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Rhubarb, rhubarb



"Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho.
[...]Era fixa a minha idéia, fixa como... Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez a lua, talvez as pirâmides do Egito, talvez a finada dieta germânica."

- Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cuba



Há pouco tempo a idéia fixa que me acometeu foi de fazer "fish tacos" mexicanos. Fiz várias receitas, vários tipos de peixes, empanados, fritos, assados. Vários tipos de tortillas, de farinha branca, farinha integral, farinha de milho (a melhor). E toda possibilidade de extras: pimenta chipotle, salsa, guacamole, milho, feijão, sour cream. Até que enfim, encontrei meu preferido e me dei por satisfeita.

E eis que agora minha obsessão voltou-se para esta planta: o humilde rhubarb ou, em português, ruibarbo, nome que nunca me acostumo. So, rhubarb it is.

Nunca antes havia me empolgado com os talos de rhubarb por conta de uma primeira experiência em forma de um crumble de rhubarb mal feito que comi de um supermercado muito barato (snob bitch, I'm aware).

Mas agora depois de sete (sete!) anos morando em Yorkshire, é impossível ignorar quando chega a estação dos rhubarbs. Nossa região está entre o Triângulo do Rhubarb (seriously), que é famosa pelos "rhubarbs forçados", plantas que ficam no escuro e crescem mais tenras, rosadas e doces. São tradicionalmente colhidas sob luz de vela. Há uma grande comoção entre os britânicos quando chega a estação desses talos. A grande maioria dos blogs de jardineiros que leio já postaram fotos das suas plantas e receitas de crumble, geléia, sorvete, torta, bolos e até "champagne" de rhubarb. E de tanta empolgação ao meu redor, aos poucos minha curiosidade com os talos rosados foi crescendo até se tornar essa idéia fixa que me persegue.

Numa visita aos jardins do National Trust Nostell Priory, fiquei um tempão admirando as plantas de rhubarb na horta imensa do ex-monastério. Não eram rhubarbs "forçados", mas naturalmente selvagens. As folhas são enormes e os talos bem avermelhados.





No café desse lugar havia um bolo de rhubarb e laranja, feito com rhubarb do jardim. Pedimos duas fatias e um pote de chá (e sorvete pra Miss S). O bolo era daqueles que marcam para sempre na sua memória gulosa. Daqueles que você se arrepende de não ter comprado o bolo inteiro e não apenas duas míseras fatias.

Rhubarb em si é azedo, não há como escapar. Mas também não há por quê escapar. É a atração principal, aquele azedinho irresistível, feito pitanga, de aroma levemente floral. E esse azedinho adocicado cortando a riqueza de um bolo feito com muita manteiga, ovos, farinha de amêndoas, eu lhes digo... combinação divina. Me conquistou para todo sempre.

Procurei muitas receitas e finalmente encontrei na revista BBC Good Food um bolo muito parecido com o do Nostell Priory.

























Rhubarb and orange cake, BBC Good Food Magazine

400g ruibarbo, picado
50g açúcar

230g açúcar
225g manteiga amolecida
suco e raspas de 1 laranja
225g farinha de trigo com fermento
100g farinha de amêndoas
1 colher de chá de fermento
3 ovos médios

1. Misture o ruibarbo com 50g de açucar e deixe macerar coberto por 30 min. Unte uma forma de aro removível da 23cm e aqueça o forno em 180ºC (160ºC fan/gas 4).

2. Bata o restante do açúcar com a manteiga, raspas e suco de laranja. Adicione a farinha de trigo, a farinha de amêndoas, o fermento e os ovos (um a um). Bata até obter uma massa homogênea. Misture o ruibarbo. Despeje na forma e alise a superfíce.

3. Asse no centro do forno por 1h até 1h15m, cobrindo com alumínio caso o topo começar a escurecer demais (mais ou menos na metade do tempo). Teste com o palito, retire do forno e deixe o bolo na forma por 15 minutes antes de remover. Esfrie e sirva.

Nota: Na receita original pede-se para colocar amêndoas fatiadas no topo ainda cru. Eu não recomendo fazer isso porque amêndoas queimam rapidamente. Se realmente desejá-las, coloque-as uns 10 minutos antes do final e vá checando. Meus pedaços de ruibarbos foram todos pro fundo da forma e o bolo ficou levemente úmido demais no fundo. Mesmo assim, bastante saboroso, perfumado, dourado, azedo, doce, rico. No entanto, não é um bolo que devo fazer sempre e metade já foi pro freezer porque: 225g de manteiga! Jaysus...


E é claro que a idéia fixa não ficou apenas na cozinha e tive que comprar a minha própria planta para o jardim. Comprei na imensa horta comunitária do meu bairro, que é organizada pela ex-moradora da nossa casa, veja só. Fomos lá, batemos papo com ela, contamos sobre as obras da casa, das mudanças no jardim, da ampliação da família. A planta ainda é pequena (custou só dois dinheiros da Rainha), só vou poder colher os primeiros talos na primavera de 2017, considerando que a planta ainda esteja viva até lá. E se até lá minha idéia fixa também continuar presente, muitos outros experimentos surgirão nestas empoeiradas páginas, caro leitor. Tenham esperança no emplasto Brás Cuba.











5 Comentários | Deixe um comentário

Não acredito, ontem estava lendo e do nada lembrei-me do seu blog, e hoje entro nele e tcham... estava falando da planta que conheci na Alemanha a muitos anos atrás, lembrei-me da geleia que minha tia fazia e que infelizmente nunca mais provei, ai que vontade, mas infelizmente, acho que não consigo encontrar aqui no interiorrr de São Paulo
beijos...

Nunca me empolguei com o rhubarbs, mas lendo seu post me deu uma vontade danada de provar esse bolo...
Ampliação da família?!!!!!! Miss S vai ganhar um irmãozinho(a)?!!!
Abraços, michela

Me senti uma moradora de marte vindo a terra só a passeio.
Nunca tinha ouvido falar desse vegetal.No começo achei até que vc estivesse falando sobre uma virose (Deus nos livre)depois entendi que era de um vegetal e eu fiquei numa curiosidade para saber mais e mais sobre o tal rhubarb.
Corri para o google para saber mais sobre ele.
Não moro em marte obviamente mas estou quase lá,estou entre Angra dos Reis e Paraty e aqui acredite é o fim do mundo.Eu gosto,nasci aqui,mas tem coisas que não chegam por aqui.
E esse vegetal que eu nunca tinha ouvido falar me deixou frustrada,porque no alto dos meus 50 anos achando que já sei de muita coisa,descobri que ainda tenho muito para conhecer,e esse rhubarb é uma dessas coisas.Fiquei com agua na boca com as fotos do bolo,então vou ver se meu verdureiro me traz por encomenda.
abraços na familia

Eu gosto de ruibarbo, mas nunca tinha ouvido falar até vir morar na França. Fica muito bom numa torta, la tarte à la rhubarbe, muito boa!, também adoro o azedinho associado ao doce do "creme" da torta. Esse teu bolo parece ótimo!!!

Boa noite, querida Márcia, passei para dizer que a foto está linda, com uma luz incrível, parabéns!

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