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Indiana Jones and The Temple of Doom -ish Banquet

Eu nem sei por onde começar.
Eu nem bem queria escrever nada para evitar pedras e longas lições de moral e veganismo e isso e aquilo. Porque poucos entendem que estamos em outra cultura, outro mundo. Mas não há como não registrar aqui uma experiência única que vivemos, gastronomicamente falando. Para minha família, pros meus amigos queridos e pra aqueles que entendem.

Então. Fomos convidados a um banquete. Sabíamos que aconteceria cedo ou tarde. Se comer é um prazer para os taiwaneses, um banquete é a manifestação mais pura desse deleite. É com um banquete que eles selam acordos de amizade, negociações de paz, contratos de negócios. E como todo banquete, há regras de etiqueta. E em Taiwan essas regras se estendem em vários sentidos, que não involvem usar talheres corretos, mas sim mostrar gratidão, generosidade, polidez.

O anfitrião geralmente oferece 10 ou mais pratos em seqüência para os convidados. A idéia é servir muito mais comida do que todos nós podemos comer. É o gesto de generosidade dele. Da parte dos convidados é esperado que se prove ao menos um minúsculo pedaço de tudo o que é servido. É o seu gesto de gratidão. É possivel, claro, recusar. Mas recusar às vezes é mais complicado do que engolir um mísero pedaço de seja lá o que for oferecido. Porque ao recusar, logo o anfitrião pede sinceras desculpas por ter escolhido um prato que lhe desagrada, pergunta se você prefere que o chef lhe traga algo diferente, do jeito que você gosta. Isso tudo na frente de todos os outros convidados do banquete, enquanto o evento pára. Em outras palavras, chega sim a ser uma ofensa não aceitar o que é considerado pelo anfitrião tudo o de melhor e mais caro que ele pôde lhe oferecer. Tenham tudo isso em mente quando estiver lendo o restante deste post.

No banquete que fomos estávamos em 13 pessoas: seis britânicos, seis taiwaneses e uma brasileira-nipo-britânica perdida. Os anfitriões eram CEOs da empresa fornecedora de equipamentos para o projeto em que a equipe do Martin está trabalhando. O restaurante era especializado em frutos do mar e ainda mais especializado em banquetes privados. A mesa era redonda, imensa, com outra mesa giratória no centro. Quando todos estavam sentados e com seus copos cheios de cerveja, pratinho cheio de shoyu, hashis, prato, tigela e guardanapos a postos, o banquete começou.

Primeiro, obviamente, um brinde de boas vindas a todos os presentes. E com um sinal o anfitrião pediu que fosse servido o primeiro prato, que geralmente é frio e esperávamos alguma salada, umas porções de suhi ou algo parecido. Mas o que foi servido marcou o resto da nossa noite, senão das nossas vidas.

Uma escultura de gelo, que tinha o formato e detalhes de um navio pesqueiro. Orquídeas frescas decoravam a borda. Dentro, a maior lagosta jamais vista por meus olhos. Uma única lagosta enorme o suficiente para servir uma mesa de treze adultos. A lagosta fora disposta como se estivesse deitada de barriga pra baixo dentro do navio, cabeça na proa olhando pro infinito, rabo na popa, pernas pra fora do navio. Finas fatias de sashimi da lagosta no meio, no que antes fora a calda da mesma. Esse era o prato.

Com um mero detalhe: a lagosta, que há poucos minutos havia sido fatiada em sashimi, ainda estava viva. Sua carne branca transparente, em tiras, estava disposta em suas costas. Suas garras, olhos, braços e pernas ainda mexiam, contorciam, clicavam, sem sair da pose dentro do barco. O prato, a escultura, a lagosta semi-viva, rodava na mesa giratória, nossos olhos arregalados, os queixos caídos. O silêncio desconfortável, durou muitos segundos. Finalmente o anfitrião explicou que era sua forma de nos oferecer algo fresco, o mais fresco possível, a melhor qualidade do melhor crustáceo que jamais poderiamos ter. "Please do try it", nos encorajou. A lagosta deu mais uma volta completa na mesa sem que ninguém tivesse coragem de tocá-la. É esperado que os convidados sejam sempre os primeiros a se servirem e todos os outros taiwaneses esperavam pela vez deles. Mike finalmente pegou um pequeno pedaço. "Please Martin, Marcia, try it", ouvimos. Eu segurei meu hashi e falei em pensamento pra lagosta: "você morreu por nós e nos deu sua carne; para que você não morra em vão, eu aceito, obrigada". Peguei minha fatia, molhei no pratinho com shoyu e comi. Martin fez o mesmo. E todo mundo seguiu. E ninguém conseguia falar nenhuma palavra, o que era um tormento porque podíamos ouvir a lagosta fazer clic, clic, clic com as patas. Logo o clic-clic parou e eu quis chorar. Como somos hipócritas. Nem bem senti o gosto do sashimi, o sabor é muito leve e pouco distinto, nada que justificasse tal espetáculo circense.

