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Far Far East

Faz calor. 32ºC. Já não estou mais acostumada. E a grande vilã é a umidade. Calor úmido, sensação térmica desconfortável, dez passos e a idéia de ter uma morte por derretimento não é mais absurda. Talvez por isso poucos caminham aqui nesta cidade. É fácil perceber isso pela total inexistências de calçadas livres e desempedidas. Por outro lado, scooters são os pés taiwaneses. Por todos os cantos, por todas as frestas, por todos os mínimos espaços. Scooters se empilham, estacionadas nas calçadas. Scooters carregando até quatro passageiros, geralmente um adulto, três crianças. Ou dois adultos e duas crianças. Já vi uma com um adulto, duas crianças, a maior atrás da mãe, a menor na frente, segurando no guidão. E um cachorro no assoalho da motocicleta. Ninguém parece atento ao perigo, mas principalmente, muitos não têm outra opção. Transporte público é quase inexistente, carros são caros, taxis também. Insano, porém este é um trânsito sem violência, sem agressividade. É uma bagunça generalizada, mas é uma bagunça em que eles se entendem e os estrangeiros se perdem.

Atravessar uma rua é um ato de fé em reencarnação. Semáforo, ao que me parece, é opcional, principalmente para as Scooters e taxis. Fazer contorno em U é permitido a cada vez que um motorista mudar de idéia. Andar na contra-mão é aceitável. Antes eu me sobressaltava a cada passo, mas aos poucos fui aprendendo com os locais a seguir em frente, literalmente. No final das contas, as scooters que não pararam no vermelho acabam desviando, os carros reduzem até que você termine de atravessar, ninguém quer atropelar ninguém. E assim sigo.

Não há muito o que se ver ou fotografar por aqui. Kaohsiung não é turística, ao contrário, é bastante industrial, urbanizada, poluída. Mas tem seus pequenos cantos cheios de charme. Love River é o rio que corta a cidade. Rio que já foi um shit hole tempos atrás, como o Tietê. Mas que hoje está 100% recuperado, com peixes pulando, flores e plantas, e logo vai ser palco para o tão esperado Dragon Boat Race. Suas margens foram modernizadas e é um dos poucos lugares para se caminhar calmamente, por toda sua extensão. É lá que faço minhas caminhadas, lá que sento para ver o rio passar, lá que a noite vamos prestigiar os artistas de rua.

Há também a única área verde remanescente, Monkey Mountain, a grande montanha com trilhas entre a floresta e escadarias que levam até o topo. Lá há templos encrustados na mata, carregados em adornos vermelhos ou amarelos, imagens, Buddah, dragões, incensos, lanternas. Há macacos também, obviamente, mas difíceis de serem vistos.

Não, não há muito o que se ver aqui. No entanto, de alguma forma, por alguma razão, este lugar me encanta e me acolhe. E tenho quase toda a certeza de que a atração principal não está em nenhum guia turístico. Invisível aos olhos e presente em cada um dos nossos dias. Por mais que MacDonalds proliferem por aqui, a essência asiática em Taiwan ainda é muito mais pungente, abrangente, envolvente. A idéia de ser gentil para receber gentileza é prática constante, quase religiosa. A população taiwanesa é mesmo sua principal riqueza. Em geral, simpáticos sem serem falsos, solícitos sem serem grudentos, amigáveis sem fazer esforço.

Ao contrário da maioria britânica e americana que vive aqui e acha que o mundo todo deve entender inglês, sempre que possível, falamos em Mandarim. Obviamente tudo errado e sofrível, mas o suficiente para ganharmos o respeito de quem nos atente. Quando sei de antemão que vou precisar pedir isso ou aquilo, ainda no hotel escrevo os caracteres em chinês num papel (copiando do dicionário) e levo pra loja/lavanderia/farmácia/mercado ou o que for. Primeiro tentamos falar, depois mostramos meus hieróglifos e por último apelamos para a linguagem de sinais, movimentos, desenhos. Mas jamais exigimos que alguém fale em inglês conosco. Estamos na terra deles e se há alguém que precisa se esforçar para se comunicar, somos nós não eles.

E sempre compensa muito mais do que jamais imaginamos. De meros compradores, logo somos presenteados com chá verde, água gelada, balas de menta, sorrisos e vamos embora sob reverências respeitosas que sempre retribuímos com muito respeito também. Outros, vendo as feições ocidentais do Martin, pedem para a gente esperar e saem correndo em busca de algum adolescente que fale inglês para conversar com a gente (quanto mais jovens, melhor a pronúncia e o entendimento em inglês, graças à Hollywood, Internet e MTV). Os adolescentes adoram a chance de praticar inglês e fazem todo tipo de pergunta pro Martin, as meninas sempre perguntam se ele é casado, vejam só. E alguns, simplesmente falam todo o repertório em inglês que sabem, como um senhor que estacionou na nossa frente sua motocicleta com três botijões de gás na traseira, abriu os braços e nos saudou "Hello! Happy Sundaaaay!!!" cheio de sorriso de dentes faltando. Enfim, às vezes uma simples ida no mercado pode trazer acontecimentos pitorescos e inusitados.

