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The game, Mrs Hudson, is ON

Sir Arthur Conan Doyle foi um dos primeiros escritores que marcaram minha vida, quando eu ainda nem adolescente era. O primeiro livro de sua autoria que li era pequeno, de poucas páginas, chamado "Um estudo em vermelho". A história era complexa, a segunda parte era tão complicada, que tive que reler várias vezes para entender que ainda era a mesma história. Porém, desde o primeiro capítulo quando Dr. John Watson descreve quem então seria seu melhor amigo e parceiro, Sherlock Holmes entra em sua vida com seu violino, seu chapéu estranho, seu cachimbo, sua teoria da dedução, para nunca mais sair. E você se vê em meio ao fog de Londres da era Victoriana, com cabriolets e cascos de cavalos fazendo barulho nas ruas de paralelepípedos. E em meio aos assassinatos em série sem aparente solução do mistério.

Li e reli todas as outras obras de Conan Doyle, durante diferentes eras da minha vida, sempre com a mesma perplexidade de acompanhar os casos sendo meticulosamente desvendados e solucionados. Conan Doyle, aliás, foi convidado várias vezes para fazer consultoria em casos verídicos da Scotland Yard e pessoalmente resolveu dois mistérios de dois prisioneiros inocentes.

Com todo meu respeito por Conan Doyle, sempre tive muitas suspeitas ao assistir adaptações de seus livros em filmes.

E quando a BBC começou a apresentar a série Sherlock, baseada na obra original ambientada nos dias de hoje com Internet, GPS, exame de DNA e nicotine patches, eu fiquei distante. Não era possível que qualquer produção tão audaciosa poderia dar certo. Mas um detalhe me fez mudar de idéia: Mark Gatiss (que escreveu The League of Gentleman, Psychoville, CBBC Horrible Histories e Dr. Who) é um dos co-produtores e co-escritores, com Stephen Moffat (Dr.Who, Jekyll). Gatiss faz também o papel de Mycroft Holmes.

A série é genial. No sentido literal. A escrita é bastante inteligente, detalhada, numa velocidade beirando a Asperger's (Sherlock Holmes foi inspirado em um cirurgião que, acredita-se atualmente, tinha Síndrome de Asperger; mas na época, 1887, um diagnóstico ainda estava séculos de distância). Todas as adaptações pro século XXI estão bastante convincentes. E a pitada de humor britânico vindo do cérebro da elite da The League of Gentlemen é sutil, irônica, sarcástica e deliciosa.

Outros dois detalhes que me fizeram assistir, well. Martin Freeman + Benedict Cumberbatch:








O papel de Benedict Cumberbatch obviamente é mais exigente, alguns monólogos são extremamente longos e rápidos em um só take. Mas Ben é fantástico em papéis de personagens excêntricos, um pouco estranhos, um pouco diferentes e incrivelmente brilhantes.

Martin Freeman tem sido a maior revelação de toda a série e recebeu o BAFTA de melhor ator coadjuvante em 2012. Seu papel é ser a parte humana, ordinária, ignorante da história. O papel dele é nos refletir. Nesta nova série John Watson é sobretudo um traumatizado ex-soldado, ex-médico de guerra, vulnerável e solitário. E que encontra em Sherlock a adrenalina e o companheirismo que oxigena o vazio de sua vida civil. Freeman contracena com o melhor de seu talento: suas expressões faciais dizem mais do que qualquer diálogo. E Mark Gatiss sabe disso. Numa das mais tristes cenas que assisti na tv britânica nos últimos tempos, Martin Freeman expressa sua dor sem lágrimas, sem dramas. Só ele olhando fixo para a lápide, engolindo a seco a tragédia. A mão repousando no mármore frio. Os olhos baixando o olhar, fechando e nos carregando com ele em seu infinito desamparo.





Acredito que se Sir Arthur Conan Doyle imaginasse que um dia existisse algo chamado TV e que um dia doze milhões de pessoas em sua ilha estariam assistindo à adaptação de um de seus livros, talvez ele assistisse também, talvez não sem ressalvas. Talvez ele ficaria satisfeito de ver que finalmente Dr. Watson ganhou o papel merecido, não de coadjuvante, mas de co-líder da trama. Talvez ele teria se divertido e se arrepiado na mesma medida com Moriarty. Talvez ele teria se comovido ao perceber que seu personagem Sherlock Holmes, inicialmente um sociopata, fora acolhido com tanta admiração por tantos leitores ao redor do mundo, atravessando séculos, por tantas gerações. Talvez, por um momento, ele teria se orgulhado.


5 Comentários | Deixe um comentário

Texto fantástico, Marcinha. Chorei quando John deu um tapinha na lápide, era como se tocasse, com toda cerimônia e distância britânicas, o amigo nos ombros. Não sei como serão os próximos dois anos de espera até a próxima temporada...

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Cris querida, e o melhor de tudo é poder comentar com você as cenas que mais nos tocaram, do mesmo jeito que trocávamos impressões sobre os livros de Stephen King, das nossas críticas ao excesso de detalhes horripilantes, dos desfechos inesperados, tantas saudades dessas conversas. Sherlock trouxe essas boas memórias, foi o melhor de tudo. 💖

Nó, Marcinha, o primeiro livro que eu li do Arthur Conan Doyle também foi "Um estudo e vermelho", e eu fiquei meio perdidinha também na segunda parte...E eu estou apaixonada com essa série, pra mim é a melhor adaptação! ^^

Mais madrugadas insones à vista. :-)

Fantástico.
Apesar dos diálogos prolixos, a série não deixa sua essência se perder.
O temperamento impecável de Sherlock (adoro quando "Anderson, don't talk out loud. You lower the IQ of entire street."
A Study In Red ganha nova versão (Sob o título de A Study In Pink) e prova que mudar não há nada de errado.
Scandal in Belgravia é meu episódio favorito.
Apaixonei-me por Benedict Cumberbatch como Mr. Holmes. E a cumplicidade de Martin Freeman faz jus ao seu personagem. Simplesmente autêntico.
Fantástico.
Se apaixonará também por Molly Hooper.
Assistam. Eu já assisti às 3 temporadas pelo menos 3 vezes cada.
Vale a pena.
I'm back...

fiquei viciada em sherlock, foi uma das melhores series que já vi. que venha a quarta temporada!

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