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...and She's Dangerous

Este post não tem intenção de ser revival, mas vamlá. Vai ficar enorme.

Duas pessoas em minha vida foram meus grandes influenciadores no que diz respeito ao meu gosto musical. Meus dois irmãos, Júlio e Claudinei. Eles são respectivamente sete e seis anos mais velhos que eu.

Quando eu era uma pequena garotinha de 12 anos que -- god forgive me -- gostava de dançar Não Se Reprima, mesmo quando não estava vestida de colant rosa pós-aula de jazz (que segundo a Clau, era super cool, sub-zero, fazer Jazz na década de 80). Mesmo com essas tendências doentias, me juntava aos meus irmãos pra assistir Som Pop, na Band e FM TV, na Manchete (somos anciões ou o que??) todos-os-dias-sem-falta. E eu assistia tudo de olhão enorme, sem ter a menor idéia do que estavam cantando. E achava graça aquele moço de cabelão cantando "Mamma Mia, Mamma Mia, Mamma Mia let me go..." Hahaha, era engraçado e eu ficava repetindo "Mamma Mia, Mamma Mia" porque era o único trecho que eu sabia cantar. Na verdade acho que até hoje não sei cantar mais que isso em Bohemian Rhapsody.

No meu aniversário de 13 anos, porém, ganhei do Júlio uma fita cassete original. Kiss - I Love it Loud. Eu estava salva para sempre.

Meus pais, queridos que são, perceberam que os filhos eram mesmo fãs de música, seja lá o que andavam ouvindo, e compraram nosso primeiro aparelho estéreo Gradiente. E então abriram-se as portas para uma avalanche de diferentes ruídos em nossa casa.

Júlio começou a comprar álbuns que eu jamais tinha ouvido falar. The Smiths, foram um dos primeiros, se não me engano. Não lembro qual foi exatamente o primeirão que chegou em casa, mas The Queen is Dead foi certamente um dos primeiros. Echo & The Bunnymen não tardou a chegar com seu Songs to Learn and Sing. Jesus & the Mary Chain e sua microfonia inacreditavelmente doce em Just Like Honey. Desses, tivemos toda a coleção completa. Joy Division, U2, Everything But The Girl, The Police, Felt, entraram timidamente pela nossa porta da frente. Todos, se você ainda não notou, britânicos.

E então Claudinei um dia voltou pra casa com um álbum de The Cure - The Head on the Door. Lembro todos nós em casa ouvindo ao álbum quietos, de boca aberta. O que era aquilo? Nos tornamos grandes fãs e marcamos na memória quando fomos os quatro juntos ao show deles em São Paulo, o primeiro show que fui, aliás, ainda aos meus 14 anos. Já sabia as letras de cor e de trás pra frente. Sabia também a tradução, porque já tinha traduzido todas as letras com um dicionário de bolso (tempo abundava na época), que aliás explicam meu atual vocabulário e pronúncia em inglês.

A partir de Head on the Door, meus irmãos começaram a ter gostos distintos de música. Claudinei começou a me apresentar bandas, digamos, um tanto que condizentes ao meu então momento teenager. Em pouco tempo meu repertório preferido consistia em Never Mind the Bollocks (Sex Pistols), Pleasant Dreams (The Ramones), The Story of The Clash e principalmente infinitas doses de Dead Kennedys. Toquei tantas vezes o vinil branco de Fresh Fruit for Rotting Vegetables, que até hoje consigo cantar California Übber Ales. Aos quinze, não era tão fácil decorar tal letra:

"Knock knock at your front door
It’s the suede denim secret police
They have come for your uncool niece
Come quietly to the camp
You’d look nice as a drawstring lamp
Don’t you worry, it’s only a shower
For your clothes here’s a pretty flower
DIE on organic poison gas
Serpent’s egg’s already hatched
You will croak, you little clown
When you mess with President Brown
(...)"

Ahhh lovely little girl I was... Jackie, minha cunhada, que foi punk na hora certa e no lugar certo e fez careta de nojo pra Rainha Elizabeth II quando o pai deles foi condecorado, dá risada e não acredita quando canto Kill the Poor ou quando conto que eu e Claudinei fomos ao show the Toy Dolls.

