« Shaken | Main | Our Christmas Do »

Speckle

As placas tectônicas que convergem por aqui parecem finalmente terem entrado num acordo. Houve um total de seis terremotos em dois dias. Sentimos todos eles. O saldo foi de duas vítimas fatais e 42 pessoas feridas. As linhas de telecomunicação submarinas foram bastante afetadas, ainda estamos tendo problemas com a Internet e telefone.

O terremoto principal, chamado de Hengchun, já foi adicionado na lista dos maiores terremotos do mundo, no Wikipedia. Um colega taiwanês do Martin, que tem seus mais de 40 anos, nos contou que este foi o segundo pior terremoto que ele já passou na vida. O primeiro dever ter sido certamente o de 1999, chamado Chi-Chi, que levou a vida de mais de 2 mil pessoas e destruiu mais de 44 mil residências. Até hoje encontramos rachaduras no solo em alguns pontos turísticos de Kaohsiung que se abriram durante esse terremoto.

Desde então, muito foi feito para proteger a população de uma tragédia natural como essa. Só depois de termos passado por este terremoto Hengchun é que compreendemos a razão de muita coisa que nos cerca. Moramos em dois apartamentos diferente aqui em Kaohsiung. Os dois eram apartamentos novos. E ambos tinham todas suas mobílias, como guarda-roupas, armários da cozinha, bancada de TV, estantes, espelhos e criados-mudos, tudo, tudo cimentado na parede e no chão. No começo achamos estranho esse layout, estranha essa forma fixa, essa impossibilidade de alterar a mobília de acordo com nosso gosto ou necessidade. Agora tudo faz sentido. Se nossa mobília não estivesse cimentada, o estrago certamente teria sido enorme, sem contar o risco de nos machucarmos, de algo cair sobre nós.

O prédio em si é à prova de terremotos e typhoons, todo em concreto e aço, com vidros temperados. O único grande risco é acontecer algum incidente no encanamento de gás. Foi por essa razão, entre outras, que precisamos ser evacuados dos apartamentos. Mas nada aconteceu e logo pudemos voltar.

Nessa hora, principalmente para quem nunca viveu uma situação como essa, a sensação é de total impotência contra a força da natureza. Por mais que a gente leia e decore os procedimentos de segurança, quando o tremor começa, não dá para planejar nada, pensar em nada. O tremor dura cerca de 20 segundos e, morando no décimo quarto andar, não dá pra fazer nada nesse tempo além de esperar. Não há como descer pro térreo em 20 segundos. Hell, não dá nem para andar até um lugar relativamente seguro dentro de um único quarto! O melhor mesmo é estar onde você acha que vai estar mais seguro e esperar.

Foi o que fizemos. Ficamos juntos, olhando um pro outro, sem saber o que poderia estar prestes a acontecer. "(...) to die by your side oh such a heavenly way to die..." Felizmente absolutamente nada aconteceu. No dia seguinte ainda estávamos mais traumatizados do que haviamos imaginado. O corpo dolorido pela tensão nos músculos e pelo sobe-e-desce nas escadas. A sensação estranha de que algo estava pra acontecer novamente. E essa sensação era tão forte, que no meio da manhã Martin me ligou e conversamos sobre como ambos estávamos nos sentindo esquisitos. E no meio do telefonema, outro tremor começou, um pouco mais fraco (5.9), mas ainda forte o suficiente para nos abalar. Não só os cães prevêem tremores, vejam só.

Agora já estamos nos sentindo melhores. Nada como um dia sem tremor para nos sentirmos com os pés no chão novamente. As vezes a gente perde a perspectiva do grão de areia que somos no universo. Desordeiros grãos de areia, mas grãos, ainda assim.


7 Comentários

Marcia,

Lendo você, fico pensando que é preciso muita fé para passar por um momento como esse, ou melhor, pelos momentos que se seguem. Porque acima de tudo, acho que vocês têm que acreditar que nada de mal vai acontecer com vocês!!

Como leitora antiga, estou aqui do Brasil, rezando por você o o Martin. Não deixe de dar notícias, ok?

Fiquem com Deus.

um beijo carinhoso,

Oi Ma....terremotos sao assim mesmo...Eu mesma nunca peguei um mas sei que é desconcertante.....
O importante é que vcs estao em uma terra de construçoes sismo resistentes. Sei que vcs conhecem todas as regras mas na falta de qualquer coisa, se esconder embaixo da mesa ou colocar um colchao na cabeça ajuda.
Que mais? Tanta coisa para dizer mas ao mesmo tempo, vontade de passar a mao na cabeça de vcs e dizer,,,Ok,ok, passou!
A parte boa é que as placas se mexem de uma vez e dificilmente se mexem por mais de 10 dias direto...
Se já deu um dia de trégua, fica mais dificíl ter um outro abalo forte.
Mandem notícias....
Beijos para os dois.


Sammy, sabe que na hora dos abalos pensei muito em você e seus conhecimentos sobre o chão que a gente pisa? Tive um monte de perguntas do tipo: o chão vai se abrir? vai ter outro? pode ter outro ainda mais forte? Mas você já respondeu aqui o mais importante. Pesquisamos em vários lugares e pelo jeito, uma vez que a energia é liberada, demora para acontecer novamente, né? Beijos, da Marcia

Que horror, Marcinha!! Em que planeta eu estive nesses dias que eu nem fiquei sabendo disso?
Ou será que Taiwan não existe na TV holandesa, que coisa...Graças a Deus vocês estão bem e inteiros, e isso é que importa.
Essa música do Smiths é uma das que eu quero no meu funeral! Deve ter alguma inhaca no dia 26-12, foi o dia do tsunami dois anos atrás. Bjs e boa sorte, que o chão siga firme nos seus pés!

Nossa, imagino o aperto que vcs devem ter passado. O pior é tudo o que a imaginacao produz depois do ocorrido, né? Que o ano que vem comece e termine sem novas experiencias desse tipo! Feliz 2007!!!

um pequenino grão de areia
que era um pobre sonhador
olhou pro céu, viu uma estrela
imaginou coisas de amor

passaram anos, muitos anos
ela no céu, ele no mar
dizem que nunca o pobrezinho
pode com ela se encontrar

se houve ou se não houve alguma coisa entre eles dois
ninguém soube até hoje explicar
o que há de verdade é que depois, muito depois
apareceu a estrela do mar...


grãozinhos de areia cheios de amor para vocês, querida.

Hello! Te encontrei aqui no nosso mundo de blogs...
Moro no Japão, mais sou brasileira. Gosto de poder trocar experiências com pessoas que moram fora de seu país de origem, sempre podemos dar aquela força para quem está longe... e diminuir um pouco a solidão, para quem a sente, pois existem pessoas que estão com suas famílias... não é o meu caso.
Sobre terremotos semana passada teve um aqui, assim meio fraquinho... e tufoes sempre tem tb... eu sei como é! eu estava sozinha nesse ultimo!
Bom adorei passar aqui e deixo beijinhos e feliz 2007!!!

Graças a Deus tá tudo bem... Não consigo imaginar o chão tremendo, deve ter sido assustador!!!!!

Fique bem!

Beijos