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Back "Home" from Home

Voltamos. Estivemos na velha Inglaterra por alguns dias. Não foram férias propriamente falando, mas algo como uma folga paga pela empresa para a gente checar se ainda temos teto e paredes no país de residência. Ainda temos teto e parede. E o bonus de uma colônia de mofo no canto do teto da suíte. Mas providenciamos a imediata ação de despejos dos invasores. E fizemos uma limpeza geral, trocamos o ar, deixamos a água correr das torneiras. Também tive que jogar algumas plantas fora, inclusive minha querida ficus tree, que morava conosco desde que nos mudamos.

Uma vez instalados de volta ao nosso lar, foi uma delícia redescobrir tudo o que temos lá. Pequenas coisinhas que já havia esquecido completamente que possuía. A todo instante abríamos um armário ou uma gaveta e nos maravilhávamos ao encontrar cada utensílio mais fantástico! Pratos branquíssimos! Talheres! Amassador de batatas! Concha de sorvete! Espátula de silicone! Sem contar os eletrodomésticos. Forno, my god, forno, forno, que saudades, forno, forno!! Lava-louças, kiss, kiss, love, love, kiss, kiss, I heart dishwasher!!

E nesses momentos de reencontro e êxtase percebi como aqui em Taiwan vivemos com rigidamente o mínimo necessário. E como temos sorte de termos tudo o que temos em nosso verdadeiro lar. Não apenas bens materiais, mas também natureza, quietude, ar puro de Dorset, privacidade, acesso.

Demos um rápido passeio pelo centro de Bournemouth, dormimos fantasticamente bem em nossa querida cama e depois de alguns dias seguimos para Leicestershire onde passamos boa parte do tempo na casa dos pais de Mr.M. A empresa havia alugado um carro para usarmos durante nossa estadia: um coupé conversível (??). Lá fora, frio de 8 graus, chuva, vento e um pouco de geada. O teto do carro ficou onde estava.

O tempo continuou fechado e chuvoso, a desculpa perfeita para passarmos os dias comendo tudo o que sentíamos saudades. Foi um deleite ir ao supermercado e às feiras livres e encontrar tanta verdura, tantos legumes orgânicos, ovos free-range, um mundo de sucos frescos (adorei um de romã, blueberries e framboesa do Waitrose). Comprei favo de mel orgânico, queijos brie, port-salute e cheddar maduro inglês, muita rúcula, muita lamb's lettuce (não sei como traduzir essas folhinhas arredondadas e macias, que parecem um buquêzinho na salada), muita aveia para fazer mingau de manhã.

Nos últimos dois dias de nossa folga fomos à beloved Londres para um curto passeio, sem pretensões. Primeiro fomo ao aeroporto, devolvemos o carro alugado, deixamos nossa mala no depósito. Pegamos o trem expresso até Paddington de onde andamos até o Hyde Park, passeamos pelo parque e almoçamos no Wagamama, onde dividimos a mesa comunitária com o apresentador da BBC, Ben Fogle, que sentou ao lado do Martin, enquanto a esposa dele sentou ao meu lado. Te contar, viu? A gente cuidando da nossa própria vida e essas celebridades ficam o tempo todo querendo dividir a mesa conosco... O tal apresentador é bonitão, famoso e tal, mas tinha um papo de fazer boi dormir. Na verdade tivemos a impressão de que ele queria ser reconhecido, queria dar autógrafo ou sei lá, porque só se ouvia "quando eu fiz tal e tal programa/ quando eu apresentei isso e aquilo..." e um blablabla vazio de comprar uma casa maior, de um milhão de libras pra cima (casas na região central de Londres, custam mesmo mais de um milhão). Yaaawn. Mr.M disse que sentiu vontade de falar: "oi, are you the bloke off the telly? I know you from X-Factor" só pra irritar, hehe. ("Oi, cê é o moço da tevê? Te conheço do X-Factor" -- X-Factor é programa popular da ITV e o apresentador também chama-se Ben, mas é Ben Sheppard, hohoho).

De barriga cheia, caminhamos até Knightsbridge, demos uma passada na Harvey Nichols Food Hall, que não nos impressionou em nada. Passamos pela Harrods, onde havia um comitê do PETA pedindo ao público boicotar a loja pela venda de pele de animais. Duvido que quem compre pele tenha ficado um centímetro abalado com o protesto. Caminhamos então até South Kensington, onde ficava nosso hotel. Percebeu que não tomamos o metrô nenhuma vez? Passamos o dia todo usando nossas pernas apenas, foi excelente, não fazíamos isso há muito tempo. Jantamos num restaurante italiano divino, especialisado em pizza em forno de lenha. Massa divina, molho de tomate divino, tudo na divina medida certa, sem exageros.

