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Unrelenting growth

Setembro marcou para nós o fim de mais um verão e o começo de uma nova era. Miss S, com quatro anos e três quartos de idade, começou a frequentar a escola primária.

Ao contrário da escolinha pré-primária, em que ela ia apenas três vezes por semana, agora ela entra no esquema compulsório do ensino nacional: cinco dias por semana, das nove da manhã às três da tarde.

Fomos aos poucos preparando Miss S para a grande mudança. Antes do ano letivo começar ela visitou a nova escola três vezes, passando uma hora e meia em cada uma das visitas. Gostou da imensidão do lugar, dos novos brinquedos, da área externa. Até brincou com uma das coleguinhas da mesma classe.

E assistiu à minha empolgação escolhendo cada peça do infinito mar de uniformes que ela vai precisar, para diferentes condições climáticas. E escolheu ela mesma o sapato mais brilhante, estilo mary-jane T-bar, lustrado e com luzinhas piscantes (I kid you not).

No primeiro dia de aula, foi toda aquela celebração já esperada dos pais-de-filha-única-que-não-vão-ter-outro-bebê. Mr.M tirou folga para ir conosco, já que não teremos outro "primeiro dia de escola" na vida. O sol brilhou e vestida de uniforme bem passado e devidamente etiquetado, Miss S caminhou empolgada conosco até a escola. Ela se despediu com um sorriso e um beijo e abraço para cada um de nós.

Quando fomos buscá-la ela continuava sorridente, mas exausta. Não quis comentar sobre nada do que aconteceu na escola. As professoras, no entanto, fizeram o enorme esforço de fotografar e imprimir duas fotos de cada criança para cada uma das famílias. Uma de Miss S no meio do dia e outra comendo o almoço. Significou o mundo pra nós dar essa espiadinha no dia de Miss S.

Os próximos três dias de aula foram ainda em estado de lua-de-mel com a escola. Na semana seguinte, porém, a realidade chegou nos ombros de Miss S junto com a chuva e os dias cinzas. Ela declarou que não queria mais ir pra escola e chorou, chorou, chorou e se agarrou no meu pescoço todas as manhãs para que eu não fosse embora e a deixasse na escola.

Conversamos com Miss S, que chegava em casa sempre dizendo que ela estava se sentindo solitária na escola. A coleguinha com que ela brincou durante as primeiras visitas à escola, e com quem Miss S não via a hora de brincar junto novamente, não quis mais brincar com Miss S.

E -- oh my heart -- como explicar em termos de quatro anos de idade, o que é esse sentimento de rejeição e que não há absolutamente nada de errado com ela só porque a outra pessoa não quer brincar junto? E o quanto a outra coleguinha tem todo o direito de escolher com quem quer ou não brincar? Eu lhes digo, é difícil, é bem difícil. Eu falei, falei, falei, não sei o quanto ela absorveu de tudo o que eu falei pra ela. Falei que dias mais fáceis virão, prometi que ela vai conhecer e gostar de outros novos coleguinhas, que tudo vai ficar bem novamente. E eu vi no olhar dela as dúvidas e as descrenças nas minhas promessas. Tudo o que eu recebi de resposta foram repetições de "I don't want to go to school".

Junte-se a isso a imensa saudades que ela sente da amiguinha da pré-escola, Miss Isabel, que ela adora com todo coração. Convidamos Miss Isabel para um playdate aqui em casa, para que Miss S soubesse que aconteça o que acontecer, elas sempre vão ser amigas, sempre vão poder ver uma a outra.

Comentei com a professora e algumas assistentes de classe sobre os sentimentos de solidão e rejeição que Miss S estava sentindo na escola, mas para ser honesta não esperava que ninguém fizesse nenhuma mudança. Afinal esses sentimentos são só dela. Só ela poderia aprender a lidar com eles.

No entanto, no dia seguinte, a professora deu a Miss S o cargo de "school helper" (assistente da escola) e delegou a ela pequenas tarefas como pendurar fotos, puxar a fila, distribuir a lição de casa, etc. Ela saiu da escola naquele dia radiante, me contando com orgulho sobre o novo cargo e dizendo que ela "always wanted to be a school helper"!

