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Radio, Someone still Loves You

Radio
I'd sit alone and watch your light
My only friend through teenage nights
And everything I had to know
I heard it on my radio

Algumas canções só começam a fazer sentido muito mais tarde em sua vida. Amadurecimento e vivência trazem esclarecimentos dantes nunca sonhados. Estava pensando nisso a respeito da tão aclamada Radio Ga Ga, do Queen. Quantas vezes cantarolei essa canção, quantas vezes bati palmas entre "radio ga ga, radio goo goo", quantas vezes ouvi e ouvi novamente os mesmos versos. Porém, pouco ou quase nada entendia a respeito de seu verdadeiro significado.

Somente agora, após próxima convivência com minha família britânica é que entendo melhor a canção. Somente quando entendi o imenso papel que o rádio ainda tem na vida dos britânicos, principalmente ingleses, é que essa belíssima canção se apresentou a mim, novamente, como um grande manifesto.

Para quem chega em solo britânico agora e liga o rádio acha chato e que tem muita conversa, muito blablabla e pouca música. Mas é exatamente essa a essência das rádios britânicas: informar, emitir opiniões, criar discussões, instigar idéias, além de, inclusive, proporcionar entretenimento. De ser mais que um barulho de fundo, mais que uma vitrola. E essa essência vem de muito tempo atrás.

Outros tempos. Tempos em que comediantes, comentaristas, artistas e apresentadores eram responsáveis por criticar, educar, encorajar e entreter uma nação, livre de interferências políticas ou comerciais. Tempos em que a obra War of Worlds (sobre marcianos invadindo a Terra), de H.G.Wells, era dramatizada na rádio por Orson Welles, causando pânico nos EUA, tamanha era a força do meio de comunicação. Tempos em que igualmente a narração das Aventuras de Superman atingiam níveis tão altos de audiência, que nos fazia acreditar que o homem podia mesmo voar.

You gave them all those old time stars
Through wars of worlds, invaded by Mars
You made 'em laugh, you made 'em cry
You made us feel like we could fly
Radio...

Tempo em que a BBC Radio informava boletins diários sobre a Segunda Guerra Mundial, monitorava transmissões de outras nações para identificar propagandas nazistas e usava sua tecnologia para combater o avanço de Hitler.
Especialmente, tempo em que, quando os aliados estavam prestes a perder a Segunda Guerra Mundial para Hitler, o então Primeiro Ministro britânico Winston Churchill transmitiu, via ondas de rádio, seu discurso "Their Finest Hour" à nação:

"(...) Hitler sabe que terá que nos arrasar nesta Ilha ou perder a guerra. Se pudermos confrontá-lo, toda a Europa estará livre e a vida do mundo poderá se mover para a frente em amplos e iluminados solos. Mas se nós falharmos, então o mundo inteiro, incluindo os Estados Unidos, incluindo tudo que nós conhecemos e nos importamos, vai se afundar num abismo de uma nova Era de Escuridão, talvez ainda mais sinistra pelas luzes da ciência pervertida. Vamos portanto nos firmar em nossos deveres e ter em mente que se o Império Britânico e sua comunidade durarem por mil anos, então homens ainda dirão: 'este foi o mais grandioso momento deles' ('this was their finest hour')."

Com todo esse passado, toda essa história, com toda essa influência positiva, para a geração de Freddie Mercury e para os que hoje têm mais de 40 anos, foi com grande pesar testemunhar a tão fiel rádio se transformar em uma caixa de música ruim, sem nenhuma mensagem, sem nenhum objetivo. Feito para molecada rebolar, sem saber o que acontece mundo afora e muito pior, sem se importar minimamente com isso.

So don't become some background noise
A backdrop for the girls and boys
Who just don't know or just don't care
And just complain when you're not there
You had your time, you had the power
You've yet to have your finest hour
Radio...