O dia seguinte amanheceu com chuva, tomamos um maravilhoso café da manhã na patisserie Paul e visitamos mais uma vez a exposição Wildlife Photographer of The Year, que acontece todo ano no belíssimo Natural History Museum. Este ano a exibição está fantástica.

Ainda nesse museu, seguindo a dica da minha amiga Samara, testamos o simulador de terremoto Great Hanshin, de Kobe, no Japão. Queríamos comparar com o terremoto que sentimos no dia 26 de Dezembro, em Kaohsiung. Mas nos decepcionamos. Não é de forma nenhuma uma simulação da potência real de um terremoto de escala 7.3 Richter. No way. O que o simulador faz no museu é apenas balançar de um lado pro outro horizontalmente, fraquinho, talvez pra não causar acidente mesmo. A vibração do chão, o ruído do metal sendo torcido, a força de ser jogado no chão contra sua vontade, não estão presentes. Mas as imagens do vídeo que mostra o real terremoto acontecendo em Kobe, essas sim são de arrepiar e impressionar.

E na saído do museu, passamos pela obrigatória área de dinossauros e dei muitas risadas com os banners da exposição Dino Jaws, que explica os hábitos alimentares das diversas espécies de dinos. Um deles tem um dino herbívoro dizendo: "Meat? It's soooooooo not me..." ("Carne? Não é a minha meeeeesmo..."). Outro tem um T-Rex dizendo: "I've tried leaves once. It gave me wind..." ("Eu provei folhas uma vez. Me deu gases..."). E outro herbívoro: "What? Rotten meat? You mean meat, like, left to rot? Eeeeeewww..." ("O quê? Carne em decomposição? Você quer dizer carne, tipo, apodrecida? Ecaaa").

Deixamos o museu, fomos até a Selfridge para almoçar sanduíche de salt beef no Brass Rail. Atendimento horroroso, preço ridículo de caro, mas o sanduba estava bom. De lá caminhamos mais um pouco, mas com a chuva tudo ficou mais difícil e desconfortável. Logo rumamos pro aeroporto, para recolhemos nossa mala e pegarmos o vôo para Hong Kong. Aliás, Heathrow está insuportável. Na área de embarque agora é necessário:

- ter apenas 01 (um) item como bagagem de mão. Laptop e bolsa? Não. Câmera e maleta? Não. Um item, escolha quem vai, quem fica. Ou coloque um dentro do outro, se couber.
- separar o laptop e colocá-lo em saco plástico fornecido pelo aeroporto
- separar suas toiletries como mini-pasta de dente, mini-shampoo, mini-cremes hidratantes e qualquer outro mini-produto líquido e colocá-lo num saco plástico zip, também fornecido pelo aeroporto. Produtos não-mini? Pro Lixo.
- garrafa de água? Lixo.
- mamadeiras só com leite em pó. Leite materno? Abra e dê um gole na frente dos agentes.
- tirar os sapatos e colocá-los na esteira de raio-X, junto com seu único item de bagagem de mão.

Nossa sorte é que cada vez mais estamos nos esforçando na concepção "travel light". Viajamos com uma única mala, um item de bagagem de mão cada, sendo que a de Mr.M era só a câmera, a minha só uma bolsa. Usamos três diferentes companhias aéreas nessa viagem e, de todas, a British Airways foi a pior. Atendimento pouco prestativo (quando atendem), aeronave desconfortável, refeição meia-boca, lista de filmes velhos (o mais recente era 007 Cassino Royale). A Cathay Pacific (de Hong Kong), porém, tem todos nossos elogios, atendimento fantástico, refeição agradável, filmes ótimos (assistimos a The Queen). E a pequena Dragon Air também, não podemos ser injustos, já que o vôo estava quase vazio e nos colocaram na business class, êba.

Passamos uma noite em Hong Kong, tiramos novos vistos e voltamos ontem a noite a Kaohsiung. Ainda estamos sofrendo bastante com o jet-lag porque é sempre pior voando a leste, mas estamos nos sentindo bem por estarmos de volta. O recepcionista do prédio nos saudou e quis saber como foram nossas férias, perguntou do frio e tudo mais. Dizem que a melhor parte de uma viagem é sempre a volta. Desta vez viajamos de volta ao nosso lar, que foi bom, depois viajamos de volta ao outro lar temporário, que também é bom. Então voltamos e voltamos. E essa deve ser a melhor parte. Ainda temos bons meses pela frente aqui em Taiwan. Bring 'em on.


