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Giving Something Back

Este post teve origem ao assistir um programa do Channel 4 chamado The Secret Millionaire. Para quem está em UK o programa vai ao ar nas segundas-feiras, o que é um ótimo "feel good program" para afastar Monday's blues. Eu não sei se para quem está fora do Reino Unido é possível assistir pela Internet, mas se for, clique no link acima para conferir os episódios passados desta série. Ou tente este link do YouTube para ver um resumo dos episódios de outros anos.

A fórmula do programa é simples, um pouco piegas, mas enfim: multi-milionários disfarçados passam uma semana em alguma região carente da Inglaterra (e existem muitas regiões carentes por aqui) ajudando a entidades de caridade como voluntários e vivendo com salário mínimo. Eles explicam a presença das câmeras dizendo que estão fazendo um documentário a respeito da recessão e passam por experiências jamais imagináveis e conhecem pessoas incríveis no processo. No final, os milionários revelam sua identidade e fazem doações generosas para essas entidades.

Para ser honesta, esse programa existe há muitos anos e eu nunca prestei muita atenção. Achava que era mais um daqueles programas em que um milionário mimado sente o gosto do remédio amargo que é viver do outro lado. Porém, quando assisti a um episódio fiquei impressionada. Eu estava sendo injusta e preconceituosa com o tema do programa. Os milionários em questão são geralmente bastante carismáticos, abertos a todo tipo de experiência e principalmente empáticos, de bom caráter e generosos, independente da conta bancária. Não se vê nenhum deles reclamando de nada, muito pelo contrário, muitos revelam como a experiência trouxe mais sentido e valor na vida deles.

Mas o que mais chama a atenção nesse programa é ver a atuação dos voluntários dessas entidades de caridade. As entidades mostradas no programa não são aquelas populares que todo mundo já conhece e ajuda. Elas são pequenas, locais e voltadas para a comunidade da região, geralmente fundadas por pessoas que dedicam suas vidas a quem precisa, sem julgamentos e sem preconceitos. Há entidades que dão comida para quem mora nas ruas, sejam alcólotras, drogados ou miseráveis. Outras que ajudam prostitutas oferecendo a elas um quarto, roupa limpa, preservativos e apoio para saírem das ruas. Outras produzem entretenimento para adolescentes em vias de se tornarem criminosos. Outras são casas para doentes terminais (chamados hospices) que dão tratamento paliativo e um ambiente menos depressivo que um hospital.

Uma das que mais me tocou, porém, foi uma que dá apoio a refugiados, Refugee Action. Há muita informação errada e muito preconceito ao redor do tema e é excelente que um canal aberto como o Channel 4 tenha dado espaço para essa entidade explicar o que é fato e o que é mito espalhado irresponsavelmente por tablóides desinformados e partidos de extrema direita, que rotulam todo e qualquer refugiado como criminosos, folgados e desordeiros. Os fatos mostram que muitos refugiados têm ensino superior e que tinham uma vida estável em seus países antes da crise/guerra/Mugabe que os afetou. E que a maioria quer trabalhar, se não fosse a imposição do Home Office de negar visto de trabalho até que o visto de entrada seja aceito, forçando os refugiados a mendigar e a viver nas ruas. Entidades voluntárias como o Refugee Action dá abrigo e comida a esses refugiados e ajudam-os no processo de imigração legal e dão apoio para que encontrem empregos.

O programa também mostra indivíduos que não fazem parte de nenhuma instituição, mas que dão seu apoio valioso e autruísta, da forma que lhes cabem. Crianças que cuidam de seus pais ou mães deficientes; idosos que ajudam asilos em memória da esposa ou esposo que se foi; pais que tentam arrecadar fundos para pagar tratamentos dos filhos doentes em outro país.

Enfim, o que tinha tudo para ser um programa meloso e apelativo se transforma em algo infinitamente revelador, que abre a sua mente para o que realmente importa nesta vida. A maioria de nós sequer temos a menor idéia do que é passar fome, do que é dormir no chão da rua no inverno, do que é ter que vender seu corpo e estar vulnerável a todo tipo de abuso, do que é ser totalmente invisível mendigando na cidade, do que é ser tratado como assassino quando tudo o que você quer é uma única chance de reconstruir sua vida.

Mas oh, somos tão rápidos para julgar, apontar dedos acusadores, fazer discursos demagogos vazios, repetir feitos papagaios idéias preconceituosas prontas e fáceis, quando estamos com o traseiro sentado no sofá, dentro da casa quentinha e de barriga cheia. A grande diferença que faz desses voluntários tão especiais é que ele ajudam antes de mais nada. Ajudam sem ter nenhuma intenção religiosa, auto-promocional ou insincera. Ajudam quando todo o resto do mundo virou as costas, ajudam porque sabem o que é estar do lado daqueles que precisam de um abraço, de um sorriso, de um mínimo de encorajamento que lhes devolvam o que foi perdido há muito tempo: a dignidade. E o resultado são várias histórias de beneficiados que deram a volta por cima, que mudaram o rumo de uma vida que estava fadada a uma morte indigente.