Mais de vinte anos se passaram desde a época em que eu era ricamente influenciada pelo bom gosto dos meus irmãos, cada um com sua característica. Claudinei seguiu para o lado do punk-surf-rock, depois pro surf-rock, depois pro surf-surf (ele é excelente surfista, se é que não ficou claro) e eu não o acompanhei porque, well, no mar só sei catar conchinha. Júlio continuou por muito tempo a me apresentar bandas interessantíssimas, de Kraftwerk e Nick Cave à REM e Lou Reed. Ainda sinto muitas saudades dos álbuns dele e tento comprá-los em CD agora, mas não tem a mesma graça dos idos tempos das descobertas.

No entanto comecei a andar com minhas próprias pernas, com a vantagem que tinha o conhecimento suficiente para distinguir o que realmente me agradava ou o que era passageiro. Ou o que era total rubbish.

Todo esse discurso enorme surgiu de uma só vez em minha cabeça quando ontem Martin me deu de presente o American Idiot, a ópera de Green Day. Banda que eu gosto desde 1996, época do álbum Dookie. Banda que nenhum dos meus irmãos me apresentou, mas que de uma certa forma me faz lembrar dos dois, seus antigos álbuns, todos os shows assistidos, todas as revistas Bizz lidas em turnos, as noites ouvindo Lado B na 89FM, todos os arcordes que acostumei a gostar.

Na época em que morávamos juntos, meus irmãos eram minha MTV, meus iTunes. Da melhor qualidade. Um legado riquíssimo que carrego, que importa só a mim, que faz sentido só pra mim. Ouvir CDs para mim é como abrir um álbum de fotografias. Bons tempos, boas memórias, velhas histórias e cabelos ridículos.

Enfim, nas décadas que se passaram e eu e meus irmãos tomamos diferentes rumos na vida, muitas novas bandas vieram e passaram, outras ficaram. Mas apesar de ter experimentado novos sons, uma vez ou outra, continuo com o mesmo gosto pungente para o bom rock'n'roll e o expressivo punk-rock. Quem lê esse blog aqui pensa que eu curto música de elevador ou -- god forbid -- pop music, erra tão feio quanto imagina que essa é minha personalidade. Porque boazinha é a puta que pariu.


"She's a rebel
She's a saint
She's the salt of the earth
And she's dangerous..."


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She's a Rebel - Green Day
Segundo Martin, my song.




24 Comentários

Sabe Márcia também ando numa nostalgia total. Imagine você que eu fui naquele show do Menudos no Morumbi... ai como eu sofri nesse dia mas até que valeu a pena... Também curti muito todas as bandas dos anos 80. Inclusive, agora, estou ouvindo Alpha FM pra dar uma relaxada. Em 99 andava numa fase meio down, crise dos 30 e poucos anos, aí me apaixonei pelo Metallica. Uau! Como é bom lembrar os bons tempos, não é?

Este posting é 10!! You rock!

Quantas lembrancas, obrigada por traze-las todas aa tona.

Beijinhos!

Obra prima esse post. É a linda página de uma história que, obviamente, rende excelentes frutos.

Hahahaha Marcinha, adorei esse post :) E ja que voce faz as suas proprias descobertas de vez em quando, compartilha aqui com a gente please. Eu sempre sou a ultima a descobrir qualquer coisa porque odeio radio e nao tenho a menor paciencia de ficar catando musica na internet, entao quando algum amigo e bonzinho o suficiente pra me mostrar o obvio, eu fico felicissima.

Ótimo! Um dos melhores posts que vc já fez.
Eu me vi nele tb. Passei pelas mesmas situações, a única diferença é que eu sou a mais velha e , portanto, eu que apresentava as bandas aos meus irmãos.

Gostei demais da parte em que vc, nitidamente, se olha num espelho imaginário, percebe que tem cara/jeito de boazinha, e que todos devem então achar que vc o é realmente, e manda um " porque boazinha é a puta que pariu" redondo para desmistificar tudo. Autêntica!

Cada vez gosto mais de ler vc, Marcinha. Parabéns!

Oi Marcinha, q post show! Bateu uma nostalgia, lembrei do Rock'n'Rio (sou carioca!!!) q saudade dos tempos q faziam musicas decentes!!! Ah, meus favoritos atuais sao Franz Ferdinand & Zutons, conhece?! Beijocas, Ann

Oi Márcia, venho sempre aqui mas nunca comento, mas este post tá um primor
Beijos

Ei, Marciazinha, que saudade!
Como sempre, delicioso seu blog. Obrigada!
:-)
Beijos querida

Tava lendo o post e à medida que ele avançava, achei que a qualquer momento surgiria uma revelação do tipo: aí vieram os meados dos anos 90 e eu me rendi totalmente à onda pagode/sertaneja que tomou conta do país...
Porque eu, na ocasião, mulher de diretor de rádio brega (popular, segundo ele) que eu era, sabia de cor e salteado todas as letras de todas as bandas do gênero.
Apesar de gostar de várias bandas de rock, em especial as dos anos 80 e 90, gosto mesmo é de dance e black music.
Mas você citou bandas das quais eu nem mesmo me lembrava. E faço a mesma coisa que você quando a Isabela me fala das bandas novas que surgem toda semana: corro pra ver qual é.