Mas nem sempre é assim, claro. Taiwaneses são bastante reservados, jamais se intrometem ou tentam ser inconvenientes. E são muito mais do jamais eu vou poder entender, perceber e descrever aqui. Há babacas, há folgados, há chatos e imbecis também, claro que há. Nenhuma sociedade é só flores e açúcar. Mas por ser um país tão pequeno e ao mesmo tempo tão densamente populoso (o décimo país do mundo com maior índice de densidade populacional), Taiwan têm uma sociedade única, diferente de seus vizinhos chineses, coreanos, japoneses. Nenhum homem aqui consegue ser uma ilha.

Hwáy tó jyèn!
(See you later! Até mais!)

PS: tenho me conectado à Internet raramente e por pouquíssimo tempo (muito cara aqui no hotel, muito o que fazer lá fora).


13 Comentários

Marcia, esta coisa do transito me lembra o Vietnam.E bem assim. A principio enlouqueci.Havia uma orderm. e sem agressividade.Isto foi o que mais me marcou. No Vietnam tambem costumam perguntar a idade de cara, tao engracado.Um grande abraco.

Finalmente algo bom e diferente para ler!!
Você escreve muito bem, parabéns!

Ola Marcinha!
Acompanho seu blog desde o comeco, mas nunca comentei. Agora estou morando perto de vc e me identificando muito mais com os seus posts. Sua aventura esta parecendo muito com "Lost in Translations", estou adorando!!
Felicidades pra vc!
Bjs,
Chrys

Obrigada por dividir com a gente as suas aventuras em Taiwan. Fico aqui só imaginando, viajando no que você conta. Beijos.

Marcinha, estou adorando ler sobre as coisas em Taiwan... tenho até uma pontinha de inveja. Queria muito conhecer e poder morar assim um tempo por lá. Aproveite! :-)

A Asia esta nos meus planos futuros para conhecer, tenho paixao pela cultura japonesa e tbem quero muito conhecer a China. Apesar de dificil, parece que qdo sair dai ja vai estar falando fluentemente he, he!!!

Também estou adorando os seus relatos from Taiwan.
E como eu não sei absolutamente *nada* sobre o país, absolutamente *tudo* q você escreve/ descreve me parece muito interessante.
Scooters, ordem na desordem, Love River, Monkey Mountain, encantamento, acolhimento, magia, etc. Outra, vocês me deram um banho/ uma lição de humildade. E é impressionante mesmo como ela sempre rende mais e melhores frutos do q a arrogância. Ando me trabalhando muito neste aspecto. E, além de conquistar a simpatia e o respeito, de quebra, vocês vão aprender um pouquinho de mandarim. Ainda que pouco, quem aprende (está aberto a aprender) costuma sair no lucro, não? Gostei tanto deste texto que li duas vezes seguidas. :-)
De acordo com o google (eu tinha q dar uma pentelhada, ou não seria eu *hohoho*), Taiwan (Republic of China) é o nono em densidade populacional.
457 bisous!

Oi, Marcia, a alguns anos leio o seu blog, acho que desde que vc mudou pra Inglaterra, praticamente todos os dias eu entrava, as vezes para ler novos textos, as vezes para reler alguns, e as vezes para copiar suas receitas. Eu nunca comentei no seu blog, por pura falta de tempo, e tb por achar que nao era importante pra vc quem lia o seu blog. Mas vc passou bastante tempo sem escrever, e eu estava achando que vc havia desistido do blog, hoje qnd entrei e vi varios posts fiquei tao feliz que resolvi comentar. Espero que vc nunca deixe seus fãs orfãos, pois seu jeito delicado e inteligente de escrever ja faz parte de nossas vidas!
Bjs!

Marcinha,
Tambem leio seu blog ha tempos, desde que eu me mudei para a Inglaterra, um pouco depois de voce.
Seus textos sempre me encantaram, ja vivi sua ansiedade quando teve questoes relacionadas a saude, ja fiz alguma viagens com voce eo Mr.M, agora estou no Taiwan com voce. Seu blog me encanta, especialmente porque me faz viajar em suas palavras e seu jeito simples, direto e encantador de narrar as coisas.
Um grande beijo from UK e quando tiver tempo, olha o link que fiz pro seu blog la no meu. (Se nao aprovar me diz)

Olá Marcinha,
Também sou uma das suas "amigas fantasmas". Queria te dizer que foi muito bom você ter voltado a escrever.
Beijo grande e boa sorte!,
Josi

Que bom! Já posso comentar novamente!
Estou com saudades de você! Como estão as aventuras em Taiwan?
Sei que a internet é cara e que vc tem muito coisa para ver e conhecer por aí, mas quando puder mande notícias.
um beijo

Oi Ma & Martin...
Outro lado do mundo? Meu Deus, minha amiga virou uma andarilha....mas que bom que vc está gostando, que está até resgatando um pouco das raízes orientais....Estou correndo como nunca e acompanhando vcs de longee de tempos em tempos mas torcendo por vcs. Beijos com enormes saudades

Que bem faz ler teu blog! A realidade assim contada tem sabor de aventura como ficcionista nenhum poderia inventar!Eu moro em Itajaí/SC, mas já morei em várias cidades brasileiras, portanto, tomei gosto pelo novo, pela diferença, e é exatamente isso que encontro contigo. Tens mais do que uma fã: tens em mim uma admiradora.
Muita paz e harmonia.