No dia seguinte ela não chorou quando a levei pra escola. Quando fui buscá-la cheguei mais cedo e vi a classe dela sentada em círculo e Miss S em pé, na frente da classe, mostrando o desenho que ela havia feito pra mim e explicando que era um jardim com flores em formato de borboleta, buttlerfly-flowers™. As crianças aplaudiram e meus olhos se encheram de lágrimas aliviadas.

E nesse dia também ela foi escolhida para trazer pra casa o mascote da sala: Zara the Zebra. A responsabilidade de cuidar do patrimônio da escola foi algo que ela levou muito a sério. Fizemos um "livrinho" (folhas A4 dobradas e grampeadas) e desenhamos tudo que Zara fez conosco: foi no playground, comeu o jantar de folhas, escovou os dentes e os pêlos e dormiu. Na manhã seguinte ela *precisava* ir pra escola porque era preciso devolver a Zara. Então foi outra manhã sem lágrimas. A professora pediu para Miss S mostrar o "livrinho" para a classe e contar sobre os desenhos.

Desde então -- bate na madeira -- não tivemos mais choro na hora de nos despedir. É claro que assim que ela acorda ela pergunta se é fim-de-semana e quando eu digo que não, que é dia de escola, ela reclama, resmunga, se vira na cama. Mas até eu também preferia ficar na cama do que enfrentar o mundo. Depois que ela toma café da manhã e coloca o uniforme ela já está pronta para ir pra escola.

Então, caro leitor, caso você esteja passando pelo mesmo ou quem sabe, anos mais tarde à procura de uma luz no fim do túnel você entrou neste blog buscando "minha criança chora todos os dias na escola". Caro leitor, vamos nos dar as mãos. Porque é mesmo difícil. São momentos que despedaçam o seu coração. Não bastassem as fraturas cardíacas que essa independência incansável e inexorável das crianças traz a cada ano, a cada marco de desenvolvimento.

Mas olhe, leitor, vai melhorar. Converse com a escola, com a professora, com as assistentes, elas já viram isso um milhão e quinhentas vezes, sabem exatamente o que cada criança precisa para se sentir segura, útil, confiante. Eu não esperava que a escola fizesse nada e as professoras fizeram um esforço extra para Miss S se sentir bem. E esse esforço, com gestos simples, gratuitos, fizeram toda a diferença e serei eternamente grata por isso (gratidão que expressei verbalmente também às professoras e assistentes, pra ficar claro).

Agora, duas semanas e meia de escola primária em nossos bolsos, venho aqui contar que Miss S já fez novas amiguinhas. Já ganhou muitos adesivos de bom desempenho. Já fez muitas lições de casa. Já aprendeu as novas regras, as novas rotinas. Já pegou novos resfriados. Já cresceu mais nessas semanas do que eu pude perceber. E é apenas o começo. O começo da história de Miss S, que só ela pode escrever e contar. Eu sei que ela é capaz.






































15 Comentários | Deixe um comentário

Marcinha, como ela está crescendo rápido! Fofíssima nos uniformes da escola! Sempre me emociono com seus posts! Abraços

Fiquei tão emocionada ao ler este post.Parabens Miss S por mais essa nova etapa.

Que mocinha linda! Parabéns Miss S. por mais essa conquista. Nossa, já nem me lembro mais como cai aqui nesse blog, mas acompanho desde meados de 2006. Boa sorte a toda família nessa nova etapa!!!

Hello again.

It was really nice to read your last post. My daughter is 12 years old now and has gone through all these challenges here in Brazil. She has been in the same school since she was 3 years old. She is a bit tired of studying lately. She is in the seventh grade. I am happy she has grown a bit as it was difficult to know how she was feeling when she was little.

I thought by being here in Brazil, the country where she was born, I wouldn't find any problems. Big mistake. She has had friendship problems specially now she is becoming a teenager.

She is able to speak both languages, Portuguese and English. Although, I must recognize that she feels better speaking her native Portuguese language.

My husband has been here since 2007. He worked here in an English school. But he lost his job due to the recession and the lack of students renewing their contracts. So he is returning to England and we are staying here for now.

