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Geikos and Maikos

Atendendo a pedidos (1), vou fazer uma breve pausa na infinita narração de nossas férias e dedicar espaço para esclarecer algumas idéias sobre as Gueixa.

A primeira e principal questão que a maioria das pessoas fazem é: são Gueixas prostitutas de luxo?

A resposta é clara e simples: Não. Absoluta e certamente que não são e historicamente nunca foram.

Mas a confusão tem sua razão de ser. No século 17, muito antes das Gueixas existirem, havia no Japão o que era chamado de "distrito do prazer", glamorosas áreas de entretenimento onde cortesãs eram pagas para animar festas com suas danças, músicas e também sexo. Essas cortesãs, no entanto, não eram simples prostitutas de rua, muito pelo contrário. Com a queda da clã Toyotomi, filhas e esposas de samurais da alta hierarquia social tiveram pouca opção além de voltarem-se para a prostituição. Elas eram então cortesãs com alto nível de educação, cultura e elegância. Os "distritos do prazer" não era um lugar obscuro, escondido e de luz vermelha, não. Eram áreas onde a atmosfera refletia o alto nível de cultura tanto dos que frequentavam quanto daquelas que os entretiam. Os clientes se divertiam comendo, bebendo, assistindo a danças e conversando animadamente. Se tivessem sorte e se fosse do consentimento das cortesãs, a noite poderia até terminar em sexo. Mas nem sempre.

Entre as cortesãs, existia também uma hierarquia e o mais alto nívei que uma cortesã poderia alcançar era chamado Tayuu. As Tayuu eram mulheres que brilhavam pela sua excepcional beleza, talento e nível cultural. Eram tratadas como membros da realeza, andavam sempre acompanhada de dois ou mais serventes. Eram mulheres poderosas, davam-se ao luxo de recusar clientes que não as atraíam. Se vestiam de forma ricamente extravagante, com kimonos caríssimos bordados em ouro e prata, vários pentes e os mais finos adornos na cabeça, maquiagem formal branca e nos pés, as mais altas e impressionantes sandálias de plataforma jamais vistas. Elas andavam com os pés desenhando um 8 no chão, sem meias por baixo de tamanha indumentária, provocando fascínio e sensualidade. E outro detalhe importante na vestimenta das Tayuu era o obi amarrado na frente (ao invés de ser amarrado nas costas), uma explícita forma de mostrar que seu kimono era fácil de abrir.

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Modelo representando uma Tayuu. Fotos de Philibert Ono, durante o festival Tokyo Jidai, no desfile das tradicionais épocas históricas do Japão


No início do século 18 as prostitutas comuns e baratas proliferaram e logo a era das Tayuu começou a decair. O ano de 1761 foi o último em que as Tayuu exerceram sua profissão. Na mesma época, uma nova classe de artistas começou a surgir no "distrito do prazer". Geikos eram originariamente somente homens, vindos do teatro e famosos por suas danças e músicas tocadas em um instrumento de cordas chamado shamisen. Logo as mulheres se juntaram a eles e foram tão bem sucedidas que a demanda por elas começou a crescer de certa forma que tirou os homens de cena. Elas também vestiam kimonos de forma provocante, com a nuca exposta, mas não tão extravagante como as Tayuu, e usavam uma maquiagem similar, rosto pálido e lábios cor de cereja. Provavelmente daí é que veio a confusão, acrescentado ao fato que elas dividiam o mesmo espaço no "distrito do prazer".

Em 1873 o mesmo "distrito do prazer" foi fechado e a prostituição foi proibida no Japão. As Geikos foram o único grupo que teve liberdade de continuar exercendo sua profissão porque o trabalho delas não envolvia nada de origem sexual. E para evitar que isso mudasse, o governo japonês instituiu regras e leis para a profissão, que são regidas até hoje. Uma delas diz que se uma Gueixa for suspeita de ter um relacionamento muito íntimo com seus clientes em seu trabalho, ela seria investigada e suspensa de suas atividades.

Com isso, as Geikos passaram a se organizar em uma própria comunidade, criando rígidos treinamentos de comportamento, disciplina, dança, música, literatura e cultura. Criaram também sua própria hieraquia de acordo com a experiência das aprendizes, chamadas de Maikos:

Shikomi, primeiro estágio para quem quer se tornar geisha. Elas atentem à diversas aulas e ajudam as Maikos a se vestirem.
Minarai, segundo estágio, quando as Shikomi passam pelo teste e começam a praticar lições de conversação, vestimentas e maquiagem.
Musume-bun, terceiro estágio, caso a Minarai seja aceita por uma Geiko para ser sua "irmã mais nova". Ela agora passa a ser apresentada nas festas como uma própria Maiko e recebe um novo nome. De acordo com sua experiência, ela é considerada Maiko Júnior ou Maiko Sênior.

