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outubro 23, 2007

Such Little Thing

Se há algo que aprendi durante a estadia no apartamento em Kaohsiung é que às vezes a gente nem se dá conta de que a falta de pequenas coisinhas faz da nossa vida uma pequena miséria. Mudar é sempre um stress porque o lugar novo não tem nenhum apelo sentimental ainda, tudo é novo e estranho. E junte-se a isso a falta das suas tais coisinhas e nada mais parece confortável, seguro, quentinho, macio.

Por essa razão, quando deixamos nosso apartamento em Bournemouth, carregamos o carro com tudo o que pudesse caber em cada centímetro cúbido do veículo. Nada foi poupado, nenhum espaço ficou vazio. O carro quase que nem saiu do lugar de tão pesado. Mas assim viemos para Sheffield, com todas as coisonas possíveis. Lembra que eu havia comprado edredon, travesseiros e roupa de cama tudo novinho e baratinho na Primark? Pois então, hoje tudo isso está no quarto de hóspedes porque agora a gente usa nosso próprio edredon e travesseiros queridos, com as roupas de cama amigas que são tão familiares (até passei tudinho, veja só o desespero).

E trouxe quase todos meus instrumentos de cozinha, minhas panelas, minhas facas afiadas, nossos pratos com desenhos de pimenta, nossas canecas e xícaras favoritas, talheres, hashis, a indispensável kettle, torradeira, formas. Trouxemos também mais roupas quentes pro inverno do norte, cada um de nós trouxe calças "de ficar em casa" (leia-se: cintura de elástico), abajour, câmeras, telefones, ferramentas, ferro de passar.

Enchemos a geladeira e os armários de muita comida, adotei um vaso de flor (Christmas Cactus), instalamos linha telefônica e intertelecibernética, cozinhei todos os dias e todas as noite.

Ainda não nos sentimos em casa, muita coisa ainda ficou lá no sul, todos os móveis obviamente, mas também nossa TV (e não temos nenhuma outra aqui), livros, cassarolas de ferro, sapatos. Mas tudo o que trouxemos têm feito uma enorme diferença no conforto e no bem estar da população que habita este recinto temporário. A gente dá mais risada, come muito mais, dorme muito melhor. Talvez porque quando a gente abre uma gaveta ou uma porta de armário a gente encontra o que procura e não precisa mais ficar fazendo planos mirabolantes para contornar a falta de algo não temos (exemplo: abrir uma lata sem abridor de latas). Ou talvez, mais provável, porque dentre tudo o que veio de Bournemouth, incluimos Pickles, Ted, Slackajack e Picklezinho para dividir o sofá e o chá conosco, no meu mais que favorito cobertor de Stegossaurus. Ah, the ol' good life...


Escrito a mão pela Marcia às 4:25 PM | mais em M&M Homeless - Big Issue, Sir?

outubro 9, 2007

Seeking Home

Uff. Cansada é uma palavra que nem começa a descrever meu calamitoso estado físico, psíquico e alimentício. Continuamos com a nossa vida nômade e sem-teto durante essas semanas que se passaram. Voltamos para Bournemouth no domingo, onde finalmente tenho acesso novamente à vida cibernética (ainda se usa essa palavra ou obsoleta é meu segundo nome?) ainda que discada.

Finalmente deixamos o Hotel Meia-Boca para sempre. Encontramos um apartamento bacaninha para alugar e nos mudamos pra lá sem absolutamente nada a não ser nossas roupas, lençóis, edredon e toalhas da Primark, papel higiênico e duas canecas. Minha cunhada foi ao nosso resgate no dia seguinte a nossa mudança e nos providenciou duas panelas, uma faca afiada, um abridor de vinho. E assim sobrevivemos até agora.

Mas onde estamos? Pra onde fomos? Algumas dicas: Michael Palin. Joanne Harris. Advinhou? Full Monty. Não? Humm, vejamos. Revolução Industrial. Aço Inoxidável. Ainda não? Ok, eu conto então...

Estamos na cidade de Sheffield, berço de tudo isso aí do parágrafo acima. E Sheffield fica no estado de Yorkshire, região famosa pelo chá e bolo do mesmo nome, além de paisagens bucólicas de Peak District.

Ainda estou me familiarizando com o novo lugar. Minha primeira impressão foi boa e mesmo agora, depois de três semanas, acho que ainda gosto de lá. Muito mais do que gosto de Bournemouth. Mr.M morou em Sheffield por muitos anos, antes de se mudar pro sul, onde vivemos por seis anos. E mesmo pra ele está sendo também um período de adaptação, já que a cidade está em pleno processo de modernização. Sheffield foi um dos centros da Revolução Industrial na Inglaterra no final da era Medieval, com inúmeras indústrias de mineração e engenharia. Depois de muitas décadas, Sheffield sofreu um declínio intenso, quando muitas fábricas entraram em crise e fecharam suas portas. Hoje, grandes áreas onde antes existiam apenas ruínas dessas indústrias foram demolidas e no lugar surgiram vários complexos de apartamentos modernos, teatros, museus, parques e centros comerciais.

Moramos atualmente perto do centro, numa área cercada de vários campi da conceituada Universidade de Sheffield. Ao nosso redor temos a faculdade de medicina, psicologia, arqueologia e paleontologia, artes cênicas, além de muitas outras. Nossos vizinhos são, portanto, basicamente estudantes, um tanto barulhentos, mas com uma certa quantidade de massa cinzenta entre as orelhas. Além disso, à curta distância, temos o maior supermercado Waitrose da história do mundo dos Waitroses e também um tranqüilo jardim botânico.

Este porém, não deve ser o lugar em que vamos morar futuramente. O contrato de aluguel do novo apartamento é de seis meses e durante esse período estaremos à procura do novo lar dos M&M. Estamos pensando em algum lugar fora de Sheffield, alguma cidade menorzinha com mais vacas e ovelhas. Mas por hora, nossa atenção está voltada ao apartamento aqui de Bournemouth, que vai ser colocado à venda nesta semana. Em geral, na Inglaterra, imóveis no mercado precisam estar em excelente estado de conservação para serem anunciados no preço mais rentável possível. Não é uma exigência tão rigorosa quanto nos EUA, mas ainda assim precisamos deixar tudo em ótima apresentação. Então estamos afundados em pinturas, consertos, limpeza, arrumação e decoração.

Todas essas mudanças, todas essas viagens e todas essas coisas pra fazer e pra pensar têm sido bastante estressantes. Minimos detalhes, grandes detalhes, tudo isso afeta o sono, o ânimo, a vontade de viver, a fé em Gandalf the Grey. Não seria tão difícil se não precisássemos viajar por quatro horas a cada vez que a gente tem que ir e vir de Sheffield. Mas é preciso. Logo estaremos deixando este nosso primeiro apartamento, onde colocamos cada lâmina do piso com nossas próprias mãos, onde muitos planos e bolos foram feitos, onde copos e sonhos foram quebrados, tudo, tudo sob o mesmo teto. Esta deve ser a última semana que passaremos aqui e há tanto, tanto a se despedir. E nada, nada a responder.


Escrito a mão pela Marcia às 8:06 PM | mais em M&M Homeless - Big Issue, Sir?

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