Oi! Eu sempre passo por aqui mas comento pouco. Adorei esse post. Bateu uma saudade dos tempos que eu também escutava as bandas que vc citou (se bem que eu ainda escuto várias). E esse cd do Green Day é ótimo! E boazinha é a PQP foi a melhor parte.

Hahahahaha Marcinha, rachei o bico... realmente não achava que você curtia punk-rock.

Eu, pessoalmente, sou chegado num heavy metal... ou, na falta disso, um hard rock dos bem "hard". :-)

Marcia,
eu amo "I love it loud" do Kiss! É a música deles que mais gosto. Até hoje ouço The Cure, Smiths e todas aquelas bandas que fizeram parte da minha adolescência.

Estou lendo isso quase com lágrimas nos olhos. Primeiro, devo parabenizar seu irmão Júlio pelo excelente gosto musical. Tenho a maioria dos discos que ele apresentou para você. Smiths, the Cure, Echo and the Bunnymen, ahhhh...eu também adorava Siouxie and the Banshees, que junto com a Deborah Harry foram as únicas mulheres do rock and roll que eu realmente admirava e queria ser ( Madonna??? You must be joking!!!) Seu irmão ia na Bossa Nova comprar discos? Ou nas Galerias da 24 de Maio?
Tambem ADORO o Green Day, que na minha opinião fizeram o disco do ano, melhor do que U2 e Coldplay.
Agora eu nunquinha conseguiria imaginar você dançando ao som de Menudo! Eu também tenho meus "esqueletos" na minha coleção de discos ( os Bee Gees não me deixam mentir!) Mas NUNCA foi poluída por axé e sertanejo a assim continuará para sempre, amén.
Gosto muito de pop britânico dos anos 80 também -Duran Duran, Depeche Mode etc.
Tenho pena da geração atual brasileira. A Avril Levigne já está passé por aqui. E esse Linkin Park ...what can I say...espero que a música britânica volte a ser popular no Brasil. A safra recente promete.
Nunca gostei do Kiss, esse é o único ponto de divergência. Mas até as revistas e os programas de TV, sim been there, done all, que saudades...bjs

Só para completar, todas as bandas que foram ao Brasil eu vi ao vivo, inclusive esse show do Cure no Ibirapuera e o Jesus and Mary Chain, num show fantástico mas quase estourou meus tímpanos.

Boa! \0/ \0/
Esta semana estava eu no MSN com alguns amigos e começamos a relembrar nossos velhos tempos.
Quase viramos ostras de tantas pérolas que soltamos...E agora vem você me fazer lembrar deliciosamente de um tópico ultra-mega-maxi-über importante: o punk-rock que eu amo e que minha galera (dos anos passados, claro) a-do-ra. Pô, preciso marcar uma reunião num boteco com a turma prá discutirmos essa importante parte.

Agora me diga, na total sinceridade: hoje você dá mais risada ao lembrar-se, que você dançou (assim como eu)o som dos caras? Até me arrepia a emoção

-Sobe em minha moto/ Menudos:
Sobe em minha moto / Se agarra em mim, Que você vai gostar/Sobe em minha moto,/Eu vou te mostrar,/
O que é ser feliz, ser feliz. / Sobe em minha moto, / Sobe em minha moto, /Sobe em minha moto...

O pior não é recordar que eu cantava e dançava isto, mas o pior é lembrar-me deles dançando vestido de colan com papel laminado colado em cima lá no Viva a Noite em cima duma Caloi 10. hahahahaaha era muito tosco!!!

Ou ainda os Tremendos, Trio Los Angeles, Milli & Vanilli ... e a lista é extensa.

Olha a letra desta música que dedico a você (tirei do meu baú, autografádo pelo Robin!!)