Geiko, último estágio. Antes de chegar a esta fase ela já deve ser uma Maiko bastante popular e bem sucedida, pode escolher entre viver em seu próprio apartamento ou continuar na okiya (casa das geishas) até se aposentar. Clientes podem agora se oferecer para serem seus patrocinadores. Em Tokyo elas passaram a se chamar "Geisha", no dialeto local.

Com toda essa preparação, ao mesmo tempo em que começaram a ficar ainda mais especializadas em artes tradicionais, passaram também a capturar a atenção das mais influentes e poderosas personalidades do Japão. Políticos, empresários, membros da realeza e Primeiro-Ministros passaram a prestigiar a arte das Geikos, contratando suas apresentações performáticas em eventos de suma importância.

Portanto, ao contrário das Tayuu, em nenhum momento da história do Japão as Geikos venderam nada além que sua arte de dança, música e cultura tradicional. A própria palavra Geiko significa "artista": Gei = arte, ko = pessoa que faz. Muitas, obviamente, envolveram-se com clientes, casaram, tiveram um relacionamento como qualquer outro mortal teria mesmo que trabalhasse em um banco ou num escritório qualquer. São enfim, artistas e atrizes que vivem de sua arte, não de seus corpos. Elas são contratadas para criar uma atmosfera de animação e cultura em eventos com sua beleza, inteligência, música e dança. O que acontece entre elas e seus clientes além disso depende apenas de cada uma delas, como indivíduos. Mas isso não é, em nenhuma instância, parte do trabalho de uma Geiko ou Maiko.

E para o desgosto das Geikos modernas, o livro Memórias de uma Gueixa, de Arthur Golden, surgiu para colocá-las sob holofotes do mundo ocidental com fatos completamente errados. Golden se defende dizendo que é uma obra de ficção e que ninguém deveria tomar a leitura como fato concreto. I beg to differ. Acho que ele foi preguiçoso na pesquisa do assunto de seu livro, sabendo que haveria uma grande curiosidade dos seus leitores de saber a verdade. Poderia ter escrito uma obra prima, mas caiu na tentação de levar para o lado do conhecimento popular, de que a vida delas gira em torno de sexo. Golden ganhou livro, filme, fama, fortuna e um belo processo judicial da ex-Geiko Mineko Iwasaki, que o ajudou fornecendo informações para o livro e viu, horrorizada, que tudo fora distorcido.

Então, para quem aprendeu sobre Gueixas apenas pelo livro ou filme Memórias de uma Gueixa, é preciso esclarecer alguns pontos:

- Mizuage: não, maikos (aprendizes de geikos) não vendem suas virginidades, se é que ainda não ficou claro que elas não são prostitutas e portanto não vendem nenhuma parte de seus corpos. Mizuage entre maikos é rito de passagem de uma idade para outra, mais adulta e feminina, nada a ver com virgindade ou sexo. E esse rito de passagem geralmente custa bem caro porque elas mudam todos seus kimonos e adornos. Alguns clientes oferecem ajuda para pagar os custos dos novos kimonos e acessórios, nada mais que isso.

- Danna: assim como alguns clientes oferecem ajuda para pagar pelos custos do Mizuage, outros vão mais além e oferecem para serem Danna, fornecendo ajuda financeira para manter uma Geiko pelo resto de sua carreira, provendo casa, kimonos, aulas de dança e mesada regular. Isso não implica, no entanto, que a Geiko passa a ser dependente de seu Danna, ela apenas ganha um patrocinador. Para as Gueixas modernas, a carreira em si é o centro de suas vidas, é seu veículo para conquistar a posição que desejam. Ao contrário do que o livro sugere, Gueixas são mulheres independentes e poderosas financeiramente, com ou sem Danna, jamais subservientes ou submissas a ninguém.

- Piscinas naturais: Geikos e Maikos atentem à festas, jantares e banquetes em casas de chá privadas e particulares, que trabalham em parceria com as geishas. É preciso marcar horário num órgão oficial chamado Kenban e definir por quanto tempo elas permanecerão no evento. É preciso também que o cliente seja bem conhecido pela casa de chá onde o evento vai acontecer. Portanto, essa idéia ser cercado de Gueixas peladas numa piscina natural simplesmente não acontece na realidade. O autor provavelmente tirou essa idéia das "Onsen Gueixas", prostitutas das pousadas com piscinas naturais que se intitulam "Gueixas" para atrair turistas ocidentais.

No mais, nenhuma menina é vendida para ser Geiko. Atualmente muitas adolescentes sonham com a carreira de Gueixas assim como muitas sonham ser Top Models no ocidente. Elas podem terminar o colegial ou até a faculdade antes de começar a carreira de Gueixa. E também podem abandonar a carreira quando bem entendem, ninguém é prisioneira, ninguém precisa tentar fugir da okiya.