Não durou muito tempo, logo a garçonete retirou a agonizante criatura e trouxe um prato cheio de sashimis de salmão, dourado e atum, esses todos bem mortos, para nossa conveniência. Outros pratos seguiram: bifum, que estava uma delícia; pepino amargo em molho de gergelim, broto de bambu cozido; sopa de ostras, divina; peixe grelhado e peixe no vapor; lula marinada em thai basil e chilli peper, muito saborosa; manjubas fritas; camarões fritos; costelas de porco assadas e mais um monte de outros pratos que não me lembro. E como em toda refeição taiwanesa, logo chegou em nossa mesa, sobre o fogareiro, outra sopa, mais leve, para ajudar a digestão. E quem é que não retornou à mesa se não nossa conhecida lagosta? Sim, agora dentro da sopa e eu dei risada porque já não sabia mais o que fazer ou pensar nessa altura.

E como todo bom banquete asiático, tudo terminou em karaokê, mas não foi tão divertido quanto o primeiro que fomos porque não pudemos ser bestas e ridículos na frente dos anfitriões. Mesmo assim Martin levantou e saiu correndo para pegar o microfone e cantar Yesterday (Paul MacCartney) e Hello (Lionel Ritche). Eu quase que não reconheço esse moço que canta em karaokê com essa empolgação toda. Os taiwaneses cantaram várias em chinês, depois alguns deles (uns velhinhos bem gracinhas, uns amores), cantaram em inglês com a gente. Foi divertido.

Durante todo o jantar, são feitos pequenos brindes individuais, que eles chamam de "ganbei". Qualquer um pode erguer um brinde a qualquer outro e ambos devem secar o copo de uma vez. O copo era bem pequeno, então era fácil. E os "ganbei" acontecem a todo instante, tem sempre alguém erguendo um brinde, várias vezes e aí sim não se deve recusar. Mas todos os brindes a mim não precisavam ser esvaziados, porque eu não bebo (muito). Aliás todo mundo me chamava de Lady, porque ninguém consegue pronunciar meu nome aqui. Então eu era Lady, posh or what?

Logo o "ganbei" passou a ser brincadeira e os taiwaneses caíram na bobeira de tentar deixar os britânicos bêbados. Hohohohohohohoho... eles não caíram do cavalo? Depois de vários "ganbei" eles perceberam que nenhum dos britânicos estavam minimamente abalados e pararam. Mas aí os britânicos é que começaram a levantar os "ganbei" e os taiwaneses não tinham como recusar e saíram de lá pra lá de Peru (Baghdá é perto).

No final do jantar, relembrando, tivemos uma ótima noite, conversa animada, boa comida, experiências únicas que jamais teríamos se não tivéssemos sido convidados. Ficamos chocados com o incidente da lagosta, mas hey, vamos ter do falar por muitos anos pela frente. Pelo menos não foi algo extremamente repugnante como o banquete em Indiana Jones e o Templo da Perdição (que não é totalmente ficção, os pratos que aparecem no filme são iguarias em vários países deste canto), mas chegamos perto e não queremos ir mais além que isso.Acho que ainda teremos outros jantares assim para atender até o final do projeto. Sabe-se lá o que vem pela frente. Não reclamo, jamais reclamo, na verdade me sinto privilegiada de ver e vivenciar tudo isso. O mundo é realmente um lugar estranho.


21 Comentários

Marcia, que demais esse seu post ! Seu blog é uma delícia de ler e acompanhar. Tudo de bom a vocês !

Minha nossa, eu nem saberia como reagir diante de um fato desses, o mundo e as pessoas são estranhas mesmo, viva a diversidade.

Teu poder de nos transportar aos ambientes, sentir cheiros e sabores, ver o mundo sem pré-conceitos, são realmente um presente aos teus leitores fiéis, entre os quais me enquadro. Por favor, segue adiante. Conta mais, conta mais!
Boa sorte e muito obrigada por compartilhar.

Marcinha, (já me sentindo íntima!)
Seu blog é maravilhoso! o acompanho há algum tempo e sempre me deleito com seus textos engraçados, interessantes e cheios de autenticidade! Parabéns!
Desejo tudo de bom para vcs nessa nova etapa! e que etapa!

ps: ja tinha te escrito antes. Moro em barcelona e, nao me lembro bem, mas venho te acompanhando há agun tempo. E, como é engraçado isso de blog, mas eu me sinto "amiga" das pessoas que leio, mesmo sem conhecer. Sinto uma sintonia, acho que deve saber o que digo. Já fiz grandes amigos nesse mundo blogueiro!