Para completar, a chegada da MTV e afins, apesar de grande impacto e importância, teve também sua parte na alienação, na inércia dos espectadores que, abismados com todo visual, pouco dão atenção ao que importa. E tão bem descreve Roger Taylor, autor de Radio Ga Ga, "nós dificilmente precisamos usar nossos ouvidos". As imagens já estão ali prontas e mastigadas, pouco dos ouvidos e menos ainda do cérebro é exigido. "Como a música muda através dos tempos", conclui Taylor sabiamente.

We watch the shows - we watch the stars
On videos for hours and hours
We hardly need to use our ears
How music changes through the years

Mas ao menos por enquanto, ao menos para os britânicos, a Rádio ainda tem seu lugar privilegiadíssimo e insubstituível na vida deles. Ao menos em nossa família, o pai do Martin jamais pode começar seu dia sem ligar na Radio Five Live e saber tudo o que aconteceu nos esportes enquanto ele dormia. A mãe e a irmã do Martin não perdem nenhum capítulo da rádio-novela The Archers, as duas acompanhando tudo olhando para o rádio, como se de lá saíssem as imagens da trama. Martin aqui em Taiwan chega no escritório e conecta-se a BBC Radio 2 pela Internet, assim como absolutamente todos os colegas deles. Há ainda muitos bons programas, excelentes apresentadores e umas poucas bandas que ainda valem a pena. Eu, que ainda engatinho nesse costume, que venho de outra cultura, acostumada a ouvir à rádio mas com outros interesses, também agora sinto falta dos meus comentaristas favoritos Jonathan Ross, Mark Lamarr e Dermot O'Leary, sinto saudades dos tempos em que tinha que ficar acordada até tarde para ouvir Fábio Massari no Lado B da 89FM contar sobre as bandas da longínqua Europa.

Let's hope you never leave old friend
Like all good things on you we depend
So stick around 'cos we might miss you
When we grow tired of all this visual

Só então toda a letra de Radio Ga Ga passou a ter um completo e intenso novo significado pra mim. Houve um tempo de glória e poder da rádio. Houve um tempo de racionamento de papel, de energia elétrica e de informação. Houve um tempo em que a rádio era o único meio de se conectar ao mundo, o único meio capaz de desafiar censura e guerras, mobilizar massas e nações. A rádio criou por mérito próprio uma confiança que ainda, apesar de tudo, tem seu público, tem seu alvo. Que o manifesto Radio Ga Ga persista por anos e esteja sempre na mente de quem a faz mais que uma radio blah blah.

You had your time - you had the power

You've yet to have your finest hour
Radio...

All we hear is radio ga ga
Radio goo goo
Radio ga ga
All we hear is radio ga ga
Radio goo goo
Radio ga ga
All we hear is radio ga ga
Radio blah blah
Radio what's new ?
Radio, someone still loves you

Queria que Freddie Mercury soubesse que a rádio ainda existe, quinze anos após sua morte, que ela ainda é parte tão cotidiana de muitos, como foi na vida dele em Londres. Ontem pensava em tudo isso quando fomos dar uma espiada na loja de DVDs aqui perto. Entre os muitos títulos que estavam arrumados na vertical feito biblioteca, eis que meus dedos puxaram um título aleatório da prateleira. São todos com sobrecapa em chinês, então não sei que título é até ver a capa. Era Red Hot Chilli Peppers. Coloquei-o de volta e o DVD do lado tombou um pouquinho. Fui ajeitá-lo e para minha total surpresa qual DVD era? Queen Live at Wembley Stadium! Fiquei tão encantada com a coincidência, que imediatamente comprei. Quando chegamos em casa, estava pesquisando sobre o show desse DVD, que aconteceu em 1986, no auge da carreira do Queen, logo após a memorável performance deles no Live Aid. E então descobri que ontem, além de todas as coincidências, seria também o aniversário de 60 anos de Freddie Mercury. Senti uma certa presença nos moldes "I can see dead people"....