Se você quiser mesmo se aprofundar no conhecimento de Gueixas, se quiser ficar livre desse estereótipo hollywoodiano que a maioria tenta empurrar abaixo de sua goela, procure fontes mais precisas, respeitáveis e verdadeiras. Alguns bons livros são:

Geisha : A Living Tradition, de Kyoko Aihara
Women of the Pleasure Quarters, de Lesley Downer, uma das poucas ocidentais aceitas em uma okiya para fazer suas pesquisas (o mesmo livro é também encontrado sob o título Geisha: The Secret History of a Vanishing World).
Geisha, A Life, de Mineko Iwasaki

Como disse Roger Ebert, expert em cultura japonesa "eu imagino que quanto mais você aprende sobre o Japão, menos você gosta de Memórias de uma Gueixa." Assino embaixo. Espero que este post traga a quem lê uma nova luz sobre o que as Geikos e Maikos são: artistas talentosas, respeitáveis e dignas de reverências.

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Foto: Dick Harris

São vivos patrimônios do tesouro nacional do Japão.


10 Comentários

Digo e repito: isto aqui é melhor do National Geographic. É melhor do que People & Arts.
Confesso que não sabia nada sobre Geikos. Não li Memórias de uma Gueisha e nem vou ler. Obrigada por nos brindar com tantas coisas interessantes.

Obrigada Marcia por essa explicação. Estava lendo 'O país das neves' e fiquei curiosa para saber mais sobre as gueixas, agora clareou muita coisa na minha cabeça.

Você faz os melhores relatos de viagem. Adoro!

um abraço

Márcia, fui apresentada ao seu blog pela Tite, uma amiga em comum. Desde lá, venho vez por outra fazendo uma visitinha. Amei esse post. Não li ou assisti o Memórias de uma Gueixa. Acho que vou até assitir, mas agora com outros olhos.

Obrigada

Oi, Márcia! Adorei a explicação!

Não li memórias de uma gueixa (e depois do seu post nem vou!) e imagino o quanto elas devem se aborrecer com esse esteriótipo que nós, trogloditas ocidentais, criamos para elas. Uma vida inteira de estudo e dedicação!

As coisas estão mais claras na minha cabeça agora. Acho que toda essa confusão é por causa da nossa cultura machista que ainda tenta nos convencer que mulher bonita e independente é prostituta.

Como a Márcia Aguiar escreveu: isto aqui é melhor do National Geographic!

Márcia,

Adorei tua explicação. Tudo fica mais claro quando temos as informações necessárias.

Por coicidência estou lendo "Memórias de uma Gueisha" para minha aula de inglês. Vou continuar a história, mas agora ciente da realidade. No entanto, devo dizer que independente do livro trazer o esteriótipo ocidental de uma Gueisha, ele é excelente e evolvente. Não acho que devemos tirar esse mérito do escritor.

bjos.

ps: continuo aguardando a continuação da "Saga da familia M&M no japão". hehehe

Ah! Me esqueci de dizer também, que a Mikeko Iwasaki, não só processou, como também escreveu um livro contando a sua versão de toda a história: Geihsa, A Life. Esse será minha próxima leitura. Vc já leu?

bjos

Patrícia

Eu não tinha lido o livro Memorias de uma Gueixa não, mas assiti ao filme e gostei.

Entretanto, lendo mais sobre as Geikos e Maikos percebi como os fatos são distorcidos às vezes. Que pena que isso acontece. Pena tb, como a Priscila falou, que a cultura machista tenta nos convencer de que toda mulher linda e independente é prostutita.

Parabéns pelo seu jeito de escrever, relatar a viagem (acho q não vou me cansar de dizer isso nunquinha!) e de nos "ensinar" sobre a cultura japonesa!

Montes de beijos

Eu tambem nao li e nem pretendo ler Memorias de uma Gueisha, estou adorando os relatos e fotos da viagem e valeu por explicar sobre as gueishas e geikos.

Por mim você pode continuar a escrever sobre a sua viagem até o final do ano e eu nunca vou enjoar de ler! Estou fascinada com as cores, a comida que parece ser deliciosa ( ahh os empanados!!!) e agora com este post então, simplesmente arrasou. Uma verdadeira aula de história. Parabéns. Eu li o livro e vi o filme - o filme eu achei bem ruinzinho, o livro OK se for tratado como obra de ficção, que é o que você mostrou bem no post o que é. Aliás estava pensando em comprar o livro da Lesley Downer, e depois do seu aval, com certeza o farei. Abs,

Adorei a explicação! Sou historiadora, mas conheço pouco ou nada da história oriental. Tenho exatamente a mesma bronca com o Código Da Vinci. Não adianta que me digam que é ficção, porque a maioria das pessoas fica achando que tem um pouco de verdade. E não tem nada, absolutamente nada que valha a pena nesse livro.