I always thought that I could protect my daughter from bullying and so on by being here. Another mistake. She studies in a private school. I don't know how my life would be if I was in England. We won't know for sure. However, I would like to tell you that little adjustments happen during the whole life of a student.

So, I had this thought when I was in England that she would never adjust there... But today I know that those were my fears and not hers. If we had stayed there, England would be home. I know for sure now.

But my husband and I made the choice to come here when she was 1 and a half years. She doesn't know her father's country. She has been raised here. I could not protect her as I said from the world as I thought I could do...

An illusion, of course to think that by being here I could make her life easier.

So, maybe you if ever have these types of doubts believe me... you are where you should be, home.

Nossa, parando para pensar agora, nunca comentei aqui e leio suas histórias há tantos e tantos anos!

Mas o que eu queria dizer é que isso passa, minha Carol já tem 12 anos, passamos pela fase do chorar para ir, depois veio a fase do chorar para sair de lá e depois a fase do não quero ir e chegamos todos os dias atrasadas.

Hoje estamos bem, minha pré adolescente mal humorada vai sobrevivendo a escola como pode, sobrevivemos todos.

Boa sorte para vocês!

Como Eh bom poder curtir todos esses momentos dos filhos. Graças a Deus eu também tive essa possibilidade de somente curtir essa fase dos Meus filhos. Hoje são dois rapazes, 30 e 29 anos. Lendo as suas postagens me vem à tona toda aquela época. Todo trabalho valeu muito a pena. Curta bem isso, pois esse tempo voa. Aproveitando, Miss S está uma fofa. Abraços.

Muito legal você registrar os momentos de sua vida. Miss S já na escola! Ela está linda.
Abraços.

genteee essa mini pessoinha de uniforme?!!!! muito, muito fora!
abraços

Parabéns a Miss S por vencer mais essa etapa na sua vida! Vai dar tudo certo. Novos amigos vão surgir e ela vai crescer cada vez mais!

Oi Marcia!

Leio voce ha anos! Nao venho sempre mas vez ou outra venho aqui dar uma espiadinha pra ver como estao as coisas, já que sigo essa historia desde que você e Mr. M decidiram se casar. Adoro o seu modo doce e detalhado de escrever, contando a beleza, a simplicidade e o valor que você dá a cada momento bom da sua vida. Acho que se o seu blog fosse como o facebook, cada post seu teria milhoes de likes, tenho certeza! =)

Feliz tambem em ver que Miss S esta cada dia mais linda, cresce bem e é cercada de amor.

Sabe que eu tenho saudade dos posts antigos? principalmente quando você contava o que ia fazer para o almoço ou jantar, as tortas (o primeiro cheease cake que fiz na vida foi copiando a sua receita).

Fiquem com Deus e um forte abraço!

Denise

Que linda...eu AMO esse espaço, adoro ver a Miss S crescendo e ela está tão linda... e amo também a maneira que escreve.

Beijo!!

M a r a v I l h o s o acompanhar o crescimento desta linda familia. Desde Interlagos sou sua fã e minha admiração só cresce. Muita força, sabedoria e intuição.

OI Marcia
Sempre tão delicados os seus posts... me emociono sempre, e nem mãe eu sou :-D, imagine quem é lendo seu texto sempre tão sensível... parabéns, você escreve divinamente, e sobre a Miss S, o que falar? Cada vez mais fofa, linda.
bjs

Marcia, eu lia o seu blog desde sempre. Vim parar aqui pelo Drops da Fal. Fui me afastando logo depois do nascimento de Miss S, nem sei dizer por quê.

Hoje, em um momento de ociosidade raro, entrei no Drops e fui pulando de blog em blog, relembrando meus tempos de leitura diária. E voltei. Já devorei muitos posts, matando a saudade dessa sua tessitura delicada das palavras.

Ler "fraturas cardíacas" me calou e me fez chorar.

Obrigada e beijos.

O uniforme dela é tão fofo como a dona aliás.
Estou amando o seu blog, querida, os seus textos são muito bem escritos e suas fotos possuem uma boa resolução, o que é ótimo :)
Beijos açucarados.

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