O final do programa é sempre com muitas lágrimas e abraços, quando os milionários revelam suas identidades e as doações. Para a maioria deles, porém, dar um cheque não é o suficiente e muitos oferecem os serviços de seus empreendimentos para ajudar as entidades seja comprando novas instalações, equipamentos, automóveis ou simplesmente pagando viagens de férias para voluntários que merecem um descanso. E continuam em contato para manter esses portos seguros sempre funcionando.

E obviamente, o ponto principal do programa é mostrar que não é preciso ser milionário para fazer diferença. A generosidade dos voluntários é maior do que qualquer cheque assinado.

Impossível assistir e não ter vontade de fazer algo, seja via doações, seja dando uma mão para entidades similares, o que é um dos mais importantes efeitos colaterais do programa. Impossível assistir e não reacender um mínimo de esperança na humanidade. Impossível não deixar de pensar em como somos privilegiados porque somos aqueles que doam e não aqueles que precisam receber.

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Mais do que nunca estivemos envolvidos com instituições de caridades nesses últimos anos. Ajudamos a duas, próximas dos nossos corações, com doações mas quase nunca nos envolvemos pessoalmente. E por um outro lado tenho recebido ajuda de várias instituições voltadas a deficientes auditivos. Por isso é quase um dever moral para mim dar algo em retorno. Além, é claro, da minha colaboração para o British Hedgehog Preservation Society, mas não considero isso trabalho voluntário e sim dose diária de fofura extrema. :o)


7 Comentários | Deixe um comentário

Pois é, quando reclamam das bolsas-família por aqui, rotulando nosso governo de assistencialista e coisa e tal, penso que é claro que queremos mudanças mais profundas na estrutura de nosso mundinho, e que bom seria se ninguém precisasse de doações; mas não podemos esquecer que a fome não espera. É preciso ajudar também, sim. Aqui, aí, em qualquer lugar. Bjs.

Marcia, como sinto falta quando voce nao escreve no seu blog! Mas como sempre, vem uma grata surpresa do que voce pode nos informar ou compartilhar. Grande beijo.

Que post inspirador!
Tudo a ver com o que venho pensando sobre ser útil e retribuir de alguma forma a vida tão tranquila que levo... acho que tudo se resume no amor que essas pessoas são capazes de sentir. Amor, simples assim. Pelo mundo, pelo outro. Não é fácil pra qualquer um, mas está ao alcance de todos...

Passo todos os dias aqui para ver se há novidades, adoro acompanhar sua vida neste país maravilhoso. Minha filha morou seis meses aí e adorou.
Me chamou a atenção vc dizer que tem recebido ajuda de instituições voltadas a deficientes auditivos. Vc tem deficiência auditiva? Pergunto pq eu tenho uma doença que chama Síndrome de Meniére e uma das características é a perda progressiva de audição.
Beijão

Concordo plenamente com a Rita aí embaixo, pois quem reclama desses programas "assistencialistas" são pessoas como nós, que felizmente têm teto sobre a cabeça e comida fresca na mesa e não faz a menor idéia do que é ter que esticar seu braço não para oferecer ajuda, mas pra buscá-la.
Márcia, muito obrigada,pra variar deixo seu blog emocionada, impactada, alimentada. Se você não se importa, vou passar o endereço desse post para alguns amigos se inspirarem. Bjs.

O que me deixa brava é quando alguém critica quem cuida de animais abandonados, alegando que tem tanta criança abandonada por aí.
Como se cuidar de um animalzinho fosse uma tarefa menor.
Qualquer um que faz alguma coisa por qualquer ser vivo, seja ele gente ou bicho, merece nossa consideração.

e normalmente quem critica assim nunca faz nada, pois quem faz algo por alguém valoriza o gesto alheio, por menor que ele possa parecer.

beijo

Clau, concordo, concordo. E estatisticamente, quem ajuda instituições que cuida de animais são aqueles que TAMBÉM contribuem para causas humanitárias regularmente. Quem critica geralmente são aqueles que não ajudam nenhuma delas, como você bem colocou.

Passei por uma situação bem difícil com a minha mãe hospitalizada por 18 dias em um hospital público e comecei a olhar para situações que antes passavam desapercebidas,a carência de tudo o que se possa imaginar, as enfermeiras fazem o que podem com o que tem para o trabalho, elas compram coisas para pacientes e dividem o custo entre elas, como fraldas, creme hidratante para pacientes da UTI, entre outras milhões de coisas. Fora as famílias que abandonam seus doentes no hospital, sem nem seque levar o material de higiene. Sei muito bem o que vc quis dizer com ficar sentado no sofá com a barriga cheia, fui tomar banho e me coloquei na situação daquela senhora sem ter um banho decente. Hoje estou levando o que posso para doação para o hospital e visitando pessoas esquecidas.

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