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Actually, I can.

De alguns arrependimentos que guardo na minha caixa de decepções, um em particular me incomodou incessantemente durante décadas. Décadas, vejam só. Porque arrependimentos daqueles dignos do nome, são aqueles que perduram por anos dando cutucadas em sua alma quase diariamente.

E o meu era simples: dirigir. Tirei minha primeira habilitação nos meus idos 21 anos, em São Paulo. A auto-escola que fiz minhas primeiras aulas era péssima, o instrutor era péssimo e corrupto (me ofereceu uma taxa extra para pagar propina pro examinador). Todos esses anos de arrependimento começaram com essa escolha errada. Espero que essa auto-escola hoje esteja falida e que o instrutor tenha morrido uma morte dirigida por Quentin Tarantino.

Falhei o teste prático duas vezes. Ainda me lembro do roteiro do teste em Santo Amaro: umas duas voltas no quarteirão e duas manobras. Uns 10 minutos se muito. Hoje percebo o quanto ainda estava despreparada para enfrentar o teste com pouquíssimas horas de aulas mal dadas. Eu achava que o problema era meu e o instrutor estava mais interessado em que eu acreditasse nisso mesmo e pagasse a taxa da propina (Quentin Tarantino retorna à mente).

Desisti da auto-escola e graças a ajuda do meu irmão em seu fusquinha cor de mostarda, treinei mais um pouco, passei na terceira tentativa e fui habilitada. Depois disso dirigi mais algumas vezes com meu pai, mas naquela época não tinha dinheiro para comprar meu próprio carro e os anos foram passando e com eles minha confiança na direção.

Lembrava das aulas terríveis, da humilhação de falhar nos testes, da pouca experiência na direção. E finalmente coloquei na cabeça que não havia nascido pra isso, que era na verdade perigoso que eu dirigisse. É impressionante como nossa mente cria razões e justificativas exageradas para nos fazer acreditar no que talvez nem seja verdade, que talvez seja apenas o fruto de uma má experiência. Mas foi nisso que acreditei por muitos anos. Muitas vezes eu pensei em voltar a ter aulas, mais por insistência do Martin, e muitas vezes tentei e desisti.

No ano passado, em meio a terapia para tratar da ansiedade, o terapeuta me perguntou o que eu mais gostaria de fazer na vida se a ansiedade não me impedisse. Sem hesitar respondi: dirigir. Foram várias sessões tentando mudar minha forma de pensar e acreditar no que havia colocado na cabeça por anos. Traçamos um plano no papel com metas concretas para voltar a dirigir, passo a passo, com datas e horários: encontrar um instrutor com experiência em deficientes auditivos, entrar em contato, marcar a primeira aula.

Comecei as aulas em Setembro. A grande revelação foi perceber que não tive nenhum ataque de ansiedade desde a primeira aula. Não foi fácil, mas não era algo que me assustava. O instrutor não era perfeito, mas era profissional. Calmo e encorajador, usava linguagem de sinais enquanto eu estava no volante. Era apenas tudo o que eu precisava. Aos poucos fui na verdade gostando das aulas.

Tive também que estudar as leis e regras de trânsito britânico, governadas pelo Highway Code. Já havia estudado o código antes nas minhas tentativas-desistências anteriores, então ainda lembrava bastante coisa. Em Dezembro passei no meu teste Teórico e de Reconhecimento de Risco e tudo começou a ficar mais concreto.

Continuei me esforçando bastante nas aulas práticas, enfrentando as rotatórias com 5 saídas, rotatórias duplas, rotatórias com filtro, mini-rotatórias. Pegando trânsito do centro urbano. Diferentes semáforos (só de pedestres tem 5 diferentes - Pelicano, Tucano, Zebra, Puffin - com cinco diferentes formas de acender as luzes). Sem contar as manobras, que aqui a gente tem que fazer quatro: estacionar paralelo, dar ré na esquina, estacionar em vaga 90º e virar o carro na direção oposta.