15 Comentários

Welcome back!

Como sempre teu texto é emocionante. E te ver descrevendo minha amada England é maravilhoso. Me senti voltando para aquele pais e revendo tudo que um dia vivi.

Thanks my dear!

Marcita, que bom "ler" você de novo! Imagino que as férias em casa tenham dado uma revigorada e recarregado as pilhas para continuar na temporada Taiwan, né?
Welcome back!
beijos
Márcia

Voce voltou!!!! Voce voltou!!!! Que bom ler sobre a sua viagem e saber que esta tudo bem com voce e que seu apartamento continua de pe.
Um grande abraco e tudo de bom,
Sua fa - Josi

Nossa, quanta coisa vocês fizeram em tão pouco tempo! Eu sou muito caseira então imagino como deve ser ter que morar tão tempo temporariamente no esquema que vocês estão ai. Fiquei surpresa pela British estão tão ruim no atendimento, se bem que voei com eles faz um milhão de anos, nem conta mais...
abs
Leticia

Deve ter sido dificil embarcar de volta para Taiwan depois de ter finalmente chegado em casa depois de tantos meses! Mas pelo menos voces aproveitaram bastante esse rapido retorno. Qual a previsao de voces voltarem de vez? Ainda falta muito? Beijos! Lu

Puxa, que legal voltar para casa! Então pelo jeito o retorno definitivo ainda vai demorar um pouco (se bem que algo me diz que, pela natureza do emprego de Mr M, não será a última viagem de vocês). E pelo jeito não há muita variedade de comida em Taiwan, né? Ben who? Já tô meio por fora desse mundinho de celebridades inglesas! Eu já ouvi muita gente dizendo que a British tá mesmo uma caca, mas também, foram botar para dirigí-la o cara da Aer Lingus, que só sabe cortar custos! E não quero mais saber de vôos com escala no UK, esse negócio de segurança tá muito chato mesmo. Bjs,

É sempre com fazer esses retornos, e pelo visto vocês aproveitaram cada minutinho!

Heathrow está um pé no saco, sim. "Security measurements". Aham. Pra mim é inconveniência pura - quem quer fazer coisa ruim, faz e pronto. Mas olha, MUITO pior que a BA é a FlyBe. Pelo menos a primeira VOA. A FlyBe podia ser rebatizada como FlyMAYBE.

Oi Marcinha, vi seu relato no site do OILONDRES, achei super interessante, e o seu caso é super parecido com o meu, tipo, tenho algumas duvidas sobre a documentação que tem que mandar para a embaixada britanica aqui no brasil, sou brasileira e meu noivo italiano. Tenho duvida na parte de como comprovar o relacionamento, principalmente: A embaixada aceita e-mails trocado antigos como prova? essas são minhas duvidas sabe, coisas pequenas, se voce poder me mandar um e-mail, poderiamos conversar melhor??? te agradeceria desde ja. um beijo e felicidades.

Até que enfim vc deu notícias!

Eu também tenho saudades de ir comprar frutas, verduras em feiras livres, e ainda comer um pastelzinho hihihi!!! Aqui no Japão, só compro em supermercados, é uma pena. E por falar em terremoto, eu morro de medo, pois não é que outro dia, eu senti um tremorzinho bem de leve? parecia que passou uma anaconda por debaixo da terra.
Um gde abraço
Madoka

Ola sempre venho aqui e estava com saudades de ler o que vc escreve, na verdade não sou muito boa em escrever ... mais adoror ler e atraves de uma amiga que tb é fansoca do que vc escreve me sugeriu um artigo sobre crianças, eu tenho duas O rodrigo de sete anos e a Camilla de onze meses ..... e estou os criando em outro pais tb ....e eu encontrei e começei a ler tudinho pra ver se encontro o que vc escreveu ( algo parecido como um bb pra crianças, foi assim que minha amiga resumiu ) bom dai que eu não consigo parar de ler e estou lendo cada linha escrita ... vibrando, torcendo ( diga se que ainda não achei o artigo mais to gostando, e queria dizer que senti falta e fiquei contente com a sua volta Um dia eu termino de ler tudo ai sim eu volto aqui .... Fique com Deus e vc foi u m achado muito legal, descontraido e foi bom ter encontrado Obrigada
( Me desculpe por escrever tanto e como te disse não levo jeito com a escrita beijinhos )

Olá Marcinha!
Parabéns pela delícia que é o teu cantinho! Você escreve de uma maneira cativante. Já pensou em ser escritora? (Aposto que já!).

