M&M in Kyoto: Day 4
O sábado era o último dia inteiramente livre que nos restava no Japão. Tínhamos a opção de viajarmos até Nara ou Himeiji, mas para sermos francos, preferimos abrir mão dessas viagens e ficar mais um dia em Kyoto porque estávamos tão encantados com a cidade e queríamos passear por ela um pouco mais. Começamos cedo nosso dia, oito da manhã já estávamos na porta do templo Sanjusangendo, que era literalmente vizinho do hotel. Era uma das atrações que eu nem estava muito animada para ir porque os guias falam muito pouco dele, não tem muita informação na Internet. Martin insistiu pra que fôssemos já que era só atravesar a rua do hotel e fico feliz por termos feito isso. Que surpresa! Que grande surpresa, que templo magnífico, injustamente pouco divulgado. Foi um dos templos que mais nos surpreendeu e nos impressionou durante toda a viagem.
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Sanjusangendo é composto de um imenso hall com arquitetura absolutamente fantástica, datada dos séculos 12 e 13, e é considerada a mais longa estrutura de madeira do Japão (100m). Em alguns pontos, é possível ainda ver a sombra de uma antiga rebuscada pintura que antes decorava o teto com cores vibrantes. As paredes externas são feitas de papel de arroz, que filtra a luz e ilumina o interior de forma espetacular.
Em seu interior, 1000 estátuas da Deusa Kannon em tamanho natural (1m54) ficam dispostas em várias filas, 500 de cada lado. No meio das 1000 estátuas, há uma gigantesca estátua de Kannon, sentada com as palmas juntas em oração. Na frente desta estátua há um incensário, onde acendi um insenso em memória a todos os ancestrais da minha família no Japão. Todas as estátuas foram esculpidas em madeira e cobertas por folhas de ouro. Cada uma delas tem 40 braços, simbolizando os 1000 braços da Deusa Kannon e também a sua habilidade de abraçar a Terra e retirar o peso do sofrimento das pessoas.
Protegendo as 1001 estátuas, encontramos os 28 deuses guardiães, que têm suas origens no budismo indiano. Além dos guardiães, há também as raras estátuas do Deus do Vento e do Deus do Trovão, que são parte do Tesouro Nacional do Japão. Todas essas 30 estátuas são absolutamente impressionantes pelo realismo, pela cor dos dentes expostos e pelos olhos feitos de cristal, cujas pupilas ficam voltadas diretamente aos seus olhos, trazendo frio na sua espinha dorsal. Não é permitido fotografar o interior do templo, mas como somos bacanas, tiramos esta foto de um dos postais que compramos na saída.
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A área externa do templo também é popular. Na varanda do templo, acontece a anual competição de arco e flecha, onde os melhores arqueiros do japão vêm em trajes tradicionais para atirar suas flechas em uma distância de 118 metros. Além disso, no jardim, há uma fonte de água pura e cristalina, oferecida aos visitantes para curar de suas preocupações. Antes de deixarmos Sanjusangendo, Martin me deu de presente um minúsculo talismã cor de rosa.
Nossa próxima parada foi a estação de trem de Kyoto, onde fomos reservar assentos no trem Shinkansen pro dia seguinte. Toda vez que fizemos as reservas, levamos um papel com todas as informações escritas bem claras: número de passageiros, cidade de destino, linha do trem, horário, não-fumante. Todas as vezes que entregamos esse papel, fomos muito bem atendidos, as reservas foram feitas em dois minutos, tudo certinho.
Reservas organizadas, pegamos um ônibus e partimos para Nijo Castle. Este foi o primeiro castelo japonês que visitamos. Construído pelo mais famoso shogun (general do exército) japonês chamado Tokugawa Ieyasu, o castelo Nijo foi totalmente dedicado a se tornar uma relíquia histórica, mostrando a riqueza, poder e autoridade de seus habitantes. Apesar do castelo estar vazio de qualquer mobília, é possível ainda ver as magníficas pinturas nas paredes e portas de correr, produzidas por grandes artistas da era Kano. Há vários painéis de madeira esculpida, ricos em detalhes quase inacreditáveis. E a grande atração do castelo é sem dúvida o Piso de Rouxinol. Um inteligente alarme de segurança, onde as tábuas de madeira do corredor fazem os pregos deslizarem nas juntas, produzindo um ruído feito o canto de um pássaro rouxinol. Proteção extra contra ataques-surpresas de assassinos. Como o castelo estava praticamente calmo no dia que visitamos, tentamos andar bem devagar, pisando bem de leve, mas mesmo assim as madeiras rangiam e denunciavam nossa presença. Neste castelo também não é permitido tirar fotos e desta vez não compramos nenhum postal.
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O jardim do castelo também era impressionante, com lagos e cisnes, árvores em topiaria, muros enormes feitos somente com grandes pedras sem cimento nenhum, árvores imensas, cascatas e carpas. Gostamos bastante do castelo Nijo, moraria lá sem reclamar.
