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A Thousand Years in One Hundred Days

Minha lista de iguarias que nunca passarão pela minha boca esta a cada dia ficando menor. Quando chegamos aqui já havia lido no guia Lonely Planet sobre o tal Thousand-year Egg, extensamente popular em Taiwan, que produz um dos melhores do mundo. Achava que era algo bastante raro de se encontrar, mas para minha surpresa qualquer supermercado vende uma caixa com quatro unidades. Até o 7Eleven ("SebenEleben" como eu e Mr.M chamamos, hihi) daqui da esquina vende. Comum, popular e adorado por toda a nação.

Mas o que vem a ser então Thousand-year Egg, você ávido leitor se pergunta, já sabendo que poucas iguarias podem me causar estranhamento e também, com uma certa estranha razão sádica, já torcendo para que eu me meta mesmo nessas comidas arrepiantes. Então lhe explico, caro leitor sádico: Thousand-year Egg ou Century Egg ou Pídàn é nada mais que ovo de pato preservado. Ou conservado. Ou, mais precisamente, fossilizado.

Para prepará-lo a receita é muito simples. Primeiro é feito um chá preto bem forte, no qual se adiciona óxido de cálcio, que é elemento de decomposição da pedra calcária. Em seguida, são acrescentados sal marinho e bastante cinzas de madeira de carvalho até formar uma pasta que se assemelha à argila. Cada ovo de pato cru é então envolvido nesta pasta e coberto por casca de arroz, para não grudar um no outro. Os ovos são então guardados em jarros de barro e cobertos por um tecido. E assim descansam por não menos que 100 dias.

Durante esse tempo, a mistura de sal, cálcio e cinzas aumenta os níveis de pH e sódio e formam componentes naturais bastante alcalinos, que impedem os ovos de serem estragados. Passados os 100 dias, os ovos são curtidos, a clara endurece como se tivesse sido cozida e adquire uma coloração âmbar, transparente e brilhante. Já a gema ganha uma coloração e consistência parecida com petróleo, um caledoscópio de cores preta, verde e azul, conforme a luz. E o gosto (diziam) é bastante pungente, semelhante ao queijo gorgonzola bem maduro, mas com gosto de terra. E não é recomendado simplesmente dar um dentada neste ovo porque (diziam) o sabor está muito concentrado e é (diziam) desagradável.

Pela descrição que havia lido no Lonely Planet, já tinha colocado o Thousand-year Egg na lista dos no-no (e nunca mais faço isso, principalmente porque o autor colocou no guia um fato sobre este prato que é na verdade um grande mito). No entanto, conversando com meus fellows gourmet enthusiasts, muitos deles me encorajaram a ao menos provar, já que é uma iguaria incomum e Taiwan tem os melhores do mundo. Me disseram também que o mesmo ovo servido em Congee (um mingau de arroz, caldo de carne de porco, tofu frito e cebolinha, delicioso!) é muito mais suave e saboroso. Muitos outros se juntaram a nossa conversa e cada um contou de que forma preferem preparar e servir seus ovos cor de âmbar, todos bastante entusiasmados e com boas lembranças do Congee com Thousand-year Egg. Passado algum tempo, fiquei com tudo isso na cabeça e minha curiosidade só cresceu e cresceu.

Nesta semana a Jo veio aqui no apartamento para esperar o Cable Guy vir instalar nossa TV a cabo. E o moço sumiu por três horas e nesse período papeamos sem parar, mostramos fotos pelo Yahoo! Fotos uma para outra, contamos sobre nossas vidas e acabamos fatidicamente conversando sobre comida. Perguntei a ela sobre o Thousand-year Egg e na hora ela ficou super animada de me fazer experimentar, mesmo porque ela já sabe que eu e o Martin somos muito muito receptivos a provar coisas novas (diferente, aliás, de todos os outros britânicos que estão aqui no momento). E ontem a noite ela marcou um jantar como todos nós num restaurante especializado em Dim Sum na China Trust.

Nós nunca tínhamos ido neste lugar e ficamos impressionados. Bem legal, mesas amplas e carrinhos de comida bem quente circulando, tudo preparado na hora e você escolhe o que lhe atrai e a garçonete tira do carrinho e coloca na mesa, sem demora. Jo escolheu todos os pratos para que a gente pudesse experimentar os mais famosos. Mas ela foi bem cuidadosa em escolher os mais "ocidentalizados" pra ninguém ficar sem comer. E logo em seguida ela chamou a garçonete e cochicou algum pedido.