Bem, deixe-me apresentar rapidamente: sou professora universitária, já morei na Inglaterra e E.U.A., e sou casada com um americano. Cheguei ao teu blog quando fiz um search sobre "tinnitus" e "zumbido". Pois é, eu também tenho, há um ano e meio. E, aos pouquinhos, estou desmistificando e tentando me interar do que posso ou não posso fazer. Você me deu algumas informaçoes valiosas, Marcinha, especificamente num post que menciona uma conversa com um especialista, coisas que fizeram muito sentido para mim e jamais tinham sido abordadas pela minha médica. Fiquei, então, sabendo que o tinnitus pode ser uma resposta cerebral à minha (pequena) de perda de audição. Noto que tem piorado, pouco a pouco. E eu óbvio que faço que nem é comigo, mas nem sempre funciona. Gostaria de saber se você poderia me escrever um email me contando de como o tinnitus respondeu ao teu ultra charmoso e ultra pink 'hearing aid'. Se você sabe se há algo novo no mercado e se poderia me indicar algum(ns) site(s) sobre o assunto.

Desculpa o longo comentário. Talvez seja o caso de nem publicá-lo, uma vez que ele é totalmente off-topic.

Desejo a você e ao Mr. M. toda a sorte do mundo e, se não se importar, vez por outra, virei me deliciar com as tuas histórias e com as tuas receitas!!

Um abraço brasileiro,

Cris Smith

Oi Márcia,

Pesquisando na web sobre o Monkey world acabei descobrindo seu site, que por sinal é de encantar.
Quanta inveja fiquei de você..
Sou apaixonada pela vida animal e principalmente pelos primatas.
Os animais precisam muito de nosso amor, de nossas palavras e, principalmente, de nossa coragem para lutar pelos seus direitos a uma vida digna, por isso, decidi me dedicar a esta causa. Somando cada vez mais pessoas, estaremos fortalecendo a idéia de que, para sermos felizes, precisamos lutar em prol do bem estar geral, precisamos ser voluntários, assim cada um poderá dar a sua contribuição.
Atualmente estou tentando vestibular para Veterinária e tenando uma vaga como voluntária no ZOO de Belo Horizonte onde moro.
Quero deixar aqui minha admiração pelo seu site e pedir um grande favor se possível.
Quero mandar uma correspondência para Jim e Alissom do Monkey World, tenho aqui um endereço mas não estou segura de que é mesmo esse o correto:

(Monkey World Ape Rescue Centre - Longthorns, Wareham, Dorset BH 26HH)

Você pode me ajudar?
Um grande beijo
Michelle

Oi gente...
Que bom que vcs deram notícias. Acompanhar os passos de vcs de volta a UK (e acompanhar visualmente até os lugares) me deu uma deliciosa sensaçao de nostalgia.
Quanto a simulaçao, vcs me tiraram a dúvida...como nunca passei por um terremoto, achei aquela simulaçao fraca mas nao tinha a certeza que era ou nao era daquele jeito. Agora vcs me esclareceram que nao. Mas é interessante a idéia e eu vi muita gente assustada na simulaçao..
No mais, tivemos por aqui a fantástica visita de 20 horas de duraçao de Bush. Parou a cidade (literalmente), fecharam ruas, inclusive a pista expressa da Marginal. Uma beleza. E com a mídia alardeando que afinal era preciso pois o DONO DO MUNDO estava na colônia. :)
Boa volta ao segundo lar, tenho certeza que os momentos agora serao mais doces que os primeiros. Beijos

Oi Marcinha! Que bom ver um nove post seu... fazia tempo!! Pelo que voce escreve parece que curte muito Londres, ne? Eu que trabalho no centrao nao vejo a hora de pegar o commuters' trem no final do dia e ir embora pros suburbios... where the air is cleaner and the grass greener! :0) Anyway, tenho certeza que foi muito dificil fechar as malas, trancar a casa e voltar pra Taiwan pra mais uma temporada. Falta muito ainda?? Beijos e tudo de bom! L

Prazer, o modo que vc descreve suas passadas é muito bacana.
Cai aqui pois estava procurando algo sobre gyosa, acabei meio que lendo um pouquinho mais ...