Nosso último evento do dia foi visitar o Kinkakuji, o templo zen coberto de ouro, também listado pela UNESCO como patrimônio da humanidade. Não há muito o que falar do templo, além do que as fotos mostram. É bonito, dá para tirar fotos feito cartão postal. Guarda relíquias budistas e não é permitido entrar em seu interior. O único fato que achei interessante do Kinkakuji foi que em 1950 um monge fanático colocou o lugar em chamas porque odiava o fato do templo ser tão perfeito e lindo.
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A caminhada até a saída é bem bacana, por entre lagos com cascatas, várias carpas, jardins, muitas árvores, tudo numa atmosfera bem calma apesar da multidão de turistas. Terminamos nosso passeio turístico e pegamos um ônibus até Gion. Ahh, como gostamos de Gion... O hotel era perto (escolhido justamente por isso mesmo) e íamos lá todos os dias, sempre que tivemos chance. Nunca nos cansamos de andar por aquelas antigas ruazinhas preservadas de Gion, sem pressa, sem destino, admirando cada casa, restaurante, okiya e casa de chá que encontrávamos pelo caminho.
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Andamos muitas vezes pela Hanamikoji-dori, onde tantas vezes encontramos com Maikos caminhando apressadas, surgindo de repente, sem nos dar tempo sequer de preparar a câmera. Esta Maiko (sênior, já não usa mais o ramo de flores caindo pelo rosto) estava acompanhada de uma shikomi, que a ajudava carregando sua bolsa.
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Por ser nossa última noite em Kyoto, e no Japão, tivemos um jantar especial num dos restaurantes de Gion. Bem tradicional, tiramos nossos sapatos, fomos atendidos gentilmente por mulheres em lindos kimonos, sentamos nas mesinhas baixas sobre o tatame, uma atmosfera muito bacana. Nossos pratos foram de uma variação do wagyu beef, que são filés de bovinos que vivem soltos em pasto, recebem massagem diária e alimentação especial que inclui uma cerveja por semana. De acompanhamento tivemos sopa missô, arroz muito bom, salada, pickles diversos e o mais fantástico tofu que jamais provamos, cremoso, textura levíssima e delicioso. Martin, que não vê graça em tofu, distribuiu elogios. Ainda tivemos sobremesa de sorvete de limão. Na saída uma das atendentes trouxe nossos sapatos, pagamos, fizemos uma confusão com o troco e acabamos deixando mais gorjeta do que pretendíamos, oh well.
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Continuamos nosso passeio por Gion e vimos várias Geikos, desta vez ao final de seus eventos, se despedindo de seus clientes, que certamente pareciam pessoas bastante influentes, talvez presidentes de empresas, talvez políticos, certamente personalidades de prestígio que contrataram não uma, mas três Geikos e uma Maiko. Uma uma noite de apresentação artística com uma Geiko pode custar entre 2,200 a 3,600 Libras. Quanto mais popular e requisitada, maior é o valor de sua presença.
Não sei se dá para perceber nas fotos, mas as Geikos, ao contrário das Maikos, usam kimonos bem mais discretos, porém de alto bom gosto, suas mangas são mais curtas também. A maquiagem é muito mais simples porque nesta fase elas podem confiar totalmente em sua beleza natural, agora são belas como as mulheres maduras são. Nem mesmo os adornos no cabelo são necessários. Aliás, elas têm o direito de usar perucas para voltar a dormir em travesseiros normais feito qualquer mortal. A grande diferença, no entanto, é o comportamento. As Geikos são muito mais confiantes e seguras de si, em todos os aspectos. Sorriem mais que as Maikos, inspiram mais respeito.
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Satisfeitos com nossa noite, estávamos caminhando de volta à avenida principal, quando duas Geikos surgiram caminhando em nossa direção, na mesma calçada. Uma delas era mais velha, não estava maquiada como geisha, mas era elegantíssima. Ambas conversavam animadas e achamos que poderíamos nos aproximar delas. Nós paramos, reverenciamos e perguntei em japonês se elas se importavam que tirássemos uma foto. Elas sorriram e concordaram, a mais velha veio pro meu lado e deixou apenas a Geiko maquiada e produzida ser fotografada. Martin tirou apenas esta foto e ela nos presenteou com este singelo sorriso. Reverenciamos e agradecemos bastante. Sem dúvida nenhuma foi a mais bela Geiko que tivemos o prazer de encontrar.
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E assim encerramos nossas férias no Japão. Depois de dias ensolarados, o dia seguinte amanheceu chovendo, mas pouco nos importamos porque passamos o dia todo viajando de Kyoto a Tokyo (3 horas), Tokyo a Narita (2 horas), Narita a Kaohsiung (4 horas). Arranha-céus, templos, altares, animais selvagens, rios, lagos, geishas, castelos, montanhas, tudo o que a gente queria para essa viagem. Foi uma experiência muito marcante para nós dois e certamente um país que sempre vai ter um lugar muito especial em nossas vidas.
Dewa mata, Nihon!














Oi MArcia.
Adorei o relato sobre o Japão.Me deu até vontade de visitar sabia?Não imaginei q fosse tão interessante.Obrigada.
Aline