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Wor gwài-èr ler!*

Eu sei que estou devendo um post ou uns doze posts sobre a culinária taiwanesa. Pensei em várias coisinhas diferentes, mas nada que me inspirasse a escrever. Decidi então ir com calma, escrever um pouquinho por vez, mesmo porque é difícil classificar em um só post que a comida de Taiwan é assim ou assado, preto no branco, porque cada região têm seus pratos típicos, suas influências externas, seus costumes de preparar. As minhas impressões descritas aqui, retalhadas e picadas e sob a ótica de uma estrangeira perdida, serão portanto apenas um pálido reflexo (talvez errôneo) da culinária daqui de Kaohsiung City e não de todo o país, mesmo que eu inicie um parágrafo dizendo "Aqui em Taiwan...".

Pois bem. Aqui em Taiwan, comer é um hobby. Dos mais populares e abrangentes. Ande pelas ruas estreitas e no mesmo segundo você entende. Qualquer rua, por minúscula e sem saída que seja, tem pelo menos uma banca de comida. Quanto maior a rua, mais bancas de comida, mais restaurantes, mais feiras. E nos horários das refeições, as ruas fervem. Um misto de Five Spices, peixe, frango frito, alho, shoyu e óleo de gergelim perfumam o ar. Impossível não sentir fome quando o burburinho começa. Woks superquentes sobre o fogareiro de chama única, caldeirões com caldos diversos fervendo, patos defumados pendurados pela cabeça, um mundo de pequenos espetáculos de mãos habilidosas preparando noodles, panquecas de arrroz, gyozas, espetinhos, tudo ali na sua frente.

A grande maioria da população parece preferir comer fora de casa, o que deve explicar o tamanho mínimo da cozinha e a falta de um precioso forno. Na verdade, é muito mais barato comprar alguns dos pratos típicos nas bancas de rua do que preparar em casa. Mas o fato é que comer é um acontecimento social em Taiwan. Os melhores restaurantes sãos os mais barulhentos. Gente conversando animada é sinal de boa comida sendo servida. "Siga o barulho", é a dica que sempre recebemos. E aqui encontramos uma grande diferença.

Em países ocidentais, ser levado a um bom restaurante significa ser levado num lugar bem decorado, com atendimento rápido e discreto, culinária criativa, três ou quatro pratos, vinhos de boa safra, vários talheres, porcelana branca, guardanapo de linho. Em Taiwan, como na maioria dos países asiáticos, ser levado ao um bom restaurante significa muitas vezes ser levado a um fundo de quintal ou a uma porta de garagem com mesas de fórmica, cadeiras dobráveis, calendários de cinco anos atrás nas paredes, mas que serve o melhor prato da região. Porque para os ocidentais, é importante ver o valor do dinheiro gasto, sentir que a conta pagou pelo ambiente, pelo serviço, pela atmosfera. Já para os asiáticos bons restaurantes ganham reputação pela qualidade da comida, única e tão somente, não importa se a decoração é pós-moderna ou decadente.

Não quer dizer que Taiwan não tenha restaurantes bacanas, existem inúmeros, em cada esquina. Também não quero dizer que exista nada de errado com a forma que apreciamos um bom restaurante no Ocidente. Por mim, se Gordon Ramsay fosse um homem pobre e tivesse uma banquinha na rua ao invés do restaurante no Claridge's, eu estaria almoçando lá todos os dias. Mas como ele não é, ainda sonho em um dia juntar minhas moedas e ir gastar todas elas num jantar com tudo que tiver direito e deixá-lo ainda mais rico.

Enfim, o importante de tudo isso é perceber que comer bem aqui em Taiwan não é um privilégio, mas é preciso ter a mente aberta, entender que uma refeição aqui está desassociada ao status. E ter também um pouco de coragem para experimentar o novo, fechar os olhos para certas condições higiênicas, mais ou menos como quando compramos os "churrasquinhos de gato" em São Paulo, como bem me lembrou o Mauro.

