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Banquet II - The Saga Continues

Fomos convidados a mais um banquete no sábado passado. Eu sei. Eu sei, eu posso lhe ver, sádico leitor, já se ajeitando melhor na cadeira para saber no que foi que eu me meti desta vez. Mas já adianto que nada mais será mais chocante do que a lagosta servida viva do banquete passado.

Mas vamos começar com os fatos: geralmente somos convidados pelos fornecedores de equipamentos pro projeto em que Mr.M está trabalhando. É um jantar formal, de socialização, as esposas são convidadas e tal. A principal razão de toda pompa é agradecer aos funcionários da empresa de Mr.M por terem escolhido os mesmos como fornecedores e também formar laços para que em subseqüentes projetos eles sejam escolhidos novamente. Em outras palavras, eles querem é puxar nossos digníssimos sacos mesmo. O anfitrião era um moço de 26 anos e com ele vieram o chefão dele e a esposa, mais dois funcionários e duas amigas do moço anfitrião.

Ao contrário do outro banquete que foi mais íntimo, em sala VIP e uma única mesa enorme, este foi no saguão do restaurante mesmo e nos dividimos a princípio em duas mesas. O chefão logo fechou a cara e começou a reclamar com o anfitrião e os garçons. Logo providenciaram uma terceira mesa, só para os "mais velhos", então da nossa mesa foram arrastados Mr.Monkeyman, M. e R., que saiu sobre protestos de "oh f* hell", haha, porque ele queria ficar conosco. Então na nossa mesa ficamos Mr.M, eu, nosso amigo D. e o trainee N., dois funcionários do fornecedor e as meninas amigas do anfitrião. Logo nos apresentamos, as meninas começaram a fazer milhões de perguntas e começamos a conversar e logo estávamos brincando, fazendo piadas e tirando sarro um dos outros. Os outros dois funcionários não falavam inglês mas mesmo assim foram supergentis o tempo todo, brindando e enchendo nossos copos, explicando os pratos servidos e rindo das nossas bobagens na mesa. Sem dúvida a mesa mais barulhenta.

O banquete foi num restaurante de culinária cantonesa, o que significa muita, muita carne, molhos elaborados, preparo impecável e ingredientes únicos e exclusivos. E eis que o banquete começa, sem aflições e sem circo, para o nosso alívio. Primeiro encheram nossos copos de suco, cerveja e vinho. E o primeiro curso veio com os aperitivos de carnes frias: frango branco cozido, fatias de pés de porco assadas, joelho de porco grelhado. Logo recebemos tigelinhas com sopa quentinha. Para mim, parecia simples sopa com frutos do mar. Reconheci camarões, pedaços de caranguejo e outra carne branca meio desfiada, mas não tinha como saber o que era. Muito boa, cheia de cebolinha verde por cima, a consistência da sopa era um tiquinho gelatinosa mas bem saborosa e achei que a carne branca deveria ser de algum peixe.

O próximo curso veio com broto de bambu cozido ao vapor e grelhado, com uma fina camada de maionese por cima. Os pedaços estavam bem tenros, como nunca havia experimentado antes. Uma bandeja enorme chegou à mesa com os mais maravilhoso camarões grelhados e depois mergulhados em vinagrete. Eles eram tão grandes, que a carne estava bem parecida com a de lagosta. Um peixão cozido no vapor foi o próximo prato, carne macia, molho cítrico divino, pak choi verdinha para acompanhar.

Outro prato chegou, no meio de um anel feito de motis fritos (bolinhos glutinosos de arroz), cubinhos de uma carne branca e outra mais escura, cogumelos e castanhas cozidas, em molho de shoyu. Peguei uma porção de cada e comi um pedaço da carne branca. Olhei pro Martin e perguntei "Monkfish?" (Peixe-diabo? Lophius piscatorius). Martin concordou mas não estava bem certo. Nossos outros colegas também acharam que era monkfish. Resolvemos então perguntar para as meninas mas elas não sabiam o nome em inglês.

E então a luz se fez. O moço taiwanês que estava sentado à minha frente fez uma imitação de que bicho que havíamos acabado de engolir. Ele colocou as duas mão abertas, uma de cada lado do rosto e fez a cabeça dele subir e descer, subir e descer bem devagar. Ohmyfuckinglord. Tartaruga. Carne de tartaruga ensopada. Olhamos um para outro e rimos. Já tinha ido mesmo. E pra falar a verdade a carne é bastante saborosa, a textura parece de camarão. Delicada, macia, agradável.

O próximo prato (vocês ainda estão contanto? este é o nono) foi de bolinhos fritos de carangueijo, que é auto-explicativo, agradou todo mundo. Os molhos picantes e de gengibre foram a atração. E o outro prato salgado a ser servido foi de costelas de porco grelhadas e glaceradas. Este eu não experimentei porque eu precisava de espaço para a sobremesa, uff. E para finalizar e ajudar a digestão, outra sopa, com sete cogumelos diferentes, um pedaço de carne de porco e um ovo de codorna. Tomei duas colheradas do caldo e não comi nada, uff.

