« "Cheesecake?! A Cake... of Cheese?!" | Main | "Now my Heart is Full..." »

The Choice of Freedom

Na semana passada, a maior discussão nacional ficou por conta das galinhas. Dois chefs, Hugh Fearnley-Whittingstall e Jamie Oliver, exibiram em mínimos detahes a crueldade da produtividade em massa de ovos, frangos e galinhas em dois programas que duraram quatro dias, respectivamente chamados Hugh's Chicken Run e Jamie's Fowl Dinners, exibidos no Channel 4.

A proposta de ambos programas não é de condenar o comércio de frango. Nem tão pouco de incentivar o vegetarianismo em favor dos animais, mesmo porque o ovo-lacteo-vegetarianismo também contribui na produção ainda mais cruel que é a indústria de ovos. Vamos ser bem realistas aqui: o mundo inteiro não vai virar vegetariano da noite pro dia. A demanda por carne sempre vai existir e a realidade é que ficar catequisando carnívoros a se tornarem vegans não resolve os problemas de maus-tratos a animais.

A grande proposta é de mudar hábitos, é de se manter consciente de como o animal chega à sua mesa. É de informar e alertar os consumidores de fatos quase secretos dentro do comércio de frangos e ovos. É de incentivar a escolha pelos animais free-range, criados soltos no pasto, atingindo seu peso naturalmente. É de pagar mais por melhor qualidade e comprar menos.

Que a produção de galinhas confinadas é cruel todo mundo de uma certa forma já sabia, mas o que ambos programas exibiram foram quão miseráveis são as condições em que as mesmas são submetidas, em todos os mínimos detalhes.

Por exemplo: quanto tempo você acha que um frango dessa produção confinada em celeiro leva para engordar, desde que nasceu do ovo até o dia do abatimento para ser vendido no supermercado? Um ano? Seis meses? Três meses?

E nessas produção confinada quantas galinhas você acha que vivem num metro quadrado? Imagine um metro quadrado no chão, quantas galinhas você acha que caberiam ali? Seis? Oito? Nove?

E sabendo-se que o preço médio de um frango inteiro aqui na Inglaterra custa £2,99 quando você acha que o produtor recebe de lucro desse valor, por cada frango? £0,99? £0,50? £0,25?

Pois então, eu achava que sabia todas essas respostas, com meu bom-senso. Estava bem, mas bem errada.

Cada frango criado em confinamento em celeiro leva 39 dias para crescer e engordar, desde o ovo até o abate. Os animais são expostos à luz artificial por 23 horas por dia. Então eles comem, bebem, fazem cocô, comem, bebem, fazem cocô por todo esse tempo. Dormem por uma hora e tudo começa novamente. Assim engordam de forma pouco natural, e em poucos dias não conseguem mais andar porque os ossos não se desenvolveram na mesma velocidade que a carne. Mas há ainda uma outra razão porque eles não conseguem andar.

Em um metro quadrado de confinamente, são criados 17 frangos. E conforme vão crescendo o espaço vai ficando menor e os frangos ficam praticamente imóveis, com membros atrofiados, pés queimados pela amônia dos cocôs acumulados, penas caindo.

O produtor desses infelizes frangos recebe de lucro, em média, £0,03 por cada frango. E quando chegamos a este ponto, encontramos as raízes de toda essa produção cruel, a razão desse comércio insano. As grandes vilãs dessa história são as grandes redes de supermercados, que atendem pelos nomes de Tesco, Asda (Wal-Mart), Morrisson, Sainsbury's e afins.

São essas redes que exigem do produtor um número enorme de frangos, oferecendo margem de lucros irrisórias. Caso o produtor recuse, os supermercados começam a importar frangos de outros países, como Tailândia, China, India e países do oriente médio. Para não perder mercado, os produtores se vêem forçados a produzir frangos em larga escala, no menor espaço de tempo possível.

Hugh e Jamie atacaram diretamente cada rede de supermercado por toda essa situação. Tesco, Asda e Morrisson se recusaram a filmar entrevistas, despejando a culpa nos consumidores, dizendo que eles vendem esses produtos porque a demanda exige e porque o público-alvo deles não podem pagar por frangos free-range.

Sainsbury's, que aliás patrocina Jamie Oliver, se comprometeu a exterminar de suas prateleiras qualquer frango que não esteja dentro das normas de Animal Welfare ou que não sejam free-range até o final de 2008. O Waitrose foi o único que participou de todos os programas, uma vez que eles têm orgulho de ser o único supermercado que vende frangos e ovos exclusivamente free-range e pagam seus fornecedores de forma ética e sustentável.

Nesse ponto a discussão estava correndo o risco de ser elitista: quem pode pagar free-range, paga. Quem não pode, come o frango frankenstein do Tesco, que come e caga 23 horas por dia. E foi então quando a RSPCA entrou na história para informar que há um meio-termo, há uma forma de se criar frangos em larga escala e ainda assim oferecer bem-estar para esses animais durante todo o período de suas vidas penosas.

Há um programa criado pela RSPCA, chamado Freedom Food. Nesse programa, os animais ainda são confinados em grandes celeiros, mas em menor escala, com 25% mais espaço do que nas indústrias comuns. A iluminação do celeiro é natural, com períodos de luz e escuridão normais, com janelas abertas quando o tempo permite. Além disso, todo o ambiente é preparado com poleiros, móbiles de CD's, bolas coloridas, espigas de milho e outros objetos para que os animais continuem ativos, voando, bicando e ciscando em tudo o que achar interessante.