No começo tudo parecia alienígena, mas a prática é realmente a sua amiga. Muita gente me dizia isso, que dirigir é questão de prática. Martin quase perdeu a razão de viver de tanto que repetiu isso por todos esses anos. Estavam todos certos, a prática me ensinou.

Assim que completei 30 horas de aulas eu e meus fantasmas marcamos meu teste prático. E todo o mês de Fevereiro foi de aulas intensivas, dia sim, dia não, todas no centro de uma cidade urbana e movimentada, totalizando mais de 40 horas de aulas. Finalmente o dia 22 de Fevereiro chegou, com chuva e ventos fortes.

O teste aqui dura 45 minutos, que incluem Show Me Tell Me (responder perguntas sobre o funcionamento do carro), Independent Driving (onde você dirige a um determinado destino sem instrução por 15 minutos, apenas seguindo placas e sinais), direção em áreas urbanas e rurais e por fim as manobras. É permitido cometer 15 erros mínimos, mas um único erro sério já elimina o candidato.

Quando estacionei o carro de volta ao centro do DVSA a examinadora comunicou: "Thank you, this is the end of your test and I'm pleased to say that you've passed". Em choque, fiquei olhando pra examinadora sem saber o que falar. A examinadora, que sabia que eu sou deficiente auditiva, confirmou: "Did you understand me, Marcia, you've passed". E então voltei a respirar. Eu passei. Passei com 6 erros mínimos. Holy moly!

Cheguei em casa e minha torcedora mais fiel me esperava com o pai dela e um cartão dizendo "Well done Mum, you past!" (sic) que ela fez antes mesmo de saber o resultado. E eu fiquei tão aliviada de não decepcioná-la!

Estou longe ainda de dizer que sei dirigir. Ainda não sou muito rápida arrancando nas rotatórias. Ainda dou ré a passo de lesma com cãimbra. Ainda fico tensa ao acelerar mais que 50mph. Ainda faço julgamentos errados, devagar demais, hesitantes demais. A grande diferença é que desta vez tenho a sorte de ter um carrinho usado para continuar praticando. No dia 28/02, foi a primeiríssima vez em que dirigi sozinha na vida. Dei uma voltinha pela cidade, passei pela escola, treinei nas rotatórias e nas curvas fechadas. Voltei, estacionei na nossa driveway, desliguei o carro (handbrake? check. sure? double check. check again, just in case.), fechei e liguei o alarme. E oh, que sensação boa que me inundou...

Com este certificado na mão e minha própria chave (com chaveiro do Marty McFly -- "well, history is about to change"), não quero e não vou colocar aquele arrependimento de volta na minha caixa de decepções nunca mais. Mudei o rumo da história. Estou longe de chegar onde devo, mas também longe de onde estava antes. Daqui outros vinte anos acredito que vou olhar pra trás e agradecer essa pessoa de 43 anos que não desistiu e tentou mais uma vez, embora que um pouco tarde.

Aprendi que os limites que coloco em mim muitas vezes são errados. Bem errados. Preciso repensar todas as vezes que digo que não posso fazer isso ou aquilo. Porque na verdade, eu posso.

E se por um acaso, você leitor for como eu, iniciante de meia-idade do que quer que seja, quero lhe dizer: nunca é tarde demais. Nunca estamos velhas demais. O que nos impede não é o que somos, mas o que acreditamos que não somos.



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"The best time to plant a tree was 20 years ago.
The second best time is now."

-- provérbio chinês


21 Comentários | Deixe um comentário

Parabéns,filha, por ter superado o trauma e concretizar o seu sonho! É uma história triste e ao mesmo tempo linda. Alguma coisa dessa história me passou despercebida devido ter sido uma mãe,um tanto ausente devido a correria da vida. Mas sempre torci para o seu sucesso na vida. Continue acreditando que você é capaz.