"Thunderbolt and lightning
Very very frightening me..."


9 Comentários

Legal, Marcinha, essa sua exposição do ponto de vista inglês (portanto do Queen) sobre o que a música realmente significa. Valeu mesmo.

Hoje em dia, acabei igual ao meu pai. Achava muito chato ele ficar ouvindo rádio de notícias no Brasil quando eu era moleque, e hoje quem é que fica ouvindo a rádio pública aqui nos EUA? Quem? Quem? ;-)

Gosto de rádio, ouço a CBN, ouço música...e gosto muito , muito quando você escreve no blog. Torço prá que volte prá Inglaterra, prá que volte a fazer pães...mas sei que a vida muda! Eu gostava desses posts. Bobagem minha, né? Peço desculpas...

Marcia, adorei a sua explicacao tao detalhada. O pai do Paul eh igual, acorda e ligo o radio, durante a copa do mundo tinhamos a TV e o radio ligados. Como vc disse o nosso costume eh outro, mas eu sou acostumada a ouvir AM ou algum canal de noticias, pois quem que nunca acordou com a musiquinha: "Vamo bora, vamo bora, ta na hora, vamo bora, vamo bora..." ha, ha. Meus pais toda a vida dormiram com o radio ligado a noite toda, e de manha sempre ouviam as noticias pelo radio. Mas eh engracado essa cultura Inglesa, eu mesma nunca prestei muita atencao nas vezes que fomos la.

Beijos!

Very true! Adoro ligar o radio quando estou em casa no fim de semana. Radio 4 ou Southwest Radio.E é bem como você coloca. Às vezes também gosto de ouvir o Desert Island - na verdade sempre gosto de ouvir este programa mas às vezes estou em casa para me dar o luxo.

Marcinhaaaaa!!! Te achei de novo! Eu pensei que seu blog tinha acabado com a sua viagem para Taiwan! Legal ler seus posts novamente. Como é a vida aí? Bom, vou tirar um dia para ler os arquivos, hehehe.
Eu amo rádio e eu também ouvia o Fabio Massari na 89! Agora percebo que estou ficando velha pois prefiro as rádios que tocam tipo " clássicos do rock". A Internet quebrou as barreiras do rádio, e eu acho ótimo. Bjs,

Marcia, muito legal teu post, eu também ouvia o Fabio Massari e antes dele ouvia o Novas Tendencias com o José Roberto Mahr, era sagrado todo domingo a tarde ouvir aquelas bandas que ninguem mais conhecia. O radio foi tudo para minha juventude, eu ganhei meu primeiro radio de minha avó, era só AM-SW mas que delicia...Hoje ouço a XFM de Londres via web, muito bom. Parabéns pelo inspirado post e tudo de bom a vc e Martin !

Lindo post - com trilha sonora e tudo. :) Fui uma das que ao chegar decepcionou-se com as rádios. Não gostei da falação. Mas pelo menos o que eu ando ouvindo não tem nada de informativo, relevante ou inovador - é pura conversa mole, gracinhas, basicamente locutores querendo roubar a cena.

Entendo que rádio possa ter esse significado para os britânicos. Mas eu cresci ouvindo rádio pela música, e pra mim ela fala tanto ou mais que qualquer discurso (como essa letra poderosa e meaningful que você citou). Por isso me decepcionei e acabei me voltando aos meus disquinhos... O rádio que me ensinou, entre outras coisas, a falar inglês, ficou no Brasil, lá nos anos 80. Fico com meus CDs e, para ouvir idéias, notícias e opiniões, leio livros. É o que me sobra. Beijocas!

Olá.
Estou de passagem para matar a saudade e nossa, encontrei-me com meu verso mais sincero. Minha parte mais natural... Meu reflexo primeiro. Músicas são alento para o meu ser. É inusitado... Sempre tenho alguma história presa a uma música que não se perde jamais.
Beijos e voltarei aqui mais vezes, dessa vez...