Muitos supermercados já participam desse programa e vendem frangos com o selo Freedom Food, mas as vendas são irrisórias comparadas com os frangos infelizes. A diferença de preço do frango infeliz confinado e do frango do RSPCA Freedom Food é de apenas £1. E a RSPCA implora para que os consumidores que podem pagar essa Libra a mais pelo frango Freedom Food que pensem em quanta diferença essa Libra faz para a criação justa e sem crueldade, pelo pagamento ético ao produtor e obviamente pela qualidade superior do produto final.

É claro que há muitos que não podem pagar por esse tipo de frango, famílias em difíceis condições onde o frango é o último de seus problemas. E na realidade, acredito que por muitos anos ainda vai haver frangos baratos nas prateleiras do supermercado, vindos de industrias intensivas, exclusivamente para essa fatia de mercado. Mas há também uma grande parcela de consumidores que podem pagar mas que não compram por pura falta de informação. Ninguém gosta de passar horas lendo rótulos no supermercado (só eu). No máximo uma rápida comparação de preços e pronto, coloca o frango mais barato no carrinho. Agora com todas essas campanhas acredito que muitos vão parar por mais alguns segundos e procurar pelos orgânicos, free-range ou Freedom Food. E se dentre esses, pelo menos a metade escolher os free range, grandes mudanças virão pela frente.

E não há como negar que este país ainda é uma ilha, que idéias espalham rápido de norte a sul e que mudanças ainda são possíveis de se realizar. Há pouco tempo atrás houve a mesma discussão a respeito de ovos produzidos de maneira intensiva e cruel. Os consumidores acabaram concordando com a campanha e hoje 27% dos ovos vendidos no Reino Unido são free range. A partir de 2012 toda produção de ovos com galinhas presas em gaiolas será banida e proibida na Inglaterra, pelas leis de Animal Welfare da União Européia. A grande esperança é que o mesmo aconteça com os frangos, mesmo que de grão em grão.

Do filme Chicken Run:

Ginger: You know what the problem is? The fences aren't just round the farm. They're up here, in your heads. There's a better place out there, somewhere beyond that hill, and it has wide open places, and lots of trees... and grass. Can you imagine that? Cool, green grass.
Babs: Then, where does the farmer live?
Ginger: There is no farmer, Babs.
Babs: Is he on holiday?
Ginger: He isn't anywhere! Don't you get it? There's no morning head count, no farmers, no dogs and coops and keys, and no fences.
Bunty: In all my life, I've never heard such a fantastic load of tripe. Oh, face the facts, ducks. The chances of us getting out of here are a million to one.
Ginger: Then there's still a chance.
Ginger: Listen. We'll either die free chickens or we die trying.
Babs: Are those the only choices?

Update 28/02/2008: Matéria de primeira página do The Independent afirma que as vendas dos frangos infelizes confinados caíram para mais de 10 milhões de unidades e que as vendas dos frangos free-range aumentaram em 35%, comparando com o mês anterior ao da campanha.


7 Comentários

Pois é, volta e meia esqueço a metade dessa história que já sabia (só sabia mesmo a metade)
e reclamo com meu marido, biólogo(!), por ir longe buscar um galinha/frango caro, se é só atravessar a rua para tê-los a preços tão normais...

A gente aqui consome muito pouco ovo e basicamente nenhum leite (a Lydia tem intolerância).

Quando precisamos de ovo para alguma receita especial, vou até a fazenda perto daqui e compro deles, onde eles são criados nesse esquema Freedom Food... quando fui lá pela primeira vez pedi para olhar onde as galinhas moravam, a tiazinha me levou lá e mostrou tudo.

Eles não usam antibióticos, não alimentam as galinhas com tranqueira, não cortam os bicos delas, etc, mas os ovos que eles vendem são de preço comparável aos do supermercado.

Claro que reconheço que nem todo mundo mora a 20 minutos da criação de galinhas... mas essa conscientização leva esses ovos até os supermercados no meio da cidade. Basta exigir.

No Brasil há espaço físico para a produção free-range, mas como mudar a mentalidade? A carne tem outro sabor. Os ovos mais cor e a nossa saúde agradece!
Bjs

Pois é.... são poucas as pessoas que se preocupam em procurar esse tipo de dados. A realidade imposta pelo homem para essas pobres criaturas é extremamente cruel. Quem me dera conseguir virar vegetariana... já assistiu ao documentário Terráqueos? Recomendo...

Passei por aqui pela primeira vez. Gostei. Vou linkar, para visitas posteriores. Muito prazer!

Tomara que com esses argumentos eu consiga convencer o Paul a comprar ovos Free Range ou Freedom Food, pois ele nao acredita em nada disso... pode??? Eh sempre um debate no supermercado!?!?!?

Como é bom saber que em países como os daí exista a preocupação com o bem estar animal e que isso seja discutido na televisão.. aqui no Brasil..afff é muito díficil, pela condição do povo e pela necessidade que os governantes tem em manter a população na ignorância...

Estou tentando me tornar vegetariana, por amor os bichos mesmo, mas o difícil não é nem a carne e sim os embutidos que amo...

Vale a pena assistir a esses videos do meatrix começei a me conscientizar quando vi pela primeira vez..

http://www.themeatrix.com/intl/brazil/
tem o site em inglês também..
Continuo lendo seus posts marcinha, agora que vc tocou neste assunto ainda mais :)

Querida Marcia,
Depois de ler seu post passei a comprar apenas ovos bio aqui em Berlin (frango ainda não achei). Eu sabia que as condições de criação eram intensas, mas não o quanto !!!
Descobri seu blog em dezembro, procurando por uma receita de molho de laranja (!), e desde então venho lendo quase diariamente, desde o começo. Não pude deixar de postar um comentàrio, pois tantos pedacinhos da sua vida expostos aqui me emocionaram, além de me reconhecer em vàrias situações (mesmo em coisas simples como a falta de requeijão e pão de queijo!).
My best wishes to both of you!