Grande beijo e boa sorte
Mayra Lemos

Quando eu li o título e o começo do post, juro que pense que vocês seriam obrigados a comer os macaquinhos, hahaha. Mas so a lagosta já tá de bom tamanho, né?

sabe o que mais me encanta, marcinha? a sua capacidade de encarar uma possível roubada com leveza. outra pessoa faria um drama ou um discurso. você abraça o mundo novo que está conhecendo e se dispõe a ser feliz nele. benza Deus! :)

Ainda bem que não estão na Korea, né? Lá eles comem carne de cachorro... :o(
Acho que choraria se tivesse que comer a lagosta viva. Já me sinto mal naqueles restaurantes onde o cliente escolhe a bichinha viva no aquário para ir diretor pra panela.
Mas é isso aí, noblesse oblige e você como sempre saiu-se muito bem.
um beijo

Marcinha, realmente deve ter sido um choque, mas eu acho que voces reagiram muitissimo bem. Antes de eu viajar pro Japao ja tinham me falado desse sashimi de lagosta viva, mas acabei nao vendo nenhum por la. Estou adorando todos os posts sobre o Taiwan, esta sendo uma delicia ver essa cultura tao diferente pelos olhos sensiveis do casal M&M :-)
Beijos,

Marcinha , adorei sua narrativa, quando tento visualizar a sena da lagosta eu mesmo não me controlo rsrsrsrsrsrs vc é otima em contar suas esperiências.
Minha familia já conhece vc só dos meus comentários.
Estou ansiosa aguardando mais um conto dessa aventura maravilhosa, para poder viajar com vc e o Martin.

Bjs

Silene

Adorei o post!
Já tinha ouvido contar da lagosta viva no Japão. Mas quem me contou não teve coragem de comer.
Mas é isso mesmo. O mundo é um lugar estranho e muito muito muito interessante.
Obrigada por manter seu blog sempre atualizado. Gosto muito de saber de vcs, torço por vcs.
Um grande beijo pros dois, Luciana

Que delícia ler um post contando tanta coisa interessante, outras quase bizarras desta cultura. Parabéns pela postura educada e respeituosa frente a estas experiencias.

E' sensacional como descreve suas experiências,
Obrigada por compartilhar conosco.
Gostaria de me corresponder com você é possível?
independente da resposta
Boa sorte sempre!

Marcia:
Que adoravel sua maneira de nos contar suas experiencias!!! realmente senti"até"o aroma das comidinhas, sentimo-nos transportados para o cenario; muito gostoso.
Profunda sabedoria e amadurescimento seu olhar curioso, atento e livre de preconceitos onde o interesse pelo ser humano prevalesce, desimpedido e solto.

Eu nem sei o que faria no seu lugar... vocês se saíram bem, mas eu acho que não comeria. Bom, eu não comeria um montão de coisas de qualquer forma, sendo vegetariano. Ia pagar o maior mico. Não ia mais ser convidado para banquete nenhum... :-|

Oriental tem essas coisas, né? Em certos aspectos, não estão nem aí com os animais ou o meio-ambiente. Vide o caso da pesca das baleias. Eu adoro as culturas orientais, como você provavelmente sabe, mas esse ponto realmente não me agrada.

Márcia, você, como sempre, uma dama com olhos, ouvidos e coração abertos para o que acontece ao seu redor. Parabéns, mais uma vez, pela vivência e pelos posts. Abraços de Barcelona,

Marcia,

Teus textos sao otimos, voce escreve muito bem. E teu humor sutil tambem "Baghdad e perto" foi otima!

Eu adoro voltar la no comeco - desde quando voce saiu do Brasil - e ler tudo de novo. Eu tambem moro na Inglaterra e namoro um britanico, entao volta e meia me pego tendo as mesmas reacoes que voce em algumas situacoes.

Nao tenho a minima ideia de quando voce vai dar uma passada por aqui de novo, mas Dorset e perto daqui (moro em Gloucestershire). Quem sabe a gente se encontrar pra tomar uma "real ale" um dia, ne?

Um beijao, que bom que voce voltou!

Marcinha queridoca

Tava já com água salgada querendo sair dozóio. Então li a frase seguinte, sua mensagem em silêncio para a Lagosta. Garçon, champagne. A verdadeira elegância se manifesta no coração!

Beijo lindoca! Volte mais vezes, faz de conta que o blog é seu! :-)

Marcinha
Seu log é maravilhoso.
Foi demais esse banquete. Vc escreve divinamente.
Um grande beijo

Marcia,

fiquei aqui igualmente sensibilizada com a questão da lagosta. Não conseguiria mesmo comer.

Eu AMO "Hello" do Lionel Ritchie! :)

Nossa, esotu chocada. Mais ainda com a sua humildade, você existe mesmo? Não posso mentir, fiquei admirada! Parabéns pela sua postura de não reclamar!

Marcia: você não me conhece, vim parar aqui através dos links da Chrys Mincov. Mas precisei comentar o post da lagosta. Você é uma grande escritora, a sua descrição faz a gente estar lá, e eu chorei... Acho que não teria tido a sua classe, acho que teria chorado e deixado todos desconfortáveis. Não sou vegetariana, mas ver a bichinha agonizando acabaria comigo. Eu chorei uma vez vendo na TV, acho que foi por ocasião de uma Copa do Mundo (na Coréia?). Meu marido teve que mudar de canal, pois eu comecei a chorar copiosamente.

Seu blog é muito legal, vou adicionar à minha lista de favoritos.