Menudos - No Te Reprimas

Canta, baila sin parar/Sube, baja con libertad./
Sueña, ríe como yo./Salta, grita oh, oh./
La terapia, psíquica, más lógica / Para el sistema neuronal./ Entre tantas cosas hechar
un grito fuerte cuando quiero gritar./ Y es muy bueno, saludable, relajante,/ Y a veces artístico/
Por eso baila, salta, grita, oh, oh.../ Ya mi abuela me decía / No reprimas el impulso de gritar./ Y no golpees, no domines, no moderes,/
No sujetes, sienta muy mal./ Y deja que tu mente se relaje/ Por eso baila, salta, grita, oh, oh... / No te reprimas, no te reprimas, no te reprimas. /No te reprimas, no te reprimas, puedes soñar./No te reprimas, no te reprimas, no te reprimas./Canta, baila, sube, baja, sueña, ríe, salta como yo./ Canta, baila sin parar/Sube, baja con libertad./Sueña, ríe como yo./Salta, grita oh, oh./Si eres alto, eres bajo, eres gordo, eres flaco,/Que más da./Y el amor no tiene metro ni tampoco kilogramos para pesar./ Solo tiene sentimiento que no debes nunca,/ Nunca reprimir./ Por eso baila, salta, grita, oh, oh.../ No te reprimas, no te reprimas, no te reprimas./ No te reprimas, no te reprimas, puedes soñar./ No te reprimas, no te reprimas, no te reprimas./ No te reprimas, no te reprimas, puedes soñar./ No te reprimas, no te reprimas, no te reprimas./ No te reprimas, no te reprimas, puedes soñar./ No te reprimas, no te reprimas, no te reprimas./ No te reprimas, no te reprimas, puedes soñar.

Um beijo e continue postando e deixando a gente feliz aqui do outro lado da terra e torcendo cada vez mais por você. Felicidades!!

Então fomos no mesmo show que saudades, moro perto da Capital Campo Limpo Paulista, ia de trem antigamente chamavamos de suburbio, combinamos de todo o pessoal ficar no último vagão do trem, ai em cada estação que o trem parava entrava algum amigo, foi muito bom.

Um dia perdi o último trem e fiquei na estação da luz esperando o primeiro trem, meus pais quase morreram.

Adoro ler seu site

Beijos

Irma

Adorei seu post de hoje!!
Muito legal vc gostar de tudo isso! Tbem adoro rock, punk-rock, Green Day and all! Adoro o Dookie, e tenho desde a epoca q foi lancado tbem!
Dei muita risada, pois muita gente acha q eu tbem sou dessas q gostam de "musica de elevador", e todo mundo assusta quando comeco a contar sobre minhas preferencias musicais.
Muito legal, muito legal mesmo! Somos boazinhas mas somos punk tbem! To vendo q temos outras coisas em comum, alem de gostar de fazer macaroons e comer ganache de colher!
Beijos! E viva o rock! (punk & roll!)
Ana

Ah, esqueci de comentar.. cabelos ridiculos a parte, eu tbem gostava de menudo e "nao se reprima", fui ate no show deles no morumbi... podre, eu sei, mas bons tempos eram aqueles, ne?!
Ana

Oi Marcia...adoreiiii seu site... :) meu noivo é inglês, estou há alguns meses de me mudar definitivamente p Inglaterra...e nooossa vc nem sabe a "ajuda" q esta me dando..especialmente com suas receitas, dicas...to amandoooooo!!!! Me escreve p gente manter contato...vc tem receita de pudding? mas os doces...to fazendo um livro de receitas p mim e quero aprender umas receitinhas inglesas...vc me ajuda?? :) Adorei o Roast beef... :) Vou esperar vc me escrever ta?? beijinhosss
Carol

Ah Marcinha,esse post está The Best;fiquei até com lágrima nos olhos,sério,mas tb rachei o bico porque eu sinceramente nao achava que vc curtia PUNK ROCK!!!
E eu tb dancei muito Menudo "Q D-us me perdoe" e o melhor "meu marido" tb!!!
Um grande beijo;
Carla

Estou babando nas bandas. Tão bom ter vivido nos 80s e curtido essas coisas todas in real time. XD Parabéns pelo seu gosto musical e pelo dos manos - e parabéns a eles pelas boas influências! :)

Adorei o post! Excelente crônica! Vc tem o dom! bjo gde!

Depois de séculos sem vir aqui, venho q leio esse ótimo post!!
gosto demais de quase todas as bandas vc escreveu, apesar deles não terem sido da minha época...

não sei se vc já conhece, mas depois procura algo do Bush (a banda!! hehe) e/ou Institute, a nova banda do vocalsita do Bush, o Gavin Rossdale...
são minhas bandas favoritas....not that it would make any difference, though..hehehe

Bjim