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Thunderstorm

As nuvens cinzas se aglomeram umas sobre as outras, trovões retumbam no ar e relâmpagos sobem e descem a cada minuto. É a primeira tempestade que acontece desde que chegamos a Taiwan. Tempestades são muito comuns aqui, quase diárias. Tão comuns quanto o calor intenso, úmido e constante. Faz mais de uma semana e os dias passam tão rápidos. Bom sinal.

A cada dia uma novidade, algo para se ver, sentir, experimentar, espantar, admirar, rir, comparar, entender, aprender ou simplesmente assistir. Hoje é a tempestade quem veio se apresentar. Sento de frente para a ampla janela do hotel onde Kaohsiung Harbour se estende e se mescla com o Mar Chinês. A tempestade cai lenta e silenciosa, contrariando o barulho e a ameaça que a antecedeu. Daqui de cima, vejo guarda-chuvas de múltiplas cores, predominantes círculos de cores pastéis dançando na chuva.

Vejo também um templo budista de chão verde e paredes vermelhas, com um simbolo que se assemelha a uma swastica amarela no topo de sua torre. Atrás do templo, um imenso outdoor da Honda que ocupa seis andares de um prédio vazio. “New Honda. New Civic. New Story”, é o que diz o anúncio. Mais além, Monkey Mountain se ergue, alta, verde e misteriosa.

A tempestade finalmente ganha força. Adoro tempestades, adoro os relâmpagos e mais ainda os trovões. Gosto da água lavando o ar e as ruas. Gosto da potência, da intermitência, da impiedade. Gosto do drama, do ápice e do epílogo. Gosto do momento, único e inédito, irreversível.

Drama que contrasta com meu espírito, que nunca esteve tão alerta, fascinado, livre, alegre e bem-disposto. Talvez seja a natação diária, talvez seja a alimentação saudável e prazeirosa, talvez sejam os galões de água bebidos, talvez sejam minhas pequenas expedições e mini-desafios numa língua tão difícil de pronunciar, talvez seja a convivência com este povo genuinamente sorridente, agradável e amigável.

Talvez seja simplesmente o fato de que nada mais importa. Talvez seja o fato de que agora, aqui, exatamente neste instante, chove. E nada mais importa.


1 Comentário

Marcinha, conheci o seu blog através de um blog de uma pessoa muito querida, a Luciana Misura, e com muita alegria acompanhei a sua odisséia, adoro o seu jeito de escrever, porém ficava sem jeito de comentar. Fiquei triste quando você disse que iria parar e de repente você sumiu...Entretanto sempre que visito o Colagem, click no seu blog e com muita alegria vi os seus posts atuais. Felicidades.