A Jo nos sugeriu duas bancas de ruas famosíssimas em Kaohsiung para experimentarmos. E armados com o dicionário fomos imediatamente. A primeira, foi para apreciar o prato mais popular de Taiwan, niúròu mián, que são noodles grossos do tipo udon, com caldo de shoyu, bastante verduras e carne assada no vapor. Abolutamente simples e delicioso, tudo bem preparado e temperado suavemente, a carne simplesmente desmancha na boca. A segunda banca foi a favorita, de Beijing káo-yá, ou Peking Duck, como é chamado na Inglaterra, que são fatias de pato marinado em especiarias, assado e defumado, depois fatiado finamente e servido dentro de panquecas, com molho de ameixa e pepino em tiras. O moço fatia o pato na sua frente, com uma machete capaz de cortar uma rocha, coloca tudo num prato descartável, embala, ainda corta todos os ossos do pato, joga numa wok, adiciona um caldo maravilhoso e muitos ramos de thai basil, despeja tudo num saco plástico e lhe entrega. Depois de comer as panquecas, a melhor parte é ficar pescando os ossos com alguma carne e comer com as mãos, saboreando o caldo fantástico que impregnou os pedacinhos. Indigno, eu sei, mas absolutamente delicioso. Essa banca de patos é muito famosa, bem barata e forma uma fila imensa e fecha antes das oito da noite porque acaba todo o estoque. E isso acontece todos os dias da semana, sempre lotados, sempre vendendo tudo. Espero que eles nunca entrem em contato com Gordon Ramsay.

Essas duas bancas nos marcaram por serem as primeiras que tentamos e viramos fregueses. Já faz tanto tempo desde que as visitamos nas primeiras semanas que chegamos aqui. Hoje tanta comida diferente já passou pelas nossas bocas, principalmente porque moramos muito tempo no hotel e nossa única opção era comer fora. Mas sinto que ainda há um mundo inteiro de comidas me esperando, muito além de tudo o que já provamos. Só de visitar o mercado de comidas eu vejo o quanto ainda não experimentei e o quanto ainda não faço idéia se é doce ou salgado, pra comer ou pra lavar roupa.

Logo conto sobre o Lado B da culinária taiwanesa, aquelas comidas de arrepiar e se indignar, que jamais passarão minha goela abaixo, God willing. Não temos fotos de quase nada porque nossa câmera ficou muito tempo no conserto, vou ver se logo saio para um tour fotográfico pelo mercado de rua. Cheers!


*Estou morrendo de fome!


5 Comentários

Mais, mais! Conta mais! Dá uma pena qdo acabo de ler seus posts, dá a sensação de quero mais. Como um livro que vc não quer que acabe. Transforme essas experiências em livro, Marcinha. Tipo: Volume I, Volume II - a saga continua..., e assim por diante. Serei uma leitora devoradora, mais do que já fui com o Stephan King.
Bjs

Adorei ler esse post Marcia!
Exatamente como ja vi na TV e imagino as ruas de Tawian, cheia de bancas de comidas, patos pendurados e woks fumegantes.
Deve ser uma aventura e tanto experimentar as comidas por ai!
Nao vejo a hora de ver fotos e tbem de ler os proximos posts contando sobre o "lado B" da coisa, como voce mencionou! hehe!
Beijos!
Ana

Ebaaaaaaaaaa!!!
Que legal Márcia, que vc está dividindo suas experiencias conosco! Os cyber bisbilhoteiros! Brincadeira. Eu acompanho seu blog a algum tempo
e senti saudades da sua escrita.
Parece ser uma experiencia absolutamente alucinante esta sua de Taiwan! Eu tenho certeza que vc nao se lembra de mim. Quase nunca comentei pq sou tímida e nunca sei se a intecao era que estranhos lessem ou somente a familia. Comecei a ler seu blog pq vim morar na Europa com um estranjeiro e ler blogs de pessoas que tiveram esta experiencia me ajudou muito. Entrei no seu link pela Maria Fabiani. Parabéns pelo sucesso! Vc se adaptou muito bem e encontrou a felicidade! Eu ainda estou dandos uns tocos, mas chego lá! Um abraco, paola.

Oi Márcia, sempre uma viagem ler tuas historias/estorias. Teu estilo envolve..e fascina. Esta coisa da comida desta forma é tao asiática,nao?!? Nao conheço Taiwan mas Tailandia e Vietnam. No Vietnam era sempre uma grande surpresa ao virar uma esquina. Happy meals to you both!!

"...se é doce ou salgado, prá comer ou prá lavar roupa" - Você como sempre descrevendo as suas aventuras com um toque doce de bom humor!!! Parabéns, e curta muito essa etapa em Taiwan. Abraços de Barcelona.