Em pouquissimo tempo, a garçonete voltou com uma tigela quentinha de Congee com Thousand-year Egg e colocou bem na minha frente! Aaaawww, não é um doce essa Jo? Parei imediatamente o que estava comendo (hard task) e me concentrei no tal congee. O ovo estava perfeito, clara cor de coca-cola em consistência de gelatina dura, gema brilhante e escura, tudo cortado em cubinhos e misturado na brancura límpida do mingau de arroz. Peguei uma porção do Congee e um pedaço grande de ovo. Tentei sentir o aroma do ovo, mas o cheiro do Congee estava mais forte. E experimentei. Jo esperava ansiosa pela minha reação. E realmente eu me surpreendi:

"But it tastes like egg!!" eu exclamei, porque a textura e o gosto não eram muito diferente de um ovo, simplesmente. Comi bastante do congee, que estava divino, e testei e testei e continuei achando que o Thousand-year Egg tinha gosto de ovo.

E Jo fez uma expressão de quem diz "Óbvio, duh".

Daí perguntei a ela onde estavam o cheiro pungente de terra, sabor amônia-gorgonzola, que tanto li a respeito. E ela me explicou que Thousand-year Egg cozido em congee perde quase todo o cheiro forte e retém o sabor fresco do ovo e é essa a intenção de se preservar o mesmo. Já muitos gostam do sabor e aroma forte e a melhor maneira de prová-lo assim, disse Jo, é em forma de salada de tofu. Ovo e tofu cortados em cubos, regados com shoyu e depois polvilhado com cebolinha verde. Mas ela me recomendou a experimentar o congee primeiro, se eu gostasse, tentar a salada numa outra vez.

Well, bring it on then, i'm ready! Pra falar a verdade, adorei. Foi uma excelente oportunidade para experimentar, com a Jo ali para dar seu selo de autenticidade, e aproveitei bastante minha chance. Perdi meu receio a respeito do ovo de pato preservado e quero provar novamente.

O que mais me fascina a respeito do Thousand-year Egg é a inteligência deste povo asiático de aprender a conservar um alimento. Há muito tempo atrás, numa época sem eletricidade, conservar comida era uma opção entre viver ou morrer nas épocas de escassez. Estudos e testes sobre níveis pH, bactérias e condições ambientais nessa mesma época eram tarefas difíceis, se não quase inimagináveis. Mesmo assim este povo aprendeu a ler o que acontecia ao seu redor, aprendeu a driblar a reação química, aprendeu a sobreviver. Não me espanta que taiwaneses sejam tão orgulhosos de sua produção de Thousand-year Egg, é mesmo admirável, de uma cultura muito mais antiga e milenar que a nossa e espero que muitas gerações continuem a produzí-los e a saboreá-los com o mesmo gosto.

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8 Comentários

Jisuis amado, mas o aspecto desse negócio me arrepiou..hehehehhe

Eu já tinho visto na TV esse tal ovo e a sensação que passou foi a esperada, argh!!!,mas depois de ler teu depoimento eu provaria, continue provando estas iguarias e nos contanto.
Beijos e bom findi!

Marcinha, pela sua descricao eu ja tinha achado que devia ter uma cara pessima, mas nem a minha imaginacao chegou perto do que essa foto mostra, AAAARRGHHHH. Eu adoro ovo de todo o jeito, mas mesmo assim nao sei se conseguiria ignorar o aspecto desse ovo nao. Pelo que voce falou do gosto deve ser ate bom, mas eu acho que teria que comer de olhos vendados...

Marcinha,admiro muito a sua coragem,eu fui lendo e me arrepiando,um porque eu nao como ovos,e e sou assim um pouco digamos,arredia à novidades gastronomicas,essa foto, é de arrepiar,nem em pesadelo eu imaginaria algo assim!!!
Hehehe,continue provando tudo e nos contado,adoro ler.

Beijocas,

oi marcinha, desde fevereiro nao lia teu site. jamais pare de nos informar. teu jeito de escrever e fantastico. moro em balneario camboriu, sta catarina e gosto muito de ler teu site. fantastica tua descricao do ovo centenario. falando serio, desejo que dentro do possivel e de tua generosidade, voce ensine a receita pois sou gastronomo e desejo fazer aqui no brazil. teus macaroons ja formam minhas receitas que comercialmente vou explorar, citando tua nobre contribuicao. abraco a voce e ao martin. que Deus os abencoe e tenham muito sucesso nos teus empreendimentos.

menina, você devia escrever um livro!

Puxa, Marcia, adorei sua descricao (riquissima, por sinal) da sua primeira experiencia com o "Thousand-year Egg". Moro aqui em Xangai e ja havia visto milhares de vezes o tal ovo, mas, confesso, nunca tive vontade (nem coragem) de experimentar. E tambem nao fazia ideia de como era produzido, imagine ! Quem sabe me aparece uma oportunidade?
Beijos !
Simone

Marcia, você escreve muito bem e nos envolve de forma que só ficamos felizes ao ler até o final e já esperando o próximo, característica igualzinha a Luciana Misura, outra envolvente escritora, porém isso não me impediu de sentir arrepios e pensar: ela não teve coragem de comer, porém você teve e gostou... menina, nem durante a descrição e após a foto senti vontade de experimentar. Dez para você.