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Strangeways, Here We Come



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Se há algo que mais eleva meus espíritos, sem dúvida é o fato de poder viajar ao lado do Martin. Repartir experiências e trazer para casa mútuas lembranças é encher um álbum imenso de imagens que existem só dentro de nós dois. E mais uma vez temos diante de nós a oportunidade de pisar em outras terras, conhecer pessoas diferentes, com costumes distintos, sob o mesmo céu.

Estamos partindo para uma extensa temporada em Taiwan. Ao contrário do que foi nossa inesquecível e fantástica experiência na África do Sul, desta vez não há animais selvagens, mas há um mundo de grandes novidades a serem exploradas, numa cultura asiática admirável, histórias de guerreiros, templos, dragões, espadas e dim sum.

Já estávamos organizando essa mudança há muito tempo e nesse período aprendi algumas palavras e frases soltas em mandarim e li um bom livro Lonely Planet sobre o país, para aprender um pouco do que será nosso lugar por um bom tempo. E para minha surpresa, a história de Taiwan tem muitas coisas em comum com a história do Brasil.

Para começar, a ilha foi descoberta por portugueses, que a batizaram Ilha Formosa (portugueses não são lá muito chegados a diversificação de nomes, como se percebe). E então os holandeses foram atrás invadir em massa. E os espanhóis também invadiram, mas a malária matou a grande maioria e eles voltaram pra ensolarada Espanha. Daí então os chineses decidiram acabar com a festa européia, entraram em guerra, expulsaram os holandeses e tomaram conta do país. E os taiwaneses, nesta história toda? Taiwaneses eram originariamente vindos de tribos aborígenes, que logo receberam imigrantes de Fuji e desta mistura compuseram o que era considerado os verdadeiros habitantes taiwaneses. Sem tecnologia ou força militar, foram expectadores das invasões contínuas e exploração de suas férteis terras. Após a expulsão dos holandeses, Taiwan viveu sob a dinastia de governantes chineses e em 1949 o partido comunista chinês KMT tomou posse da terra, trazendo censura, repressão e opressão militar, na intenção de criar a política One China. Entre os vários conflitos contra os chineses, mais de 30.000 taiwaneses morreram em luta pela democracia. E somente no ano de 2000 Taiwan finalmente viu seu primeiro presidente do partido democrático tomar posse. Há dois anos, o mesmo presidente, Chen Shuibian, se elegeu a re-eleição e sofreu uma séria tentativa de homicídio que até agora não foi explicada, mas as acusações apontam todas para a China. O presidente, porém, sobreviveu e foi re-eleito. Mas a democracia taiwanesa, tão duramente e tão recentemente conquistada ainda continua extremamente frágil. Os EUA, obedecendo ao comando de George W. Bullshit, anunciaram que vão defender Taiwan a todo custo e em 2001 trouxeram a Taipei um pacote de armamento militar no valor de U$6 bilhões. Com essa atitude, a resposta da China veio em forma de uma lei aprovada que autoriza o uso de toda e qualquer força militar contra Taiwan, sem que isso seja considerado crime, aumentando ainda mais a tensão e o ressentimento entre as duas nações. Thanks a bunch, guys.


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E é esse o cenário político que encontraremos quando pisarmos em Taiwan. Porém, no contraste desses problemas, está um povo que segundo o editor do Lonely Planet, é um dos mais amigáveis de todos os lugares que ele já visitou no mundo. Os taiwaneses se orgulham de serem haokè, ou bons anfitriões, e fazem absolutamente tudo para receber bem visitantes estrangeiros. Nem bem chegamos e esse haokè já chegou até nós, por meio da nossa anfitriã local, Jo. Uma pessoa adorável que vai nos acompanhar durante todo o tempo, servindo de intérprete, guia, pau-pra-toda-obra e companheira. Ela já providenciou um mundo inteiro de organizações para que a nossa chegada seja a melhor possível a Taiwan. Ela vai ser para mim o que a Delia foi na Africa do Sul e eu não vejo a hora de encontrá-la pessoalmente.

E no que diz respeito a minha incessante fome, não podíamos estar melhor: comida farta, fresca e muito barata. Frutas frescas e maduras, que não quebram a conta bancária. Os melhores petistos, já me informei, são vendidos nos mercados de rua, que ficam abertos até muito tarde da noite. Sushi, noodles, dim sum, gyoza, curries e tudo mais que eu conseguir segurar entre meu hashi. E principalmente arroz. Arroz cozido em vapor, arroz grudadinho, fofinho, sem tempero, só o arroz branquinho, igual da minha mãe, que eu tenho tantas saudades (da minha mãe também, claro). Nham. Espero encontrar furikake por lá pra espalhar por cima do meu arroz. E nori picadinho. Nhaaam. Fome.

Enfim, estamos partindo. Sem planos, sem expectativas. Mas com a mente aberta, coração entusiasmado e curiosidade nos olhos. Nossa aventura começa exatamente agora.

Dragões vistos até o momento: 0 (no such luck)