Marcia, parabéns pela conquista. Tenho 51 anos e minhas maiores conquistas foram depois dos 40. Inclusive minha habilitação. Aqui no Brasil tem mesmo uma máfia pra tirar habilitação. Na auto escola ofereceram pro meu filho por R$ 350,00 ( esse valor em 2014) pra garantir que ele seria aprovado. Resultado: fez exame duas vezes e não passou. Só passou na terceira prova. Gastamos mais é óbvio, mas nunca daríamos dinheiro pra um grupo de safados. Mas eles devem ganhar de alguns,senão não fariam proposta a outros.
Bom, o que quero mesmo é te parabenizar. Um abraço

Parabéns pela sua conquista. Eu tenho carteira de motorista mas vou confessar uma coisa, gosto sempre de ir no banco de passageiro apreciando a paisagem...rsrs, sempre fui muito pressionada pelo meu marido para dirigir, mesmo não gostando muito. Na época com filhos pequenos foi bom pois tive o meu tempo de maetorista, agora eles que são meus motoristas quando preciso.
Isso serve de bom exemplo para nossos filhos, nunca desistir de um sonho, mesmo que tenhamos que superar nossos medos e receios.
Estava sentindo falta dos seus textos.
Abraços e feliz 2017.

Parabéns!!!!! Sempre venho nesse blog querido e somente via o gatinho...senti falta dos seus textos, seu jeito de dar um colorido, vida em fatos corriqueiros. E você estava passando e superando o meu grande medo: Dirigir. Obrigada Márcia, por compartilhar seus temores, experiências e superações. Muito obrigada, tentarei. Abraços e felicidades para você e sua família.

Parabéns!!!!! Sempre venho nesse blog querido e somente via o gatinho...senti falta dos seus textos, seu jeito de dar um colorido, vida em fatos corriqueiros. E você estava passando e superando o meu grande medo: Dirigir. Obrigada Márcia, por compartilhar seus temores, experiências e superações. Muito obrigada, tentarei. Abraços e felicidades para você e sua família.

Tinha escrito um baita de um texto e na hora de enviar apertei cancelar! Argh!! Bom não vou me lembrar de tudo, mas o principal era te desejar parabéns pela coragem de nao desistir! Todos os dias venho aqui para ver se tem post teu novo! Que alegria quando esbarro em um! Tuas histórias fazem falta! Nao desapareça por muito tempo! 😉 beijos e abraços da tua fã de tantos anos!

Parabéns, Marcinha!
Sua história de superação nos ensina que nunca é tarde pra tentar e também para prestar atenção se somos mesmo o que achamos que somos.
Incrível como você é tão querida que suas leitoras continuam visitando o blog quase que diariamente em busca das suas palavras sempre tão bem escritas.
Beijos e que você vá cada vez mais longe nesta estrada, agora no banco do motorista!

Entrei aqui para pegar a receita do muffin de banana com gotas de chocolate, e que maravilha foi ver que tem post novo! Dirigir para mim também é uma questão. Também "bombei" na prova antes de conseguir me habilitar. Minhas únicas experiências dirigindo foram nas aulas da auto-escola e algumas poucas vezes com o meu pai. Hoje, 14 anos depois, não tenho coragem de pegar em um carro, teria que fazer auto-escola novamente. Às vezes, acho que dirigir não é para mim, mas confesso que seu post me fez pensar que talvez seja apenas uma desculpa.

Marcinha, saudades dos seus posts! Fiquei emocionada com a sua superação. Tenho carteira há uns três anos, mas fiquei chateada com algumas situações e parei de dirigir. Tirei carteira de moto há um ano e agora vou de moto pra todo lado, mas de vez em quando pego o carro em lugares bem calmos. É isso mesmo, a prática faz o motorista, não tem jeito. Parabéns e siga sempre em frente, vencendo cada obstáculo (também faço terapia pra ansiedade e já venci diversos bloqueios). Abraço!

Parabéns pela vitória pessoal! Sempre é tempo de nos superarmos!