Tortinhas de custard, melancia, melão, maçã e uva. Passaram todos por mim despercebidos, não me servi de nada. E enfim serviram uma sobremesa que chamou minha adocicada atenção. Em ramekins individuais, um pudim branco, branquíssimo, quase neve, coberto por uma boa camada de purê de manga. Ah, o aroma da manga madura, a cor laranja escura, ah! Peguei minha colher e mergulhei-a no pudim. Textura como nunca vira antes. Seda, essa é a sensação. Leve, lisa, lisa, lisa. A colher não corta, mas desliza. O caldo de manga entra nos reinos nunca dantes desvendados. Certamente cremoso, mas sem ser nem pudim, nem gelatina, nem flan. Algo entre esses três. E o sabor, ah o sabor. Coco, leite, manga, combinação divina. Fiz altos elogios, enalteci a sobremesa, estava visivelmente satisfeitíssima com o final elegante e delicioso do nosso banquete.

E porque estávamos já cheios de etílicos e brincando há várias horas, e porque também tenho fama entre os colegas do Martin de dessert monster (a monstra verde de olhos esbugalhados devoradora de sobremesas), virei pro N., que tinha começado a sobremesa dele mais tarde porque tinha ido no banheiro antes, e perguntei "are you going to finish that or not?" ("cê vai comer isso aí tudo sozinho?") e ele riu e D. riu também fazendo mímica da monstra, Mr.M tentou me segurar para não avançar no prato alheio. E rimos e rimos. E eis que eu nem vi, mas o moço taiwanês que estava na miha frente se levantou e foi no buffet dos garçons e trouxe mais um pudim extra pra mim! Gaaaaaaaaaaaaaaaahh!! Era o que eu precisava para todo mundo tirar o barato da minha cara e rimos até não agüentar mais. E eu realmente, realmente não tinha condições de comer mais nada. Mas dei duas colheradas por educação, agradeci ao moço que me trouxe a porção extra e ele estava rindo de mim também, maldito.

Descobri mais tarde que esta sobremesa dos deuses chineses é chamada de Dofu-fah e sua base é feita com leite de soja e tofu, que explica a leveza e textura sem igual. Foi um dos pratos que mais me surpreendeu até agora, pela simplicidade e combinação de sabores.

Ah, em tempo, descobri também qual era a carne branca da tal sopa no começo do jantar: barbatanas de tubarão. Politicamente incorreto, eu sei, fiquei surpresa também, mas já não fico mais chocada com nada nesta vida. A gente sente até um certo alívio de saber que era algo assemelhado a um peixe do que saber que era alguma criatura gosmenta, repelente, com mais de oito pernas e três olhos ou coisa do tipo. Tubarão? Ah tá, no worries.


7 Comentários

Ai Marcia, trabalhei ontem ate umas 3 da matina, tive que voltar agora de manha e antes de entrar para o batente resolvo ler o seu blog. A minha cara de cansada e estressada ja se transformou. Adorei esse post seu, ficou otimo!!!

Beijos! Flavia

Adoro seus relatos gastronômicos! Este jantar foi bem menos indiano jones do que o outro, né?
Mas tadinha da tartaruga...bom, você não sabia, né?
Fiquei curiosíssima em experimentar o Dofu-fah. Deve um manjar dos deuses, literalmente!
beijos

pensa no homer simpson com a cabeça arriada pro lado e babando. pensou? tou eu assim com a descrição do Dofu-fah de manga e coco.

e por nada não, dofu-fah não parece nome de personagem de guerra nas estrelas?

A gente deveria ser proibida de deixar de ler seus posts por tanto tempo!
Que saudades do seu texto! Ah! claro, saudades de vc também!
Fico imaginando o dia em q comprarei os vários volumes de "A vida escrita à mão - Uma epopéia de sensações e sabores ao redor do mundo"...
Enquanto isso, tento me conformar em ter de ler tudo o que perdi nos últimos meses e de punir por ser tão relapsa.
Beijo super hiper mega blaster!

amiga,

posso lhe considerar assim, não?
adoro suas histórias. estou completamente viciada. li todo blog, quase de uma só vez.hoje, a primeira coisa q faço qdo chego no trabalho é ver se tem novidades.sinto falta delas.
já pensou seriamente na possibilidade de escrever um livro?
ultimamente vc tem contado pouco sobre o q anda fazendo enquanto Mr.M está no trabalho...conta vai....bjão

???... ??????????? (@_@" ??????), ???????. ?????????~~~

Nossa, estou como a Ana Carolina ali..Achei seu blog "sei lá como", já li uns 40% e estou "apaixonada"..Gosto como você escreve e mais, gosto da coragem de ter ido embora por amor e pra recomeçar a vida, sempre de cabeça erguida. Parabéns. Voltarei mais e mais vezes.