no outro post, o correto e ann_patropi@hotmail.co.uk . beijocas ,ann