Já estava com muita saudade de seus textos! Parabéns pela conquista! Diferente de você sempre amei dirigir e acho que desde os meus 15 anos ficava tentando marchas a ré, à frente esperando sempre pelo dia mágico dos meus 18 anos e daí nunca mais parei! Já minha irmã foi praticamente forçada por meu pai a se habilitar. Questão de gosto... Mais uma vez, parabéns por sua determinação e se eu puder aconselhar não pare! Pratique sempre e logo será um ás do volante.Em dezembro estive em Londres e fiquei apavorada só de pensar se eu conseguiria dirigir naquele sistema principalmente com aquelas conversões à esquerda ou à direita coisa que aqui não acontece de jeito nenhum... Enfim acho que se praticasse...

Saudades de voce. Suas historias sao sempre massagem no coracao. Parabens :)

Parabéns! Nunca é tarde para uma superação, para mudanças. Poxa, que bom ter texto novo para ler. Bjs

Uau! Parabéns, mil vezes parabéns!
E olha... de coração... esse sistema daí é muito mais difícil de encarar que o daqui! Tem que ser muito fera pra passar num teste tão longo e cheio de exigências. Assim se fazem bons motoristas, não é mesmo? Técnica, pra mim, não conta tanto. A pessoa pode dominar a máquina... mas se não conhecer e respeitar a civilidade e as leis de trânsito, vira a pior das motoristas.
Que maravilhosos passeios a aguardem!
Mande também meus parabéns ao Martin e à Sophie, pelo apoio. Afinal, a conquista é da família inteira.

Márcia,

Parabéns! Eu também tive muita dificuldade quando aprendi a dirigir e nos primeiros meses tinha dor de barriga cada vez que ia sair de casa. Lembro até hoje no primeiro dia que eu me dei conta que estava dirigindo e pensando (em outras coisas) ao mesmo tempo. Demorou meses! É difícil mesmo, fiquei muito feliz que você conseguiu dominar o medo e fazer as aulas e a prova.

Teus post poderiam ser diários por mim! :). Tenho carinho por vc e tua família c se conhecesse! Parabéns pela conquista e um apertado abraço na SOphie. :)

Olá Márcia! "Tropecei" no seu blog há 5 ou 6 anos (googlando receitas de macarrons) e nunca mais deixei de o seguir, apesar de nunca ter comentado. Desta vez não resisti. Que comovente história de superação. Parabéns pelo sucesso alcançado e a maior das felicidades nesta nova fase de "encartada", como dizemos em Portugal.

Parabéns, Marcia. Fico feliz por você! Um abraço

Marcinha querida, A gente pode falar com voce como se fossemos grandes amigas de muito tempo, pq o seu blog e querido demais! Acompanho vc desde muito tempo, desde quando me mudei do Rio pra ca em 95, e sentia falta de amigos. Mas nunca te escrevi. Agora quero te dar os parabens! Pela sua vida corajosa no frio do nosso clima do norte, pela familia linda e pela sua alegria e sinceridade, de coracao aberto. E tbm pela carteira de motorista. E bom sabermos que podemos ser livres. Aqui em Montana passa um dear de manha e outro de tarde pela estrada. Eh muito tranquilo dirigir aqui. No Rio eu nao tenho coragem porque o transito e tao agressivo. bom, divago... Quero deixar o meu amor e beijos a todos vcs ai na Inglaterra. Teresa

Ei, parabéns!!!
Caramba, fazia muito tempo que eu não vinha aqui ler seus posts deliciosos e saber notícias da Família M&M&S. Que demais voltar e dar de cara com essa baita conquista! Arrasou e de quebra me incentivou aqui (a correr, que tem me parecido um grande desafio).
Obrigada e um beijo


Prezados Senhor(a),


SOlicito; por gentileza, o envio de uma email apropriado para futuro contato.

Desde já agradeço a atenção.

Obrigado, Fernando Tavares

Retorno para: cadmet@bol.com.br

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